03 | Dentro de uma quarta-feira… a promessa se cumpre!

Cara mia,

…ler-te pela manhã, me levou de volta para casa num desses ontens que eu coleciono por dentro. Sou toda rituais, você sabe. Alguns se repetem no automático e eu me divirto quando dou por eles. Foi assim ao escrever “aos sábados”. Não foi planejado-calculado-medido. Apenas dei por mim, dentro daquele espaço-tempo repetindo-me. E gargalhei alto em meio ao silêncio da quarentena.

Dentro dos sábados também acontecem outros ritmos… de ir as compras — embora por aqui seja enfadonho, já falei do quão é aborrecido ir aos mercados nesse dia. As pessoas estão famintas-furiosas e carentes do outro. É terrível. As feiras no bairro são as quartas e domingos e eu não consigo me orientar para dentro desses dias. Não consigo pensar ingredientes e panelas no meio da semana. Quarta é um dia estranho para mim.

No último sábado… misturei trigo, água morna fermento, açúcar, uma pitada de sal e um fio de azeite azeite. Preparei a massa e a deixei crescer enquanto picava tomates, fatiava o poró, filetava o alho para preparar uma salsa. Piquei e dourei a abobrinha na manteiga e espalhei por cima da massa ainda quente. Aqueci o forno a 180 graus… e finalizei o molho-salsa com aqueles pedacinhos de tomates… e bastante alho. Cobri a massa com o molho, queijos e trinta e tantos minutos depois… servi a pizza.

Enquanto degustava a minha fatia… sorria para o ontem, num acenar satisfeito ao homem da minha infância. Ele era uma figura intrigante, múltipla… vários em um só. O mio babo era mais sorridente, arteiro e tagarela. Apertava-me em seus braços e levantava-me no ar. Eu gostava imenso de me ver refletir em seus olhos pretos e de reconhecer traços nossos na ponta dos dedos. Eu cresci reclamando que ele era muito grande e não conseguia abraçá-lo por inteiro. Ele achava graça e dizia: deixa comigo, faço isso por nós dois… e esmagava-me, provocando risos em nós dois. O homem que beijava minha mãe e a olhava com admiração era mais quieto, atencioso. Vivia tentando antecipá-la. Várias vezes o flagrei admirando-a em silêncio. Era fácil para mim… saber o que ele pensava. Certa vez, ele resmungou palavras que eu guardo comigo. É muito bom ouvir a voz dele dizendo-me coisas suas…

Em paralelo a nós dois, esta C., com seu olhar sempre atento, sua postura elegante e as falas cuidadosas e objetivas. Eu nunca a ouvi dizer algo para magoar ou ferir alguém. Era sempre precisa em seus discursos, apesar de longos. Era uma mulher consciente da força que tinha… gostava quando lia para mim, no meio da tarde e da maneira como não escondia a emoção quando atingia os seus olhos. A voz embargava e ela vivia aquele instante. Transbordar é o jeito que o corpo tem de esvaziar-se.

Aprendi tanto com esses dois e outras tantas pessoas… não sou uma criatura fácil, não sou de muitos e gosto de ser assim: uma tempestade que se forma sem avisar e fica pelo tempo de seus trovões. Depois se esvai… dissolvendo-se na imensidão azul.

Nesse Agosto temos b.e.d.a — blog every day august.
Claudia LeonardiMariana Gouveia
Obdulio Nuñes Ortega Roseli Pedroso

Publicado por Lunna Guedes

Sou sagitariana... degustadora de café. Figura canina e uma típica observadora de pássaros, paisagens, pessoas e lugares. Paciência é algo que me falta desde a infância. Mas sobra sarcasmos para todas as coisas da vida que fazem mais barulhos que cigarras nos troncos das árvores. Aprecio o silêncio e falas cheias, escreve-se em prosa por apreciar a escrita em linha reta. Tenho fases como a lua... sendo a minguante a minha preferida!

9 comentários em “03 | Dentro de uma quarta-feira… a promessa se cumpre!

  1. Enquanto lia sua carta, meu cuore saltou várias vezes… lembrei-me do primeiro abraço seu, e dos outros que se seguiram nos dias/anos posteriores… não parecia o primeiro abraço, isso é fato para mim… é como se eu já estivesse de alguma forma, estado dentro do seu abraço desde sempre. De tudo que essa pandemia me tirou, foi os abraços guardados aqui para te entregar, das pizzas que não comi, do pão…ah, seu pão…
    Estou guardando aqui todas as vontades para vivê-las com você…
    Grazie por me permitir estar entre esses poucos.
    Amo tu imenso!

  2. Sei que fui amado, pelo menos por minha mãe. E creio a memória física e mental que carrego do amor, do cuidado e do carinho que ela me deu ajudou que eu chegasse até aqui e agora.

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