durante aquele estranho chá

Num tempo anterior a esse em que eu saia para as ruas sem preocupação e costumava me refugiar na Livraria Cultura… do Conjunto Nacional para fugir do caos promovido pelo famoso horário de pico, da cidade. Lembro-me que fazia calor em Sampa — não como agora — e havia previsão de chuva. Corri para lá… porque se eu tinha que ficar presa em algum lugar… com certeza, seria em uma Livraria… onde poderia transitar livremente por entre as prateleiras e depois de encher as mãos com livros, me isolaria no Café…

Foi assim que eu descobri o livro Durante aquele estranho chá — que eu busquei na prateleira pela manhã para reler nesse dia de agosto. Fui novamente atraída pelo título — que parece nos convidar a colocar a água no fogo para um chá, pegar a caixa de biscoitos na parte alta do armário e puxar a cadeira…

O livro é uma viagem pelas memórias da autora que conheceu Mário, Cecília, Clarice, Hilda… e tantos outros. E conforme as páginas vão sendo viradas… os passos — meus e da autora — começam a percorrer um mapa imaginário. Tudo se dissolve e se mistura. Narrativa-lembrança-emoção… um precioso gole de tudo e nada.

No texto que dá nome ao livro… Lygia se encontra com Mário de Andrade. Suas lembranças do episódio são intimistas e o bom é que a autora se preocupa apenas em narrar o que é lembrança, antes que tudo se apague.

A solução era sonhar no particular e ir executando as tarefas cotidianas na tal Paulicéia Desvairada. Mas desvairada para ele, Mário de Andrade, porque pra mim esta cidade era a mais bem comportada do planeta.
Foi o que comecei por lhe dizer durante aquele nosso estranho chá na Confeitaria Vienense ao som de violinos e piano. O céu tão limpo e o terno de linho de Mário de Andrade era tão branco. Lá sei se estou sendo exata com os fatos, mas as emoções, essas sim, são as mesmas que passo a narrar em seguida. A ênfase com que respondia às suas perguntas, lisonjeada com tanta curiosidade. Comecei por dizer que a minha ousadia, tudo somado, se resumia nisso, assumir a minha vocação.

Claro que eu fiquei a pensar no que diria a Mário de Andrade… mas fui rapidamente convencida de que seria tomada pelo silêncio. E avancei para o texto seguinte… Lygia cita Hilda Hilst e me faz rir ao dizer que “fidelidade é coisa para cachorro”. Soube como as duas se conheceram e fui convidada a me sentir íntima da poeta que era movida pela paixão — elemento considerado essencial para a sua escrita. E como me fez bem ler isso… mas, no parágrafo seguinte Lygia fala da morte da poeta… e eu me perdi em minhas próprias lembranças.

Eu soube da partida da poeta no dia seguinte. Hilda era recém-chegada a minha vida. Fomos apresentadas na Biblioteca Mário de Andrade — indicação de um Bibliotecário que sabia da minha predileção por poesias. Lembro-me que pensei… não é possível partir assim. Mas a própria Hilda respondeu — para partir, basta chegar. A poesia de Hilda me incomodou e eu gosto imenso quando isso acontece. A poesia tem por obrigação remover aquela sútil camada de poeira da pele-alma — e depois que o verso finda… o meu olhar entra em estado de pausa, fica a observar superfícies longínquas.  Eu escrevi em um pedaço de papel naquela noite:  então é mesmo verdade: os poetas morrem

“Há uma soma de seres que eu amei e que já se foram, mas, de um certo modo, eles ficaram um pouco em mim”, afirma Lygia, em um de seus textos. “É difícil explicar com clareza, mas eu chamaria, assim, uma espécie de legado. E o fato é que me impregnei desse legado lá no indefinível que nos habita, a alma.”

Ao finalizar a leitura do livro… cheguei à conclusão que o título faz jus a cada uma de suas páginas. É para ser lido em pequenos goles, sorvendo cada lembrança-narrativa que é da autora, mas que acaba sendo nossa também.

Nesse Agosto temos b.e.d.a — blog every day august.
Claudia Leonardi Mariana GouveiaObdulio Nuñes OrtegaRoseli Pedroso

Publicado por Lunna

É sagitariana... degustadora de café. Figura canina e uma típica observadora de pássaros. Paciência lhe falta desde a infância. Mas sobra-lhe sarcasmos para todas as coisas da vida que fazem mais barulhos que cigarras nos troncos das árvores. Aprecia o silêncio e falas cheias. As que se repetem com facilidade de boca em boca despreza... Lacaniana por opção.... E completamente apaixonada por mulheres que usam a escrita como uma navalha afiada que corta enquanto é carne. Escreve à noite e reescreve pelas manhãs. Gosta de calçadas e corujas. Anda sozinha ou acompanhada, tudo depende da fase... minguante é a sua preferida!

12 comentários em “durante aquele estranho chá

  1. eu amo a lygia fagundes telles, gostei muito de as meninas. já não gosto mais da livraria cultura. amo a livraria da travessa no rio. gosto da livraria martins fontes na av. paulista. da livraria da vila na vila madalena, vixe, vou parar por aqui hehe.

    não li muitos detalhes sobre esse livro pq quero lê-lo ainda, a capa é belíssima. eu comprei antes do baile verde, mas ainda não li.

    beijos, pedrita

  2. Ah, Lu, eu “viajei” nesse post… Imaginei o Noturno, ou talvez, Berceuse, de Chopin, o chá de jasmim e o livro… Obrigada pela ideia! Beijos.

  3. Parece ser um boa leitura, mas todos temos legados, o problema que nem sempre maturidade para lidar com a totalidade dos atos que chamamos de legado…

    Fique com Deus, menina Lunna.
    Um abraço.

  4. Preciso comprar esse livro, adoro o jeito dela de escrever. O duro é me lembrar. Ainda não me acostumei com esse negócio de comprar livros on line. Mas é um caminho, né?
    Da última vez que eu fui a Cultura, não encontrei nada que eu quisesse ler. Pensar que eu amava aquele lugar. Faz tempo que não vou a livrarias, mas eu prefiro a Livraria da Vila. Bem mais organizada e os atendentes são ótimos. Acho que a maioria trabalhava na Cultura.

    Bjos

  5. Lunna

    Adorei a dica, não conhecia esse livro.
    Com certeza eu vou ler.
    Obrigada pela sugestão!
    Anotado já está…

    Ps. Estava com saudades de seus posts o que eu ando a ler.
    São os meus favoritos.

    bj

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