ao mesmo tempo | susan sontag

Gosto imenso de ter esse livro em mãos e levá-lo comigo por aí. A grafia do título me conduz para além dos passos… da realidade, devolvendo-me ao lugar em que cresci, chamando-o de casa. É como ser convidada a uma visita… sento-me no sofá e espero pelo café. Enquanto isso vou observando o lugar da mobília, a posição das janelas e a maneira como a luz deixa no ar aquele rastro de poeira astral.
Acomodo o livro na perna… e começo a virar as páginas. Experimento o primeiro texto — de novo — que propõe: “uma discussão sobre a beleza” — tão pertinente a esse tempo de coisas frágeis, onde somos avisados que vivemos sob a ameaça de um golpe… e tem gente que não se incomoda e aplaude como se fosse mais um filme a estrear nas grandes telas. Quando se trata de mais uma exibição da quase extinta sessão da tarde.
Ouço a voz rouca de Susan em seus diálogos esfumaçados, como se estivesse por lá também em suas viagens-pensamento: “a beleza se define como a antítese do feio. Obviamente, não se pode dizer que algo é belo quando não se está disposto a dizer que é feio. Mas existem cada vez mais tabus que nos impedem de chamar alguma coisa, seja o que for, de feia“…
Vasculho cenários, esbarro em transeuntes e provo do que não sei. Entro em um Café… peço um expresso e ouço o som da máquina despejar o resultado de minha alquimia favorita, que mistura os tempos e embaralha realidades.
Outro lugar-país-geografia-continente… e ao levantar os olhos, lá está a Mulher em suas roupas escuras. Ela pede um café ao barista com um gesto. É persona conhecida por ali. Espio a sua anatomia envelhecida. A doença pesa em cada músculo do corpo-cansado. Eu não sabia que eram o seus últimos dias. Fiquei tão atônita de tê-la tão perto que o gesto de mão direcionado a mim, me fez olhar para trás em busca de alguém-outro-que-não-eu. Não havia ninguém além de mim. Ela exibiu qualquer coisa de sorriso em seus lábios opacos-pálidos-murchos. E eu resmunguei qualquer coisa inaudível enquanto o meu olhar procurou-e-encontrou a porta de saída.
Lia naquele dia — por um desses caprichos do destino… o texto: questão em aberto — com questionamentos tão pertinentes, bem pontuados e respondia silenciosamente, pontuando um texto que não foi e nem será escrito… Susan provoca-me e me chama para o diálogo. Conversa regada a café e fumaça.
Em ao mesmo tempo há 16 textos escritos em seus últimos dias … alguns eu sei de cor, de tanto ler-riscar-recortar-criticar-questionar. Ela foi uma mulher nada econômica quanto ao que pensava-sentia. Escrevia suas opiniões e não se importava com o que atingia. Ao escrever a respeito das consequências do 11 de setembro um ano depois do ataque, questionou a declaração de guerra e o pensamento do povo acostumado a não ser questionado.
Ao contrário de Susan, eu não quero e não pretendo ter impressões sobre tudo, apenas sobre as coisas que me interessam. E há cada vez menos itens nessa minha lista. Ler Susan me faz perceber que é possível olhar, ver e escrever apenas o que fica. O que passa é para os outros ou ninguém. Não importa!

Publicado por Lunna Guedes

Sou sagitariana... degustadora de café. Figura canina e uma típica observadora de pássaros, paisagens, pessoas e lugares. Paciência é algo que me falta desde a infância. Mas sobra sarcasmos para todas as coisas da vida que fazem mais barulhos que cigarras nos troncos das árvores. Aprecio o silêncio e falas cheias, escreve-se em prosa por apreciar a escrita em linha reta. Tenho fases como a lua... sendo a minguante a minha preferida!

Um comentário em “ao mesmo tempo | susan sontag

Pronto para o diálogo? Eu estou (sempre)

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: