5 | As pessoas tristes não sabem soluçar

Cara L,

Tento escrever-te desde que vi um bilhete destinado a você numa das redes que frequentamos. Comecei narrativas várias e fui abandonando uma por uma no canto da mesa… do corpo. E depois de tantas folhas — imaginárias — amassadas… desisti.

Com todos os meus cantos ocupados… eu me senti no meio de uma multidão de ninguém. Faltou ar-ânimo-disposição. Os dias ficaram demasiadamente quentes. Não anoitecia… era sempre dia; coisa sonora… manhãs claras de sol, janela sempre aberta. Impossível debruçar-me no papel, fazer correr o grafite e escrever…

Eu preciso de um pouco de ausência… não acordar, não adormecer. Uma noite inteira. A mesa repleta de papéis. O som do velho carrilhão — a soar na memória —, a rivalizar com as batidas do cuore, até serem uma mesma coisa. Preciso da pele anestesiada por lembranças e uma música qualquer — quase sem som — a servir de trilha sonora para as páginas de um livro que só existe em mim.

Preciso me perder de mim, vagar pelas paisagens que coleciono nessa grande caixa cênica que sou… e partir, rumo ao outro, que hoje… é você. Preciso encontrá-la pelos teus caminhos, fundir meu passou ao seu e acompanhar o teu olhar…

Eu queria escrever-te, mas as linhas não se ofereciam ao grafite, da mesma maneira que as calçadas recusaram meus passos nesse tempo de estar dentro, enclausurada em espaços tão meus. Olho lá para fora e vejo todas as coisas nos seus devidos lugares. Ruas tão cheias e eu a encolher…

O mormaço subia num aflito impossível e do céu — repentinamente — começou a cair uma estranha fuligem preta que me levou para um ontem que embora distante-longe, ainda está dentro do meu alcance; e fiquei por lá alguns segundos.

As notícias chegaram de maneira instantânea — tudo é tão rápido nesse nosso tempo — e eu soube do incêndio… outro. Dessa vez atingiu o que resta de cerrado em território paulistano, onde tudo caí e se levanta. Uma coisa deixa de existir para outra acontecer. Tenho até medo de pensar que certas peças a essa hora do dia já se agitam nos bastidores onde a força do capital dita os rumos de tudo e de todos. Não duvido que o lugar amanheça loteado e transformado em grande investimento imobiliário. Como se fosse somente disso que precisássemos.

E confesso à você que estou com receio do verão que está a caminho e parece acenar com temperaturas impensáveis. Vivemos os extremos. As pessoas se multiplicam — feito abelhas — em falas agudas. Todos os tons acima e as verdades definitivas combinadas às certezas absolutas. Não se calam… e todo mundo tem razão sobre alguma coisa nesse tempo-templo. Faz lembrar das gralhas e aquele canto desorientador.

Engraçado que no auge dessa infinitena todos reclamavam das ausências, do isolamento obrigatório, como se não vivêssemos ausentes da realidade um dos outros… há muito tempo.

Não acredito que setembro será chuvoso, como em outros anos. Gostaria ao menos de uns dias de chuva engatados uns aos outros. O som do asfalto molhado. As temperaturas amenas e os trovões no lugar certo: nas nuvens. Por enquanto estão apenas cá dentro da pele-corpo-memória.

Au revoir

Publicado por Lunna Guedes

Sou sagitariana... degustadora de café. Figura canina e uma típica observadora de pássaros, paisagens, pessoas e lugares. Paciência é algo que me falta desde a infância. Mas sobra sarcasmos para todas as coisas da vida que fazem mais barulhos que cigarras nos troncos das árvores. Aprecio o silêncio e falas cheias, escreve-se em prosa por apreciar a escrita em linha reta. Tenho fases como a lua... sendo a minguante a minha preferida!

Um comentário em “5 | As pessoas tristes não sabem soluçar

  1. Também quero um setembro chuvoso… a manhã está infernal. Nenhum lugar me cabe e o calor beira o caos… mas, há nuvens a se formar ao sul, quem sabe a chuva venha.

Pronto para o diálogo? Eu estou (sempre)

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