Sementes em estado de espera…

…passei à tarde de hoje investigando os meus dias, as minhas horas! Debussy veio comigo. O meu autismo musical me faz ouvir a mesma música em repeat sem nunca me cansar, durante dias inteiros. Foi assim com “claire de lune” — que tocou seguidas vezes.

Meus olhos se detiveram junto ao branco do teto por alguns segundos. E eu fui tateando um combinado de coisas antigas… porque eu gosto do ato de investigar-me, percebendo meus próprios cenários-cantos-avessos. Há tanta coisa em mim para resgatar, mas, às vezes, tudo me escapa. 

Minha memória é essa coisa insensata-insana-contraditória… desperta quando bem o deseja. É rebelde… afoita. Ás vezes, prefere guardar tudo para si… a partilhar com a realidade que sou.

Insisto, mas o meu esforço em buscar por coisas minhas, nesse velho álbum de fotografias… é recebido com certa ironia. E quando finalmente me aborreço-desanimo-e-desisto… ventos conhecidos sopram aromas de Primavera.  Sinto o coração disparar dentro do peito. Fecho os olhos — abandono o tempo presente no qual habito — e tudo se precipita numa espécie de sobrevida.

Minhas memórias se oferecem ao tato… em imagens-movimentos, como um filme antigo — em reprise — que assisto como se fosse a primeira vez. É como me sentar em um balanço imaginário… e voar para frente — indo de encontro a um futuro equivocado, que espio sem curiosidade. E voar para trás — indo repousar em meus pretéritos, essa cama com lençol recém-saído dos estendais…

Em conversa com W., em nosso último diálogo… percebi que minha memória prefere dialogar com o papel… preenchendo os hemisférios da minha escrita. Sinto que enquanto a escrita avança — rumo ao futuro — as lembranças se oferecem, como se soubessem do que tanto preciso, naquele instante: o meu passado.

Não sei como não havia percebido antes. Precisei ler o trecho de um escrito-antigo, para dar conta de coisas minhas misturadas as coisas alheias. Foi um susto. Me engasguei com a minha própria realidade… (re)inventada.

Passado o susto… devo dizer que gostei da “interferência”. Ao chegar à casa, vasculhei os meus escritos — todos — e encontrei passagens inteiras de minha história. Pessoas nas quais tropecei ao longo dos anos, lugares que visitei, momentos vividos com intensidade moderada ou intensa.

Estava tudo lá… em perfeito estado de preservação, pronto para uso. Sou obrigada a afirmar que as minhas memórias são sementes em estado de um chão fértil, que é o que tento ser…

Esse texto é parte integrante do livro Septum (diário das 4 estações)

Nesse Agosto temos b.e.d.a — blog every day august.
Adriana Aneli — Claudia Leonardi — Darlene Regina
 Mariana Gouveia — Obdulio Nuñes Ortega — Roseli Pedroso

Publicado por Lunna Guedes

Sou sagitariana... degustadora de café. Figura canina e uma típica observadora de pássaros, paisagens, pessoas e lugares. Paciência é algo que me falta desde a infância. Mas sobra sarcasmos para todas as coisas da vida que fazem mais barulhos que cigarras nos troncos das árvores. Aprecio o silêncio e falas cheias, escreve-se em prosa por apreciar a escrita em linha reta. Tenho fases como a lua... sendo a minguante a minha preferida!

6 comentários em “Sementes em estado de espera…

  1. Tenho que tomar cuidado para que não me revisite muitas vezes, ainda de formas diferentes. Mais do que auto-plágio, talvez seja uma maneira de me confirmar. Quantas vezes não vivo a sensação de que são histórias inventadas para criar um passado que não tenho?

Pronto para o diálogo? Eu estou (sempre)

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