As cidades e os livros…

Um trecho do livro de Patti Smith — devoção — em que a autora, que é também personagem de suas narrativas, visita um túmulo de em Bybrook Cemetery, em Londres… chamou a minha atenção em todas as vezes em que li o pequeno livro-diário-bloco-de-notas, publicado num tempo anterior a esse, quando eu frequentava livrarias e revirava prateleiras em busca de livros.

Eu não sou uma pessoa que visita cemitérios, embora tenha ido ao Cemitério da Consolação — a mais antiga necrópole da cidade e feito fotos lá. Esgotei um rolo inteiro… trinta e seis exp. — mas não faço idéia do destino dado as tais fotografias. Certamente está em alguma caixa, em algum fundo de armário…

É lá que estão os restos mortais de Mario de Andrade, Tarsila e outros tantos. Como cortejos e sepultamentos são raros por ali, a rotina do lugar é de Museu a céu aberto — pouco visitado porque não é um costume local. Eu não conheço um único mapa turístico que indique a famosa necrópole como ponto de visitação, como acontece em Paris e Buenos Aires, por exemplo. Aqui há uma data no calendário — finados, em novembro — para isso e só. 

O Cemitério da Consolação tem alguns mausoléus bizarros… como o da Família Matarazzo. E lindas estátuas feitas por encomenda — algumas esculpidas em bronze… responsáveis por atraírem a atenção de um público especifico: os “ladrões de sepulturas”.

Não tenho interesse por Necrópoles… não é um hábito meu visitar túmulos desse ou daquele artista. As minhas preferências são outras… motivo de espanto para alguns. Lembro-me que ao chegar em Atibaia, perguntei na recepção do Hotel: onde fica a Biblioteca pública? A moça arregalou a sobrancelhas, gaguejou, revirou os papéis e me ofereceu um guia, com um sem-fim de pontos turísticos. Menos o endereço da Biblioteca que eu descobri ao acaso dos passos, ao caminhar pelas ruas do centro. Não era um prédio atraente, pelo contrário, parecia uma prédio comum e se não esticasse o olhar, jamais imaginaria se tratar de um sagrado templo dos livros…

Gosto imenso de conhecer Bibliotecas… tive o prazer de visitar algumas nas viagens que fiz. Algumas estavam bem preservadas e mantinham a mobília original. Outras — lamentavelmente — estavam abandonadas, com infiltrações pelas paredes, vestígios de inundação nos pisos e os livros-poucos eram disputados por cupins e traças.

Visitei diversas livrarias — que hoje cobram entrada — convertidas em pontos turísticos de suas cidades, como é o caso da encantadora Lello, no Porto que inspirou a autora do bruxinho mais famoso da literatura contemporânea. E a charmosa Shakespeare and Companhy, em Paris. Gosto imenso das duas, mas se tivesse que fazer uma lista com as minhas preferidas, não fariam parte.

Eu não gosto desse tipo de lista. Tenho minhas preferências que não cabem em guias ou indicações. Gosto de lugares inusitados, descobertos no meio do passo, sem que seja o destino de multidões.

A leitora que eu sou aprecia visitar cidades descritas nos livros… como a Barcelona de Zafon, em A sombra do vento, que inexiste na vida real. Eu me diverti muitíssimo ao caçar os lugares descritos pelo autor, ao percorrer os muitos labirintos da velha cidade. A São Paulo de Mário… narrada nos versos de Paulicéia desvairada, que me permitiu voltar no tempo e vislumbrar o passado dessa nada desvairada metrópole. A Paris de Baudelaire em As Flores do Mal, que eternizou o prazer do flaneur. E não posso esquecer da Buenos Aires de Borges tão exaltada nos versos de O outro, o mesmo… E é justamente na cidade portenha que encontrei uma das Livrarias mais incríveis. Instalada no prédio de um antigo teatro — construído há mais de cem anos pelos arquitetos Peró e Torres —, tudo ali foi preservado e o que era palco, virou Café. Os livros espalhados pelo que antes era a platéia, numa espécie de ironia literária…

Quando a leitora que eu sou assume o leme, as cidades que visito, ficam mais interessantes. Mas, já ocorreu de eu me decepcionar com o lugar-real, como a Sampertersburgo de Dostoievski… com suas intermináveis noites no inverno e os dias longos no verão  — as famosas noites brancas. É uma cidade de catedrais e palácios… Nada mais e eu sai de lá como cheguei e nunca mais voltei. Uma cidade a menos no meu mapa particular de viagens.

Nesse Agosto temos b.e.d.a — blog every day august.
Adriana AneliClaudia LeonardiDarlene Regina
Mariana GouveiaObdulio Nuñes OrtegaRoseli Pedroso

Publicado por Lunna

É sagitariana... degustadora de café. Figura canina e uma típica observadora de pássaros. Paciência lhe falta desde a infância. Mas sobra-lhe sarcasmos para todas as coisas da vida que fazem mais barulhos que cigarras nos troncos das árvores. Aprecia o silêncio e falas cheias. As que se repetem com facilidade de boca em boca despreza... Lacaniana por opção.... E completamente apaixonada por mulheres que usam a escrita como uma navalha afiada que corta enquanto é carne. Escreve à noite e reescreve pelas manhãs. Gosta de calçadas e corujas. Anda sozinha ou acompanhada, tudo depende da fase... minguante é a sua preferida!

5 comentários em “As cidades e os livros…

  1. Eu acho que os locais que visitamos ganham a sua verdadeira dimensão quando as entrelaçamos com as personagens humanas, ainda que mortas, lhes dando vida e substância através da memória. Eu visitei o Cemitério da Consolação e publiquei meus registros no Facebook, em álbum especial, que tem muitos registros a acrescentar.

  2. Não visito cemitérios. Tanto que, ao visitar Buenos Aires, meus amigos entraram no cemitério e eu, fiquei aguardando do lado de fora. Em compensação, a Lello, El Ateneo, Bertrand Lisboa, Biblioteca Municipal de Sintra e tantas por aqui no Brasil, me ganham facinho (risos)

  3. eu estava com você quando comprou esse livro. Seus olhos brilharam…
    Tenho uma história sobre cemitérios… mas, isso, é coisa para texto… Aspetta me!

Pronto para o diálogo? Eu estou (sempre)

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