planeta mutante-mutável

Ao ler o Cachorro magro… achei interessante a idéia de revisitar alguns textos antigos — raramente faço isso porque acabo alterando coisas aqui e ali… trocando uma palavra por outra. São textos literários — rascunhos ou ensaios — que podem e devem ser melhorados na leitura seguinte…

Mas eu resolvi — antes de começar os projetos do dia — visitar o arquivo de um antigo blogue para ver o que havia postado nessa mesma data, em outros anos. Descobri que no — não-tão-distante — 2010… quando o universo dos blogues estava cheio e havia ações coletivas, denominadas BlogDayAction — o tema proposto para esse dia foi… água!

Naquele ano já se falava em crise hídrica enquanto preocupação-futura. A ONU alertava que se nada fosse feito, em 2025 chegaríamos a uma terrível e delicada situação. Passados 11 anos desde que escrevi o texto… é como se nada tivesse sido feito. A escassez de água atinge — atualmente — a 2 bilhões de pessoas no mundo e não será absurdo se uma simples cena cotidiana, como: encher um copo com água — venha a se tornar cada vez mais rara.

Ao final do texto, eu perguntei ao leitor: o que estamos fazendo para evitar essa catástrofe? E a resposta é simples: nada. Desperdiçamos diariamente litros de água potável… ao lavar o carro, a calçada, as ruas, a louça do café-almoço. Ao nos demorar no banho ou ao não consertar um simples vazamento. Uma torneira que goteja, joga muitos litros de água fora…

E no Brasil de 2021 se queima florestas, cerrados e não se preserva os mananciais. Desvia-se o curso do rio para a construção de pequenas hidrelétricas não autorizadas. Despeja-se esgoto urbano nos rios e aumentou consideravelmente a produção do gado — há mais cabeças bovinas que humanas, no país. E, nesse ano, a crise hídrica atingiu também a distribuição de energia, obrigando o país a bater o recorde de produção de energia nuclear que é muito mais poluente e perigosa para o meio ambiente, e para nós.

Todos os alertas emitidos foram ignorados… por políticos e pela sociedade, em geral. Estamos a beira do caos… porque somos dependentes de água em todos os sentidos. Acreditou-se que por ser o Brasil um país rico em recursos naturais, nunca faltaria água nas torneiras e poderíamos dar de ombros para os ambientalistas, essa gente esquisita. Mas, com o ano de 2025 batendo a nossa porta… está cada vez evidente que o elemento vital para a sobrevivência da nossa espécie pode acabar a qualquer momento. Se não racionarmos, cortando os desperdícios… ficaremos sem água para cumprir as necessidades básicas, recomendadas: dois litros de água para beber diariamente por pessoa e um simples banho higienizador por dia.

A ficção já abordou o assunto, escancarando o pior dos cenários… a escritora britânica radicada na Austrália Jane Harper escreveu A Seca... título do seu primeiro romance em que um policial volta ao seu povoado, cheio de fantasmas de seu passado, para investigar um crime e percebe que as paisagens de sua infância foram devoradas pela seca… que causou inclusive o desaparecimento de um rio. O foco da narrativa é: como sobreviver à seca.

E da Austrália — que recentemente foi atingida por um gigantesco incêndio — vem também Mistery Road uma minissérie que exibe um relato sombrio em que um inspetor aborígene e uma capitã da polícia local investigam um desaparecimento em um povoado do deserto australiano, o interminável outback. A água está no centro da intriga e por ser um bem tão valioso, todos os poços têm câmeras.

Ferir a terra, é ferir a si mesmo... diz o personagem de Harper e soa como um aviso. Mas a gente insiste em repetir os mesmos erros, apesar dos alertas que o planeta vem emitindo há tempos… Talvez seja resultado direto da mania que o ser humano tem de falar em fim de mundo, agendando datas definitivas para o Fim. A espécie humana pode até ser extinta e esse mundo como conhecemos também. Mas, certamente, o Planeta sobreviverá a nós… e se transformará à sua maneira, como já o fez, antes de nós.

Publicado por Lunna Guedes

Sou sagitariana... degustadora de café. Figura canina e uma típica observadora de pássaros, paisagens, pessoas e lugares. Paciência é algo que me falta desde a infância. Mas sobra sarcasmos para todas as coisas da vida que fazem mais barulhos que cigarras nos troncos das árvores. Aprecio o silêncio e falas cheias, escreve-se em prosa por apreciar a escrita em linha reta. Tenho fases como a lua... sendo a minguante a minha preferida!

7 comentários em “planeta mutante-mutável

  1. Nossa, que doido isso. Um texto de 2010 a respeito de um tema cada vez mais atual. 2025 já é amanhã.
    Gostei das indicações do livro e da minissérie. Espero que tenha na netflix.

    Quando a nossa realidade, acho que ainda dá tempo de fazer alguma coisa.
    Pequenos atos pode fazer grande diferenças para uma vida mais equilibrada…

    Hah, semana que veem estou indo para o trabalho, ai não sei quando volto.

    Fique com Deus, menina Lunna.
    Um abraço.

  2. eu vi um filme belga muito impressionante sobre a falta dágua na áfrica e o poder que dá a quem tem.
    Eu troco sempre a água da minha gata, mas a que vou trocar sempre segue para as minhas plantas.

    beijos,

    pedrita

  3. A pergunta é: quando surgirá o tal senso de coletividade nas pessoas? Outras tantas questões de interesse coletivo estão sendo também tratadas com máximo descaso. Cada voz que se levanta contra os absurdos me parece solitária. O que fazer?

  4. É isso Lunna, hoje o abuso no consumo de água é um problema de todos nós sim!!
    Muito boa a releitura do texto e como você também evito ler coisas escritas para o blog porque sinto como se fosse um exercício diário para a minha escrita.

    Beijão querida

  5. É aquele velho ditado, né? “Uma andorinha só não faz verão.” então todos nós temos que fazer a nossa parte!!!

    Lu, beeeijos!!^^

  6. Lunna, que texto! Você sabia que o vaso sanitário mais caro do mundo, possui uma tecnologia em que a água usada na pia, desemboca toda em uma caixa para ser usada na descarga do vaso sanitário?

    Foi dado de presente para vários atores de Hollywood para que façam a propaganda. Poderiam os governos incentivarem os designers a desenvolverem medidas que ajudem dentro de nossas casas a conter o desperdício.

    Pequenos gestos que fazem a diferença.
    Mas é difícil pensar que em 11 anos nada foi feito.
    A maior cidade do país enfrentou o problema e nem faz muito tempo e estamos de novo aqui e 2025 é amanhã e a gente segue esperando os 45 do segundo tempo. aff

    Beijus,

  7. Fico muito feliz quando de certa forma consigo incentivar alguém em alguma atividade, e fico honrado pela menção no texto. Revisitar escritos antigos para mim estão servindo mais como uma comparação e percepção de como estou-estamos evoluindo. E as vezes é preocupante, como a cada dia batem na mesma tecla mas parece que nada muda. Enfim, nos preparemos para o que nos espera.

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