contos novos

“Tanto andam agora preocupados em definir o conto que não sei bem se o que vou contar é conto ou não, sei que é verdade.” (…)

Não saberia dizer o motivo, mas desde que adquiri o exemplar em uma visita despretensiosa da Livraria da Vila — no verão de dois mil e quatorze — que considero esse livro — contos novos de Mário de Andrade — uma leitura para dias quentes. Como o de hoje, em que a temperatura passou dos vinte e o mormaço tomou conta do cenário… Puxei o exemplar da prateleira e fui para o canto do sofá… queria reler Frederico

Paciência, personagem muito bem construído pelo autor — habilidoso arquiteto de tipos urbanos-comuns.

Contos novos é uma publicação póstuma. Mário de Andrade pretendia reunir 12 contos em vida. No livro encontramos 9… A narrativa divide-se ora em primeira pessoa, ora em terceira. O autor pretendia alcançar um olhar para os personagens comuns-cotidianos-anônimos da cidade — fruto da realidade por ele investigada com meticulosidade.

É um excelente olhar para a Paulicéia desvairada e a Semana de Arte Moderna — pano de fundo para cada uma das histórias alicerçadas.

Mas o que me encanta nesse livro é o trabalho que tiveram para publicá-lo. O autor Mário de Andrade era um homem em busca de perfeição que trabalhava exaustivamente em cada um de seus projetos. Por isso, o livro tem muitas versões e alguns títulos provisórios, como Contos piores que Mário anotou no topo de seus manuscritos, onde há ainda, centenas de rasuras-riscos que resultaram em muitas folhas amassadas e descartadas.

Em missiva escrita ao amigo Fernando Sabino o autor-homem-mário — figura intensamente insatisfeita com sua escrita… sempre inacabada, nunca pronta — resmunga seu desconforto de menino repreendido com o estalar de uma régua nas costas de uma das mãos.

“Quando me lembro as milhares de páginas que escrevi, versos, meditações, contos, romances, quase sempre ficados por acabar “mais tarde”. As coisas iam se acumulando, passavam dois anos, três. Um dia era preciso desentulhar as gavetas e eu ficava uns quinze dias lendo um autor esquisito que não era meu conhecido, mas que eu não reconhecia bem mais, porque já tinha mudado. E era aquela devastação. Quase tudo ia pra cesta, e bem rasgadinho, rasgadíssimo pela preciosa vaidade de que ninguém, uma criada,  lixeiro pegasse aquilo pra ler, rindo de mim. E principiava entulhando gaveta outra vez, livre! gratuito? no meio reino sem fadiga de criar! Era bom e foi tantas vezes sublime!”

Carta a Fernando Sabino, escrita em 08 de junho de 1942

Publicado por Lunna

É sagitariana... degustadora de café. Figura canina e uma típica observadora de pássaros. Paciência lhe falta desde a infância. Mas sobra-lhe sarcasmos para todas as coisas da vida que fazem mais barulhos que cigarras nos troncos das árvores. Aprecia o silêncio e falas cheias. As que se repetem com facilidade de boca em boca despreza... Lacaniana por opção.... E completamente apaixonada por mulheres que usam a escrita como uma navalha afiada que corta enquanto é carne. Escreve à noite e reescreve pelas manhãs. Gosta de calçadas e corujas. Anda sozinha ou acompanhada, tudo depende da fase... minguante é a sua preferida!

4 comentários em “contos novos

  1. Lunna, é muito bom ler seus escritos. Você descreve tudo com muita nitidez e o sentimento que você coloca nos leva a sentir tudo o que acontece no texto. Se alguém ler esse post no inverno do Canadá, com certeza terá a sensação do calor de São Paulo. Terá a sensação do calor do clima e do calor do coração da escritora (das gavetas em comum com Mário de Andrade).
    bacio

    Manoel

  2. Acho interessante a relação que você estabelece entre livros e as estações do ano.
    Lembro-me de você dizer que lia Jane Austen no outono. Agora tem a relação de Mário de Andrade com o verão.

  3. Não leio muito Mario… descobri agora, tentando lembrar. Amar, verbo intransitivo e depois, só poesias variadas. Vou me arriscar a ler esse indicado. Grazie!

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