* outras metamorfoses da memória

Lendo-te ontem… recordei a nossa conversa durante a chuva. Fazia sol no teus quintais e você falou do varal e da roupa por lavar. Depois eu li o texto… e vi a sua foto no instagram.

Lembrei-me imediatamente de um personagem da minha infância… Uma criatura com quem aprendi tanto. Foi com ela que eu aprendi a amar a sonoridade do idioma português. Parecia tão bonito quando ela falava. Eu dizia: eu canto… tu declamas e ela se divertia ao me ver tentar pronunciar certas palavras. A que eu mais gostava era: gosto imenso, que coube em meus lábios desde a primeira vez..

Donna M., era uma signora portuguesa que morava na casa ao lado. A mulher dos cães e das plantas. Na vizinhança era chamada de strega — adjetivo que eu conhecia muito bem, mas ninguém na rua sabia disso. Desconheciam a minha ancestralidade: as mulheres de minha famiglia eram todas stregas — com exceção de uma ou outra.

Toda vez que a Donna M., lavava roupas… o quintal ficava cheio de lençóis e fronhas, panos de pratos e vestimentas várias. Era só ela naquela casa enorme… Quer dizer, tinha os cães, os gatos, os pássaros. Mas eles não precisavam de roupas, apenas de carinho-cuidados e a companhia daquela Mulher que era uma professora aposentada. De seus tempos de escola… restaram os livros e alguns cadernos que ela guardava com carinho.

Eu me lembro da emoção em seus olhos quando um antigo aluno — já moço –, veio visitá-la. Apresentou a esposa-filhas e veio com as mãos cheias: trouxe uma cesta de frutas e um belo ramalhete de rosas — era aniversário dela.

Todos na rua pensaram que era o filho — que vivia em Portugal. Eu estava por perto quando a despedida aconteceu: os dois se abraçaram e ele reteve as mãos dela junto as suas. Hoje eu sei exatamente o que era aquele sentimento. Como é gostoso reconhecer a importância de certas pessoas em nossas vidas. Agradecê-las por nos tirar de uma escuridão, que poderia ser eterna. Ele me disse que aprendeu as primeiras palavras com ela… e eu poderia dizer o mesmo, afinal, até aquela mulher se mudar para a velha casa da minha rua, eu nem sabia que gostar tinha tamanho e era uma coisa imensa.

De certa forma, a vizinhança tinha razão ao chamá-la de strega… melhor definição impossível. Certa vez, eu quis saber dos meus pais — porque a nossa casa não tinha um varal com roupas secando ao sol-vento, como havia na casa de Donna M.?

C., se divertiu com a pergunta e explicou que a gente tinha máquinas para isso. Lembro-me que naquele dia eu achei a nossa casa tão triste sem varal no quintal. Mio babo ao perceber minha frustração disse que poderia providenciar um — caso eu achasse realmente necessário. Mas eu não quis. Seria um capricho bobo e não seria igual. A gente não precisava de um… mas eu precisa do varal na casa da Donna M.

* título extraído de um poema de Ana Luísa do Amaral

Publicado por Lunna Guedes

Sou sagitariana... degustadora de café. Figura canina e uma típica observadora de pássaros, paisagens, pessoas e lugares. Paciência é algo que me falta desde a infância. Mas sobra sarcasmos para todas as coisas da vida que fazem mais barulhos que cigarras nos troncos das árvores. Aprecio o silêncio e falas cheias, escreve-se em prosa por apreciar a escrita em linha reta. Tenho fases como a lua... sendo a minguante a minha preferida!

Um comentário em “* outras metamorfoses da memória

  1. A sua missiva veio como um brinde em um fim de tarde onde trovejou, choveu e fez-se um céu azul…
    agora, os bem-te-vis fazem algazarra no quintal.
    Grazie tanto!
    Bacio

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