A matéria da qual sou feita!

Foi na infância que desenvolvi a paixão pela primeira vez…
O primeiro brinquedo: um tabuleiro de xadrez, feito pelo nonno — inclusive as peças que adorava movimentar durante nossos jogos intermináveis. O primeiro caderno — que me deixou muda-imóvel durante dias… com o cuore acelerado e os olhos cheios. Demorei a escrever naquelas linhas, mas depois que comecei, foi até a última página e como foi lindo vê-lo cheio de coisas minhas, narradas na primeira pessoa do singular.

O primeiro livro… de poesias — cinquenta e seis páginas preenchidas com versos num idioma novo que me brindou com o prazer de ler. Não o hábito da leitura… essa coisa automática-mecânica, como escovar os dentes, os cabelos. O primeiro envelope e consequentemente… a primeira missiva que me fez outra, menos silenciosa.

O meu primeiro baú, para guardar os meus papéis… feito pelo nonno e eu tinha tanta coisa. Gostava de copiar versos e escrever minhas frases-primeiras-pequenas e as palavras favoritas. A primeira viagem de trem com as janelas a narrar o passado-presente-e-futuro em meu olhar anestesiado. A primeira tempestade… que ainda reverbera em meu corpo.

Tornou-se item essencial para a mulher que fui forjando — aos poucos — ao longo dos anos… Passei a prestar mais atenção a esse detalhe inédito que atravessa-me e que, às vezes, acena com um ou outro ontem, embalando-me com uma curiosa sensação de reprise.

Lembrei-me de um tempo anterior a esse, quando eu sabia bem mais que hoje. Faltava-me, no entanto, o nome das coisas. Tudo era estranho-abstrato e colorido. Os meus pais foram dando nomes as coisas. E, de repente, eu sabia o que era árvore, nuvem, telhado, portão, rua e tantas outras coisas mais. Havia palavras com as quais eu me deliciava — xícara, livro, travesseiro, trovão, chuva, janelas –, como na canção que Maria cantava para as crianças durante uma tempestade, no filme A noviça rebelde. Mas a minha lista era de palavras e crescia dia após dia. Havia algumas palavras, que mesmo tendo um significado tão cheio, não diziam coisas — faltava sentido.

Hoje eu amanheci tentando descobrir de quantas primeiras vezes sou feita? E não alcancei a resposta porque me perdi nas revisões. Tenho certeza de que Kairos é um brincalhão e se diverte horrores comigo!

Publicado por Lunna Guedes

Sou sagitariana... degustadora de café. Figura canina e uma típica observadora de pássaros, paisagens, pessoas e lugares. Paciência é algo que me falta desde a infância. Mas sobra sarcasmos para todas as coisas da vida que fazem mais barulhos que cigarras nos troncos das árvores. Aprecio o silêncio e falas cheias, escreve-se em prosa por apreciar a escrita em linha reta. Tenho fases como a lua... sendo a minguante a minha preferida!

Pronto para o diálogo? Eu estou (sempre)

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: