algumas páginas de Elizabeth Bishop depois

Ah, estranha vida a de bordo! Cada novo dia
Raia mais novo e mais outro que cada dia na terra.

— Álvaro de Campos, pág. 221 —

O espaço é outro… tudo por aqui é novo — das paredes aos móveis. Ainda não domei essas figuras que saltam a minha volta. Sou estrangeira de novo: na casa e nas ruas — as calçadas desconhecem o meu passo e eu nada sei das pessoas e suas paisagens particulares.

…é mesmo impressionante como São Paulo pode impor ritmos e nuances de um dia para o outro: basta mudar de bairro. Cheguei a conclusão inevitável de que é totalmente impossível conhecer essa cidade em uma vida apenas. É a mesma sensação que tenho ao ler e reler os poemas de Eliot…

Mas eu preciso ir lá para fora… deixar o vento conduzir o meu corpo. Dobrar esquinas, descobrir o nome das ruas. Ser parte da paisagem e me perder por aí. Por enquanto só faço espiar os movimentos que chegam aos meus olhos… nessa varanda que exibe um sem-fim de janelas, que transportam-me para esse ontem-recente. Eu gosto imenso de espiar a realidade a partir de janelas… de trens-coletivos-casas-apartamentos.

Do outro lado da rua há um prédio branco, que escala os ares — andar por andar — até os céus. Lembra-me aquela brincadeira da infância que eu  nunca quis brincar — amarelinha. Em uma das janelas, eu descobri a figura deliciosa de um Signore. Terceira janela a esquerda. Ele tem traços comuns. É uma pessoa envelhecida. As rugas totalizam os anos que ele viveu. É uma figura solitária. Em seus olhos há cansaço, mas o corpo não recusa a vida. Ele já não vê graça alguma na tal realidade. Acha que foi longe demais — mas ele segue amanhecendo em todas as manhãs, para o seu desespero.

Seus olhos embriagados vigiam os movimentos da rua… parecem esperar que tudo pare, se acabe. Tenho para mim que ele deve ter pensado em saltar pela janela e realizar um último vôo, falta-lhe condições para escalar a janela. Seus joelhos doem, seus músculos queimam. O menor esforço lhe custa uma vida inteira.

Por um segundo… senti que ele olhou para mim. Inventei um sorriso e confeccionei um aceno que não chegou as minhas mãos… enquanto ele — em seu mundo particular — fechou abruptamente a janela, como se me mandasse embora de sua casa… para a qual não fui convidada.

Era como se soubesse que eu estava a investigá-lo com meus olhos de lince… e escondeu o desconforto que isso conferia. Mas era tarde demais! Meu olhar tinha se afundado entre suas paredes alugadas… com móveis antigos que vieram de outra casa, muito mais aconchegante, da qual não se despediu por não suportar certos fantasmas. Há tempos que a única companhia que tem é de duas cuidadoras que se revezam dia-e-noite. Seu refúgio é uma garrafa de Genebra — que mantêm escondida — e para a qual volta em busca de abrigo e aconchego. A garrafa se tornou uma forma mais humana de abrandar as ausências que trinta e seis anos de vida incomum deixaram em sua pele…

(algumas páginas de Elizabeth Bishop depois) — percebi que aquele Signore e sua imagem à janela é perfeita. Uma espécie de Tela de Hopper. O futuro de um de meus personagens… um cirurgião que dedicou sua vida a consertar os corações alheios. Era o que precisava para definir os últimos traços desse desenho tão-meu. Eu tinha apenas um passado alquebrado e agora, de posse de seu futuro, posso enfim, me dedicar ao tempo-presente.

Nesse Agosto temos b.e.d.a — blog every day august.
Adriana AneliClaudia Leonardi — Darlene Regina
Mariana GouveiaObdulio Nuñes OrtegaRoseli Pedroso

Publicado por Lunna

É sagitariana... degustadora de café. Figura canina e uma típica observadora de pássaros. Paciência lhe falta desde a infância. Mas sobra-lhe sarcasmos para todas as coisas da vida que fazem mais barulhos que cigarras nos troncos das árvores. Aprecia o silêncio e falas cheias. As que se repetem com facilidade de boca em boca despreza... Lacaniana por opção.... E completamente apaixonada por mulheres que usam a escrita como uma navalha afiada que corta enquanto é carne. Escreve à noite e reescreve pelas manhãs. Gosta de calçadas e corujas. Anda sozinha ou acompanhada, tudo depende da fase... minguante é a sua preferida!

6 comentários em “algumas páginas de Elizabeth Bishop depois

  1. Quando comecei a leitura – entre o café que me ofereceu a pouco – ofereceu ou fui eu? – eu pensei em Hopper e para minha não surpresa, eis que ele surge no texto. Por falar em janelas, e as moças… aquela que trabalha em um hospital?

Pronto para o diálogo? Eu estou (sempre)

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