A voz da persona que escreve

Uma das coisas mais difíceis na vida de um escritor… é saber pontuar suas histórias, atribuindo ritmo à narrativa. É uma das mais ingratas tarefas, sendo superada apenas pelo desafio da folha em branco… quando é preciso escolher a melhor das frases para lançar o leitor no abismo, colocando-o em estado permanente de queda.

Uma história começa a existir — primeiro — dentro dessa caverna, que somos, enquanto escritores a bordo de nossos mundos delirantes. É tudo secreto-silencioso. A trama vai sendo — lentamente — urdida em malabarismos particulares. De repente, o silêncio acaba e começam os barulhos — alguns são insuportáveis… outros: toleráveis.

Mas, até se sentar diante da tela para escrever, o escritor irá organizar um sem-fim de pensamentos, traçar centenas de anotações, pesquisar milhares de informações e, no meu caso, serão incontáveis horas de diálogo com o teto-branco. Não sei construir diálogos em silêncio. Preciso escutar a minha voz para que o personagem possa ter a sua. E, quem me vê nesses instantes, acredita que sou uma maluca a falar com as paredes.

E quando escrevo não é diferente. Gosto imenso de escutar a minha própria voz, como se estivesse a discursar diante desse “espelho” que é a tela do computador… estabelecendo um diálogo entre a persona que lê e a que escreve.  

Não sou capaz de dizer qual das duas é mais chata ou exigente. Sei, no entanto, que não é nada fácil agradá-las. Esse texto já teve dúzias linhas devidamente podadas, pela persona que o lê… e outras tantas apagadas pela que escreve.

Há palavras que são tão minhas que é como se eu as tivesse inventado apenas para o meu uso. Escolhi escrever em português mas, às vezes, recorro a outros idiomas, misturando-as, combinando-as por uma questão de estilo-sentido-significado. Ou apenas porque o português não oferece o que procuro… são mudas.

E são esses detalhes que caracterizam o meu texto. Uma espécie de marca registada que vai marcando o papel à medida que a escrita avança. Mas não é o único elemento a pontuar a minha narrativa. Tenho preferência por frases curtas por serem uma espécie de pequeno gole de café forte-ristretto. Mas não recuso as mais longas. Embora não seja fumante, adoro pesadas tragadas — de tudo e nada. Certas frases precisam ter o mesmo efeito de uma boa baforada…

Gosto imenso de escrever ao som de uma trilha sonora. Mas há momentos em que eu necessito do silêncio do lugar, o inexistir da realidade. Quero que o mundo-inteiro se converta em ruínas e eu seja a única pessoa-viva a habitar o meu mundo. Fecho os olhos e recolho-me as minhas masmorras. Respiro fundo até encontrar o ritmo certo…

Escrever é um ato solitário — disseram-me certa vez. Eu fiquei — como de costume — existindo dentro dessa frase por alguns segundos. Sorri ao recordar a frase de Baudelaire, que reverberou dentro — como as badaladas do velho carrilhão do nonnoé preciso compreender a solidão!

Eu tenho as minhas preferências… por dias de chuva, fins de tardes avermelhados e madrugadas insones, com canto de pássaros dentro dos dias de agosto. Preciso de uma xicara de chá-café-leite-quente ao alcance das mãos para pequenos goles. Um bom livro de poesias para quando eu precisar de uma pausa para respirar, o caderno e a lapiseira pronta para me socorrer quando o teclado não compreende meus delírios.

Gosto de usar tudo que tenho-sou… uma grande caixa cênica! As emoções das quais sou feita. As lembranças acumuladas e as vivências. Melhoro algumas coisas e pioro outras. Invento um pouco ou muito e alinhavo tudo. Nunca sei o que irei precisar… mas gosto de ter tudo a disposição.

Nesse Agosto temos b.e.d.a — blog every day august.
Adriana AneliClaudia LeonardiDarlene Regina
Mariana Gouveia Obdulio Nuñes OrtegaRoseli Pedroso

Publicado por Lunna Guedes

Sou sagitariana... degustadora de café. Figura canina e uma típica observadora de pássaros, paisagens, pessoas e lugares. Paciência é algo que me falta desde a infância. Mas sobra sarcasmos para todas as coisas da vida que fazem mais barulhos que cigarras nos troncos das árvores. Aprecio o silêncio e falas cheias, escreve-se em prosa por apreciar a escrita em linha reta. Tenho fases como a lua... sendo a minguante a minha preferida!

16 comentários em “A voz da persona que escreve

  1. Eu amei esse texto. Parecia que eu estava ouvindo você durante as nossas aulas.
    Uma das coisas mais legais que aconteceu comigo no ano passado foi descobrir o teu curso e olha que eu já vi um monte deles. Mas o seu tem uma energia gostosa, as pessoas que participam, a maneira como você fala a respeito da sua experiência e pontua (adorei essa palavra, sei que é “sua” e passei a usar em tudo) o que podemos fazer para melhorar. Nossa, é muito estimulante. E eu amei Alice, Lua de Papel. Ainda não li o Vermelho, mas quero muito ler.

  2. Fiquei um tempão olhando para a fotografia e imaginando você ali, sentada, lidando com as palavras. Deve ser muito legal tudo isso. Eu não escrevo meninaCatarina, não sou e nem tenho intenções de ser escritora, mas gostaria de escrever um livro de memórias. Outro dia eu li um texto a respeito de uma avó que escreveu com a neta e deu vontade de fazer o mesmo.
    Será que você aceitaria uma avó postiça?

    bjs

  3. Lunna, este sentimento ambíguo. Tortura que liberta. Cada palavra, frase e pensamento 💭 bem colocados nos fazem um leitor voraz de seus textos. Parabéns Lunna.

    “As emoções das quais sou feita. As lembranças acumuladas e as vivências.” Onde mais aprecio 😉. Abraços

  4. Oi Catarina/Lu, que delícia de texto. Eu gosto muito muito muito quando você compartilha essas experiências do seu processo criativo. É muito gostoso saber como um escritor realiza sua arte. Quando eu escrevia lá no blog, eu não fazia idéia do que fazia. Era só inspiração mesmo. Vinha alguma coisa e eu versava. Não era dessa maneira, com cuidado e tantos detalhes. Mas era bom, as vezes eu sinto falta.

    bisous

  5. E exatamente tudo que escreveu e disse… ah, que saudades de sentar nesse lugar e que a pandemia me tomou das mãos…

  6. Faço coro a todos os demais comentários. Lunna, tenho crescido tanto como escritora e a culpada é sempre você que me orienta, estimula e dá gás quando estou me entregando ao desânimo. Estou ainda caminhando devagar estipulando rotinas em meu escrever. Grando crescer quero ser uma escritora feito você! Amei esse texto.

  7. Adorei saber um pouco mais sobre sua forma de escrita. Procuro me inspirar em grandes mestres e naqueles que acho serem referência, mesmo possuindo um estilo muito diferente do seu. E para mim, ao menos aqui na blogosfera, você tem esse papel de inspiração a quem recorro quando esta me falta.

Pronto para o diálogo? Eu estou (sempre)

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