06 — Eu falo palavras desamparadas e desertas

cada momento passado juntos
era uma celebração, uma Epifania,
nós os dois sozinhos no mundo
tu, tão audaz, mais leve que uma asa,
descias numa vertigem a escada
a dois e dois, arrastando-me através
de húmidos lilases, aos teus domínios
do outro lado, passando o espelho

Arsenii Tarkovskii

Cara M., 

…a tarde aconteceu por aqui há pouco! Trouxe sol-calor… tudo arde na paisagem urbana que chega a minha janela. Ao espiar a imobilidade do lugar, fui tragada para um ontem qualquer e acabei por recordar uma pessoa que emergiu diante dos meus olhos em um setembro-outro. O ano escapa-me. Está cada vez mais difícil orientar-me nos calendários humanos, cara mia. Lembrei, no entanto, da cena… a pessoa do outro lado do vidro com um sorriso branco-insosso. Não sei se cheguei a comentar a respeito com você.

Era  uma manhã nublada… quase primavera e os falsos dias frios se impunham… obrigando a criatura a se refugiar em grossas blusas de lã — um exagero! Trocamos olhares rápidos e um aceno breve que se dissolveu na imensidão do ar. Vez ou outra, um ou outro movimento-dela, chamava a minha atenção.

Eu estava desatenta… incomodada com o silêncio dos meus pensamentos. Vivia o dia seguinte a um ponto final. Tinha os pés bem fincados no chão e desejava o corpo em queda, braços bem abertos, o vento e a gravidade a puxar-segurar-empurrar. É para baixo que se cai, certo?

Minha pele não trajava entusiasmo. A cama estava feita. Os livros — todos — lidos e de volta aos seus lugares, na prateleira. O caderno com todas as linhas preenchidas. A vida pronta-acabada e o céu com seu azul entre-estações. E eu procurava por qualquer coisa para arrancar-me daquele instante — insuportável — de calmaria. Decidia o que fazer com esse blogue, equilibrando-me entre a vontade de começar-terminar-abandonar e você com sua paciência a me pedir calma…

Eu precisava de um personagem ocupando a minha amalgama — e aquela figura-branca veio até mim… atravessando os espaços, ocupando a cadeira vaga a minha frente. Eu não a vi chegar. Não reparei naquela presença até ela começar a falar. Olhei ao redor, em busca do interlocutor e não sei o que senti ao perceber que era comigo que falava coisas da vida — um emaranhado de remendos. Tudo tão fragilizado-alquebrado. Ela agitava um dos pés no ar… seguidas vezes — uma espécie pêndulo a me lembrar que era necessário despertar, emergir — habitar a própria pele. Era um sintoma. Uma figura forjada em ansiedade, baseada no vício. Pouco depois, sacou um maço de cigarros da bolsa e foi caminhar calçadas, tragando pesado a fumaça que ía e vinha de sua boca em ondas. Me apaixonei mil vezes pela cena — esfumaçada. Lamentei, no entanto, não ter onde usar…

Assim que o cigarro acabou, ela retornou com sua fala equivocada, sem sentido. A narrativa não combinava com os gestos. Tentava montar um quebra-cabeças, mas as peças não se encaixavam umas nas outras. Fiquei com a sensação de que ela havia se apropriado da vida de outra pessoa.

Terminei o meu latte e fui embora… ela voltou no dia seguinte! E eu lamentei, como lamento todas as coisas perdidas. Eu prefiro as pessoas em seus espaços de vida… onde são figuras incríveis-quase-perfeitas e eu posso tomar notas mentais e arquivá-las em pequenos pacotes amarrados com barbante. Adorava fazer esses embrulhos na infância. Era divertido o instante de desatar o nó para conferir o que havia escrito nos dias anteriores.

E você certamente não está a questionar o motivo dessa lembrança. O universo sabe o que faz… é o que você diz com certa frequência. Eu sempre concordo! Porque eu tive o que tanto queria, mas como de costume, era necessário esperar. Imagino que Kairos esteja a gargalhar em algum lugar… e você, imaginou eu, esteja a repetir um som conhecido-tão meu-nosso. rá

Au revoir

Publicado por Lunna Guedes

Sou sagitariana... degustadora de café. Figura canina e uma típica observadora de pássaros, paisagens, pessoas e lugares. Paciência é algo que me falta desde a infância. Mas sobra sarcasmos para todas as coisas da vida que fazem mais barulhos que cigarras nos troncos das árvores. Aprecio o silêncio e falas cheias, escreve-se em prosa por apreciar a escrita em linha reta. Tenho fases como a lua... sendo a minguante a minha preferida!

2 comentários em “06 — Eu falo palavras desamparadas e desertas

  1. Que linda carta. Que diálogo gostoso.
    Uma narrativa a respeito das ações do universo.
    Adorei o desfecho com a gargalhada de Kairos.
    E eu já quero ler a história, viu?

  2. eu ainda estou buscando palavras… mas acho que só vou conseguir através de outra carta.
    No momento, já reli umas 1000 vezes – com todos os exageros – e só suspiro.
    Grazie, bambina!

Pronto para o diálogo? Eu estou (sempre)

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