Criação de personagens

Quando ministro aulas de escrita… a pergunta mais comum que ouço é: como criar personagens? Parece que se trata de um segredo bem guardado por alguns escritores-especialistas— não é. Mas eu gosto de pensar a resposta com calma… consciente de que irei oferecer o meu processo de criação que talvez não sirva para o outro.

A escrita é esse elemento particular! — não existem mapas que nos orientem. A estrada é longa e pode não nos levar na direção esperada. Considero que a condição de um escritor é a de estar à deriva, em alto mar. Mas ao conhecer o processo do outro é possível compreender-se. Afinal, é disso que se trata e a escrita depende disso: do escritor saber-se…

Como disse Fernando Pessoa: “primeiro estranha-se, depois entranha-se”

Em todos os processos de escrita, a fase em que estou — conhecer os meus personagens — é certamente a mais instigante. É como ir as ruas e caminhar em meio a uma multidão de estranhos e esbarrar em uma única figura que destaca-se, salta aos olhos — numa espécie de colisão planejada pelo universo e pronto. Percebo o desenho do corpo, capturo os gestos, o jeito de andar. Antecipo falas e vou adequando-me ao outro. Primeiro é o meu corpo que aceita a chegada do outro. Depois a minha alma-memória que entra em ação. É tão rápido e ligeiro que basta um minuto de distração para que tudo se perca e pior, para todo o sempre.

Cada pessoa é um personagem com a melhor das histórias arquivadas em suas memórias — prontas para serem escritas. Conhecer alguém não é a mais fácil das tarefas… já convivi com algumas pessoas durante anos para, em algum momento, perceber que eu nada sabia a respeito daquele humano — estranho — com quem partilhava vivências.

Conviver com pessoas é preparar-se para o espanto… viver para essa condição sem que seja possível antecipar-se!  Afinal, ninguém se prepara para o susto…

Conhecer personagens requer muito mais de si que do outro. Exige cuidado para não transpor certos limites. Uma parte virá do outro e é impossível saber o quanto — tenho para mim que é sempre a menor parte porque é impossível dar tudo de si a alguém. Alguma coisa sempre se preserva.

E a ficção agradece. O nosso imaginário precisa de migalhas para que uma parte dessa figura-nova pertença a nós e nos permita preencher lacunas com coisas nossas; aspectos nossos. Somos o começo, o meio e também o fim dessas personas “inventadas” para benefício de uma história.

Eu gosto imenso quando descubro alguém que conquista a minha atenção em um dos Cafés da cidade… sinto-me à vontade para espiar fôrmas e formas. Absorver gestos… repetindo-os. É como recomeçar a vida… reaprendendo a fala, os passos. Deixo de ser quem sou para ser um figura nova-inédita, com todas as datas de vida-e-morte definidas pela ficção.

Nesse Agosto temos b.e.d.a — blog every day august.
Adriana AneliClaudia Leonardi Darlene Regina
Mariana GouveiaObdulio Nuñes OrtegaRoseli Pedroso

Publicado por Lunna Guedes

Sou sagitariana... degustadora de café. Figura canina e uma típica observadora de pássaros, paisagens, pessoas e lugares. Paciência é algo que me falta desde a infância. Mas sobra sarcasmos para todas as coisas da vida que fazem mais barulhos que cigarras nos troncos das árvores. Aprecio o silêncio e falas cheias, escreve-se em prosa por apreciar a escrita em linha reta. Tenho fases como a lua... sendo a minguante a minha preferida!

10 comentários em “Criação de personagens

  1. É mesmo intrigante para mim o surgimento de uma personagem. Algumas, estipulo comportamentos, ideias e características. Outras, impõem as suas presenças como se estivessem vivas. E acabam por falar tão alto que fica impossível não ouvir.

Pronto para o diálogo? Eu estou (sempre)

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