Café com Borges… na Livraria da Vila!

 

…um dos meus lugares favoritos no bairro é a Livraria da Vila, na Avenida Moema que é  um desses ambientes que São Paulo disponibiliza por toda a parte. O diferencial da livraria é que ela foge do estilo bookstore, modelo importado dos Estados Unidos — o que significa que tem prazo de validade e que virou febre na metrópole que sempre dá boas vindas ao novo e depois cospe fora.

Gosto imenso de transitar por entre suas prateleiras — perdida e ausente da realidade e, de repente, esbarrar em algum conhecido: Dostoievski, Fernando Pessoa, Baudelaire, Austen — e espiar com rara satisfação os desconhecidos, deixando-os chegar. Conheci Gordon Reece, Angela Becerra, Muriel Barbery e rupi kaur — recentemente.

Foi lá que tropecei na coleção de livros do portenho Borges — uma ardilosa sequência deliciosamente natural de vinte e dois livros: antologia pessoal, oral & sete noites, discussão, o livro dos seres imaginários, primeira poesia… entre outros tantos — todos lançamentos da Companhia das Letras… que os organizou em cores.

Havia tempos que não lia Borges — que conheci em minha juventude… em outro idioma. Naqueles dias eu não tinha direito a solidão… era  alguém carente de silêncio, espaço vago-vazio porque sempre precisei do exercício demorado do existir sem a presença do outro… 

A vida, para a maioria das pessoas, é existir junto… e eu sempre preferi existir ao lado — em separado… a parte!

Minha existência precisa de lugares que me pertençam e a ninguém mais… um canto particular para as minhas emoções e palavras. Tenho mania de ‘falar sozinha’ enquanto caminho ou com as paredes quando dentro dos cômodos. Gosto imenso da casa vazia… do canto do sofá, a mesa com lugares vazios — uma xícara de chá para as horas ímpares ou uma taça de vinho pela metade. E, de livros espalhados por cima do tapete-lençol.

Ele é o poeta da minha solidão… com quem traço diálogos silenciosos. Seus poemas ficaram grudados nas paredes do meu quarto, em recortes feitos em folhas de cadernos — onde adormecia a minha caligrafia a narrar histórias tão reais quanto inventadas.

Ao puxar livro por livro da prateleira — acumulando-os nos braços num equilibrar-se desiquilibrado — já tinha decidido qual seria o primeiro: Aleph — o meu favorito —, composto por dezessete contos curtos, publicado em 1949. O livro nos apresenta — como se fosse um banquete — os limites da eternidade e da finitude em histórias sobre amor, morte, fé e poder. 

Em ‘o Aleph’ percebi toda a influência que a escrita de Borges recebeu ao longo de sua vida de clássicos, como: A Divina Comédia, de Dante Alighieri, O Castelo, de Franz Kakfa e Os Lusíadas, de Camões — e isso foi significativo para a escritora que sou. É bom sentir que nos misturamos aos nossos ‘heróis literários’.

O autor argentino navegou em vida pela tradição clássica, reflexões de filosofia, teologia, ficção e cultura enciclopédica. Construiu uma narrativa capaz de nos fazer viajar por todas as cidades construídas pelo homem e, essa sua “gente de pedra” a se espremer entre suas construções e edificações.

E, mesmo assim, Borges foi um homem  estranhamente  conservador… aliado a burguesia. Era contrário ao nacionalismo e acreditava que os militares salvariam a sua Argentina, porque apenas ‘os ilustres defendem causas perdidas‘. Bendita cegueira que lhe traiu muito antes de perder a luz dos olhos.

E o que me surpreende é que eu não lido bem com o conservadorismo dos homens… mas não consigo descartar Borges e sua escrita territorial, que me localiza na realidade das coisas…

A Livraria da Vila do bairro… tem um Café no “quintal da casa” onde se instalou. Mesas confortáveis e um excelente atendimento, com pessoas que sabem tudo de café. É sentar, abrir o livro e bebericar palavras e pesados goles. 

Publicado por Lunna Guedes

Sou sagitariana... degustadora de café. Figura canina e uma típica observadora de pássaros, paisagens, pessoas e lugares. Paciência é algo que me falta desde a infância. Mas sobra sarcasmos para todas as coisas da vida que fazem mais barulhos que cigarras nos troncos das árvores. Aprecio o silêncio e falas cheias, escreve-se em prosa por apreciar a escrita em linha reta. Tenho fases como a lua... sendo a minguante a minha preferida!

6 comentários em “ Café com Borges… na Livraria da Vila!

  1. Lunna, querida,
    Lendo seus posts aqui, o do último dia de agosto, acredita que eu senti saudades da menina no sótão?
    Bem, eu já li Borges e não gostei. Não é para mim não, mas não sabia dessa questão conservadora dele.
    Pode ser isso porque eu também não lido nada bem com essas coisas de gente parada no tempo e querendo as coisas de ontem, não.

    Uma abraço!

  2. Estou aqui faz um tempinho bom… já li e reli algumas missivas, todas belas belas e belas deixa transparecer essa alma transbordante que respira melancolia e transborda lembranças de uma maneira terna e levemente nostálgica.
    E eis que ao avançar um pouco mais, chego ao centésimo post de Catarina e você fala de Borges e o recrimina e também o ama e idolatra porque a poesia dele é também a sua e lhe mostra outro mundo, além do seu e sabemos que,às vezes, uma pessoa-sensível precisa ir as ruas. não é mesmo?

    Gosto-te e te curto e que venha mais cem posts.
    Grande abraço e muitas coisas boas pra Ti, eu desejo.
    beijo

  3. Fazia tempo que não lia um texto e me arrepiava!
    SENSACIONAL!

    Borges, conservador ou não, é Borges e ele pode.

    bj

  4. Deu vontade de ler Borges e tomar um café na Livraria da Vila com você, querida.
    Quem sabe depois que tudo isso passar.

    beijoks

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