Tudo vai ser diferente quando eu abrir os olhos

Era uma brincadeira das crianças da rua em que eu morava. Colavam a cabeça contra a parede e contavam em voz alta — de maneira apressada-atropelada — até trinta… um ou outro número se perdia. De repente a criatura em miniatura gritava e saía a caça dos outros miúdos escondidos… nos lugares mais óbvios. Nem era necessário procurar, bastava esticar o olhar e pronto…

Eu espiava o jogo rapidamente… sem desejar participar. Preferia às páginas do meu livro — lido nos degraus de acesso à casa. Um vício que começou cedo — uma espécie de ritual que não me abandona.

Cheguei ao final do capítulo! Lia mitos gregos… a maravilhosa história do submundo, quando um dos garotos avisou que a próxima a contar seria a menina de rabo de cavalo que morava na casa vizinha à minha. Ela dizia número por número… com uma calma impressionante enquanto os outros miúdos se dirigiam apressados aos seus esconderijos de sempre. Trocavam uns com os outros numa espécie de revezamento, como se isso fosse causar alguma dificuldade.

Deixei o livro no degrau e resolvi participar. Perguntei ao “dono da rua” se poderia brincar e ele consentiu. O garoto que morava na casa da frente quis saber se eu sabia correr. Só tinha uma maneira de descobrir e lá fui eu contar até trinta… em latim. Encontrei todos os miúdos em seus respectivos lugares comuns… rapidamente. E lá foi o garoto-chato, autor da pergunta boba da noite fazer sua contagem.

Na minha vez de se esconder… observei as árvores para saber qual não tinha ninho porque eu não pretendia perturbar o sono dos passarinhos, que acordavam cedo para suas vidas aladas. Dei um salto e me dependurei no galho. Como uma acrobata… fiz um movimento de pernas que resultou em um giro e pronto. Escalei mais alguns galhos e encontrei meu ponto de conforto. Dava para ver as estrelas de onde eu estava e eu me distraí identificando constelações. De tempos em tempos, ouvia os miúdos a minha procura. Fiz enorme esforço para não rir dos comentários feitos e vi quando sentaram-se na calçada, aborrecidos.

C., apareceu no portão para me chamar. As crianças avisaram-na de que eu era a única “não encontrada”. Com os braços cruzados a frente do corpo, caminhou tranquilamente pelo meio da rua, rodeada por crianças que alardeavam o tempo que estavam a minha procura. C., parou ao encontrar a árvore que recebia menos luz. Disfarçou bem o olhar esticando-o para o alto e colheu um aceno.

De repente, um dos miúdos saiu correndo na direção contrária, seguido por outro que alertou: a encontramos, tia. E eu aproveitei para saltar do galho e caminhar ao lado de C., até o local onde poderia dizer calmamente as tais palavras mágicas.

Os miúdos cercaram-me… interessados em saber onde eu havia me escondido. Um deles, no entanto, fez questão de lembrar as regras: era proibido esconder nos quintais ou dar a volta na quadra. Não revelei o meu esconderijo, afinal, uma das regras era ser encontrada… coisa que eu não fui!

Blogagem coletiva de agosto
Mariana GouveiaRoseli Pedroso

Publicado por Lunna Guedes

Sou sagitariana... degustadora de café. Figura canina e uma típica observadora de pássaros, paisagens, pessoas e lugares. Paciência é algo que me falta desde a infância. Mas sobra sarcasmos para todas as coisas da vida que fazem mais barulhos que cigarras nos troncos das árvores. Aprecio o silêncio e falas cheias, escreve-se em prosa por apreciar a escrita em linha reta. Tenho fases como a lua... sendo a minguante a minha preferida!

10 comentários em “Tudo vai ser diferente quando eu abrir os olhos

  1. Que texto mais incrível! Eu li com um sorriso no rosto porque pude imaginar tudo acontecendo e a todo momento lembrei de quando eu era menor e brincava muito de esconde-esconde com meus amigos! Amei demais ❤

Pronto para o diálogo? Eu estou (sempre)

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