4 | Não sei se irá chover ou não

Cara A.a,

Acabou a luz no começo da noite e os gritos se multiplicaram lá fora. Eu apenas fechei os meus olhos para ouvir dentro o som dos trovões e deixei a memória intervir… Senti ressoar todas as tempestades por mim vividas. Sorri a infância, a juventude e momentos diversos da vida-adulta… Recordei a sala de aula, o escapar das luzes da manhã e o crescimento das sombras, seguido por um estrondo que fez estremecer todo o lugar. E enquanto as crianças gritavam apavoradas… eu era toda silêncio.

Nunca fui capaz de compreender o pavor que as pessoas sentem quando a natureza mostra sua força-vital. A minha zia que era mulher graúda e severa, encolhia-se toda quando o breu das nuvens crescia nos céus. Se benzia com gestos nervosos de mãos na cabeça-barriga-braço-esquerdo-direito-boca e finalizava com duas ou três palavras em uma espécie de dialeto-próprio. Eu arregalava os olhos e apertava os olhos para conter o sorriso. Mas, por dentro, eu gargalhava… meus trovões!

Certa vez, fui puxada pela mão com alguma pressa e certa violência por ela. Meus passos menores-encolhidos não queriam traçar um caminho e ela me arrastava pelos lugares. Era impossível acompanhá-la. Eu não queria ir a lugar algum. Desejava parar e observar as nuvens se avolumando por cima da cidade, os clarões se manifestando nos céus, sentir o cheiro de terra no ar e os trovões… na pele, por dentro-e-por-fora…

O vento soprava forte, vindo do mar e nos atingia com seu hálito frio-salgado-úmido… gostoso! Eu cresci ouvindo ser impossível fugir nessas horas. Mas ela queria escapar, ser mais ágil. Tentei argumentar… e outra tempestade se formou! Provei do movimento destemperados de seus lábios e senti no braço a brutalidade de seus gestos.

No meio de tudo isso… o clarão se precipitou. Era tarde demais para tramar fugas. Eu sempre dediquei especial atenção a esse momento… gosto imenso de observar esse instante de pausa. Uma espécie de quebra-ruptura. Tudo fica calmo-tranquilo, como um cuore que simplesmente para e vem um trovão… uma espécie de choque que obriga o pulsar.

E caiu a chuva-forte-densa-fria… gota por gota — uma a uma… duas a duas. Uma centena delas! E aquele som maravilhoso de água no asfalto, nos guarda-chuvas, nos jardins e pelos telhados. A cidade se liquefaz em instantes. Ah, como eu gosto quando todas as coisas mudam de estado… para o líquido.

Nós duas chegamos a casa naquele dia… com a chuva na pele. Meu corpo escorria no tapete da porta de entrada bem diante dos olhos de C., que tentou — sem sucesso — conter o riso diante de uma aborrecida cunhada, que me culpava — de maneira bastante sonora — pelo banho de chuva. Reclamava as roupas-os-pés-e-o-corpo molhados-encharcados… e do resfriado-futuro.

Enquanto eu só conseguia pensar no banho quente, nas roupas secas e na janela de meu quarto. Melhor que tomar um banho de chuva… era observá-la da janela, vendo céu e mar se misturar, embaralhando a paisagem-conhecida em meus olhos.

Hoje não trovejou por aqui… as nuvens estão altas, o asfalto permaneceu seco, os quintais e os jardins também. A memória, no entanto, troveja forte. Você ouve?

Au revoir


#projeto52
Anna Clara de VittoMariana GouveiaObdulio Nuñes Ortega
Roseli PedrosoSuzana Martins

Publicado por Lunna Guedes

Sou sagitariana... degustadora de café. Figura canina e uma típica observadora de pássaros, paisagens, pessoas e lugares. Paciência é algo que me falta desde a infância. Mas sobra sarcasmos para todas as coisas da vida que fazem mais barulhos que cigarras nos troncos das árvores. Aprecio o silêncio e falas cheias, escreve-se em prosa por apreciar a escrita em linha reta. Tenho fases como a lua... sendo a minguante a minha preferida!

13 comentários em “4 | Não sei se irá chover ou não

  1. Ah, Catarina, aqui não choveu hoje e não tenho esperanças que nos próximos dias chova. Mas eu imaginei trovoadas, daquelas que assustam. E eu não consigo entender como gosta delas. Eu me benzo também e peço por Santa Barbara como um personagem em seu livro.

    Poxa, estou um pouco triste. Agosto acabando e a rotina por aqui vai se liquefazer. Gostei muito de te ler nesse dias. Muito bom mesmo, foi um poderoso golpe de ar. Fez-me muito bem e olha que eu nem gosto desse mês peçonhento.

    bisous

  2. Sigo dizendo que você sempre me leva para dar uma volta a partir de seus escritos.
    Ler-te é a melhor pausa do meu dia. Há pouco quando chegou o alerta de mensagem, até pensei, vou fazer uma xícara de chá e enquanto esperava (coisa que eu aprendi com você) lia suas linhas.
    Linda carta e eu entendo a sua relação com os trovões e invejo porque eu sinto medo. rs

  3. Oi. Adorei o post-carta.

    Quando recordamos algo é tão somente assim: com o que gravamos com mais cuidado. Talvez seja esse o motivo que nos leva a olhar para determinadas partes do nosso passado que não foram as melhores, mas ver aquelas coisas boas que sobravam e que nos davam pequenas alegrias ou o contrário. Também ocorre o contrário com alguma frequência. E isto fez-me lembrar um excerto de José Luís Peixoto, no “Livro”: “As saudades turvam o tempo; à distância qualquer coisa má, péssima, pode transformar-se em qualquer coisa maravilhosa, uma especialidade. (…) É a mesma qualquer coisa, mas as saudades já a confundiram”

    Beijocas *

  4. De certa maneira, o seu belo texto-memória me fez entender um pouco o porquê das mulheres me atraírem tanto – são feitas de tempestades. Na minha missiva deixei de mencionar que era tão fascinado pelos raios que cheguiei a criar um hai-kai na minha adolescência:
    “Quero morrer naturalmente,
    em campo aberto fulminado
    por um raio.”

  5. Sei que a pergunta não foi para mim, mas ouço essa tempestade gritante em tu. Te abraço.

    Aqui choveu e trovejou… Como sempre, a cada flash do céu, chamei seu nome. Foi uma chuva mansa, mas que limpou as folhas das árvores, que hoje amanheceram sorridentes.

  6. Sempre gostei de chuva e quando pequena, deixava minha mãe bem brava por sair e me deixar banhar, voltando para casa encharcada. Adulta, passei a evitá-la mas gosto demais de observar da janela, sua atuação pela cidade. Belo texto Lunna!

Pronto para o diálogo? Eu estou (sempre)

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: