Gosto de existir no mistério das coisas

| escrito ao som de Fake Empire – The National |

Das coisas que eu me lembro… de sentar-me à mesa da cozinha e reter uma xícara bem cheia de leite caramelado entre as mãos. De fechar os olhos e tragar do aroma sutilmente adocicado. Do olhar de C., e de seu sorriso cúmplice ao ver um bigodinho feito de espuma de leite acima dos meus lábios e a maneira como eu usava a língua para limpá-lo. Reprovando com veemência o meu gesto seguinte: correr a boca pela manga da camiseta. Ela esticava a mão, oferecendo-me o guardanapo: sabe para que serve isso, bambina?

Meu primeiro escrito foi uma missiva para aquela Mulher primaveril. Gosto imenso de pousar naquele instante e revisitar seu olhos — tão cheios — a correrem pelo papel, decifrando a rude caligrafia de uma menina a bordo de seus poucos anos e que tentava imitar a dela, sutilmente inclinada para a direita.

Escrevi muitos outros textos, ensaios, redações escolares, artigos, teses e tantas outras coisas para mim e para os outros… nos anos seguintes. Uma história que acabou publicada em capítulos no jornal da escola. E meia dúzia de poemas que acabaram premiados num concurso, no qual fui inscrita pela professora de literatura, que leu — emocionada e satisfeita — para uma pequena platéia, enquanto eu implodia por dentro. Como eu desejei ser uma gaivota nesse dia. Para piorar… mio babo adquiriu todos os exemplares e distribui para a família.

Eu já era adulta quando entreguei outra folha de papel a uma figura-menina-maluca, com os cabelos bagunçados de vento e coloridos de sol. Sempre tagarela… ela se calou. Enquanto lia, respirava fundo, enchendo o peito de ar. Nunca antes havia provado de tanto silêncio. Ganhei um abraço demorado… e ela foi embora. Voltou no dia seguinte, sem dizer palavra a respeito do dia anterior ou do texto. Dias depois, presenteou-me com um livro de Anne Sexton e um pequeno bilhete…

Do que eu não me lembro… do que escrevi quando decidi escrever um romance. O instante da decisão é nítido. Eu sei onde estava e o que fazia. A frase inteira, dita em voz alta, ressoou pelas paredes do lugar e do meu corpo. E o meu sorriso ultrapassou as barreiras da vida-tempo-espaço… alcançando a figura do outro lado da mesa. E eu limpei um bigodinho — imaginário — de leite com a língua…

Tenho plena consciência de que a decisão não resultou em um escrito imediato. Uma história não brotou da ponta dos meus dedos. Personagens não saltaram da realidade e a escrita não aconteceu feito mágica. Levou algum tempo… dias-meses-semanas-anos. Mas eu sei que escrevi alguma coisa depois disso.

Lembro-me que tentei retomar meus diários… não deu certo. Risquei palavras em folhas avulsas, amassadas e descartadas. Rabisquei algumas palavras… riscadas em seguida. Arranquei a página… a fiz em pedaços. Eram premissas-promessas… nada de texto inteiro, frases bem pontuadas.

Nos dias seguintes eu rasguei e amassei boa parte de um pequeno caderno, que acabou descartado no lixo reciclável. Depois veio o blogue… e eu fiquei a olhar para o branco da página, com o maldito cursor a piscar-pulsar-pontuar — tempo-emoções-espaço e todas as formas de silêncios e barulhos possíveis.

Eu ouvi alguém dizer… escrever dói e fiquei existindo dentro daquela frase por alguns minutos, certamente, o tempo de um gole ou dois. Conclui que não-escrever é — muito pior. Sai para andar, sem destino, como tanto gosto… e comprei um caderno novo em uma papelaria de rua. Ao chegar à casa, o arremessei em cima do sofá e por lá ficou — não sei dizer por quanto tempo.

O primeiro texto escrito — num desses dias seguintes a tudo isso — permanece escondido em algum lugar da memória. Faz parte de um desses ontens que eu coleciono e não faço idéia de como acessar-acionar.

Nesse Agosto temos b.e.d.a — blog every day august.
Adriana Aneli — Claudia Leonardi — Darlene Regina
 Mariana Gouveia — Obdulio Nuñes Ortega — Roseli Pedroso

Publicado por Lunna Guedes

Sou sagitariana... degustadora de café. Figura canina e uma típica observadora de pássaros, paisagens, pessoas e lugares. Paciência é algo que me falta desde a infância. Mas sobra sarcasmos para todas as coisas da vida que fazem mais barulhos que cigarras nos troncos das árvores. Aprecio o silêncio e falas cheias, escreve-se em prosa por apreciar a escrita em linha reta. Tenho fases como a lua... sendo a minguante a minha preferida!

13 comentários em “Gosto de existir no mistério das coisas

  1. Assim é a vida! Roda, roda, e, às vezes, nem parece ter saído do lugar. Somos muito pacíficos, travestidos de movimento, fingimos que atuamos na maioria das vezes.

  2. Dona Catarina-Lunna, fiquei aqui a pensar um montão de coisas a respeito do seu primeiro texto. Você trata de arrumar uma resposta.

  3. Amei esse texto. Que delícia, mas eu fiquei com vontade de ler esses poemas da menina Lunna. Sei que foram escritos em italiano, devem ser lindos, sonoros e ruidosos.
    E eu já elegi que agosto e abril são os meus meses favoritos, temos Lunna-Catarina todos os dias.

    bisous

  4. Você escreve para se achar, eu recorto e colo para se achar. Por que a gente anda tão perdida? Eu pelo meu lado cada dia me perco mais e mais. Quem sabe um dia a gente se dá cara uma com a outra..

    Que texto!!!

Pronto para o diálogo? Eu estou (sempre)

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