certas pessoas não morrem, se eternizam em nossos gestos…

Eu tenho um pequeno velho baú… presente de meu menino que o confeccionou para celebrar as minhas três décadas de existência. Os baús — acredito eu — por excelência, têm por obrigação serem velhos… só assim podem guardar ‘coisas esquecidas’.

A primeira vez que vi o interior de um baú, eu tinha pouca idade… acontecia os primeiros dias das férias de verão do ano de mil novecentos e oitenta e sete. Eu estava sentada na varanda. Apreciava o vento que passava furioso por minha pele… trazendo pesadas nuvens de chuva no céu de junho. Eu sentia o cheiro de terra molhada no ar e com os olhos fechados ouvia dentro e fora os primeiros trovões da tarde/noite. 

Eu era sempre a primeira a chegar para as férias… o que me permitia certos privilégios. O melhor de todos era participar das aventuras que o mio vecchio propunha…

Naquela tarde ele me levou ao seu lugar secreto: o sótão, que era um lugar encantador-místico-único… repleto de coisas antigas-esquecidas. Lembro-me do cheiro que pairava delicioso dentro daquele cenário-lugar e de todas aquelas coisas, que espalhadas, pareciam um quebra-cabeças a compor uma paisagem. E nós dois nos dedicamos a deliciosa brincadeira de monta-lo… 

Aprendi com ele que existe um ritual para se abrir um baú… é necessário um dia de chuva, uma xícara de chá e um bom bocado de melancolia na pele e na alma.

Uma vida inteira se passou entre o tempo de ontem e hoje, mas eu ainda repito os gestos e as euforias… me esparramo e reencontro todas as minhas coisas esquecidas. Ocasionalmente sinto um arrepio na pele, respiro fundo e dou pela presença do mio vecchio ao meu lado.

 Certa vez ele me perguntou: “qual a estação do tuo cuore, bambina?” arregalei os olhos  e acho que por alguns segundos eu inexisti. Nada aconteceu em mim. Nem um mísero pensamento. Acho que até me esqueci de respirar…

Finalizada a pausa… respondi com  um sorriso imenso nos lábios: o verão…

Naqueles dias eu gostava imenso dos dias aquecidos, das fortes tempestades que a estação providenciava. As rajadas de ventos eram as melhores e os fins de tarde eram deslumbrantes — mágicos. Eu era muito feliz ao longo daqueles três meses… e quando chegava ao fim, eu sentia acabar.

No verão seguinte, outra pergunta foi feita. Ele quis saber: qual a estação da tua anima, bambina? — e quando ia responder, ele me pediu silêncio, colocando o dedo indicador na frente dos lábios. Pediu para eu não ter pressa. Do alto de sua sabedoria ímpar disse:  “certos segredos levam tempo para serem desvendados. Às vezes, o tempo de uma vida inteira ou mais“… que bom que ele não me deixou incorrer em precipitações desnecessárias. Eu não saberia responder à época… 

Nesse Agosto temos b.e.d.a — blog every day august.
Adriana Aneli — Claudia Leonardi — Darlene Regina
Mariana GouveiaObdulio Nuñes OrtegaRoseli Pedroso

Publicado por Lunna

É sagitariana... degustadora de café. Figura canina e uma típica observadora de pássaros. Paciência lhe falta desde a infância. Mas sobra-lhe sarcasmos para todas as coisas da vida que fazem mais barulhos que cigarras nos troncos das árvores. Aprecia o silêncio e falas cheias. As que se repetem com facilidade de boca em boca despreza... Lacaniana por opção.... E completamente apaixonada por mulheres que usam a escrita como uma navalha afiada que corta enquanto é carne. Escreve à noite e reescreve pelas manhãs. Gosta de calçadas e corujas. Anda sozinha ou acompanhada, tudo depende da fase... minguante é a sua preferida!

6 comentários em “certas pessoas não morrem, se eternizam em nossos gestos…

  1. Quando lembramos de alguma coisa bem antiga, costumamos dizer que “essa, é do fundo do baú”. Esses móveis, tão comuns em tempos idos, guardava memórias em forma de objetos – roupas, cadernos, jóias, etc. – achados que nos deslocam no tempo e no espaço. Magia em estado puro.

  2. Lunna, recordei do porão da antiga casa em que morei, também casa de avós. Para mim era um mundo mágico. Passei muitas tardes lá, revirando coisas perdidas no tempo. Fiquei emocionada com a beleza desse texto!

  3. Concordo com o título. Estou no momento relembrando alguns momentos da infância/adolescência, assim como você nesse texto. O meu baú está completo de saudades. Grazie por me permitir isso!

Pronto para o diálogo? Eu estou (sempre)

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