09 — Reencontrada em lugares inesperados

Caríssima A.,

Acordei dentro do breu — ainda madrugada — com o silêncio das alamedas. Que vontade de ir lá para fora… apenas com a roupa do corpo — sem proteções e medos. Ainda não consegui me desvencilhar de certos receios: tenho consciência de que não deixarei de usar máscaras tão cedo, por mais que sinta alegria por ver outros países-cidades-pessoas a transitar sem o véu que protege do outro e de sua ignorância. Cheguei à conclusão que o vírus é o menor dos nossos problemas, minha cara. Contra ele… existe a ciência.

Optei por permanecer dentro… levar a chaleira ao fogo e preparar uma xícara de chá. Reli Septum, lançado há não sei quantos anos. Ando alheia a realidade de Chronos. Repito-me… e dessa vez em voz alta — para ecoar junto aos livros, que olham-me…

Virei algumas páginas… e ao pousar no ontem, revi tudo e nada. A pessoa que concluía — sem certezas — que iria escrever um romance.

Recusava-me a dizer que era incapaz de fazê-lo — resistindo bravamente aos tremores internos — por saber que mentir para os outros é viável. Para si… uma tragédia. Eu tinha uma história “pronta” naqueles dias. Um calhamaço que narrava a pequenez de uma criatura-minha. Éramos duas pequeninas a nos deixar devorar por medos-bobos. Ela temia suas sentimentalidades… meus temores eram bem maiores — um demônio com garras afiadas que eu mesma criei.

Levantei os olhos para escapar da sensação que começou a agigantar-se em meu íntimo… Passando a limpo os livros que tenho diante de mim. Escrevo com o olhar a dizê-los. Vez ou outra, a mão — mais ágil que os olhos — corre até eles e puxa um deles. Passamos um par de horas na companhia um do outro.

Antes que eu decidisse entre Sontag-Luft-Brum-Smith e tantos outros… a chaleira começou a ruminar seu estado de fervura. Escolhi para essa manhã a erva mate. Enquanto derramava a água fervente dentro da xícara… seguia a escrever essas linhas, no ar… como gosto e prefiro.

Quando sento para escrever… está tudo ‘pronto’. Escrito que foi na própria pele — esse logaritmo que me permite escrever em silêncio-movimento. Uma espécie de tatuagem invertida.

Gosto dessa premissa, riscar a pele-avesso-dentro. Rabiscar-me como se fosse o próprio papel ou as paredes, onde C., sempre esperou encontrar traços meus — uma espécie de mapa particular para seus olhos.

Ao passar a limpo… certas coisas reescrevem-se à sua maneira e o que me espanta é que tudo se agrupa e encontra um sentido-próprio. Ontem, uma escritora anunciou durante a nossa hora de encontro — “talvez o que ela tenha escrito tenha outro sentido que o encontrado por mim”.

Aprendi isso ao finalizar um projeto-antigo-primeiro. Eu ainda tinha poucos anos, e era mais inexperiente que hoje. Senti um solavanco no peito ao ouvir meia dúzia de palavras a respeito de um texto meu. Disse a pessoa: enganou-se, eu não escrevi nada disso. Recebi um sorriso, como resposta e a folha de papel com a nota anotada no alto e duas ou três palavras, que preservo dentro dos meus olhos porque alguma coisa precisa permanecer comigo… Ali eu compreendi tanta coisa e, claro, morri mais uma vez.

Au revoir

Publicado por Lunna

É sagitariana... degustadora de café. Figura canina e uma típica observadora de pássaros. Paciência lhe falta desde a infância. Mas sobra-lhe sarcasmos para todas as coisas da vida que fazem mais barulhos que cigarras nos troncos das árvores. Aprecia o silêncio e falas cheias. As que se repetem com facilidade de boca em boca despreza... Lacaniana por opção.... E completamente apaixonada por mulheres que usam a escrita como uma navalha afiada que corta enquanto é carne. Escreve à noite e reescreve pelas manhãs. Gosta de calçadas e corujas. Anda sozinha ou acompanhada, tudo depende da fase... minguante é a sua preferida!

3 comentários em “09 — Reencontrada em lugares inesperados

  1. Oi, Lunna!
    Sei como é essa sensação de texto pronto mentalmente e precisando ser exorcizado 😀
    A incompreensão fala mais dos leitores do que do próprio texto. São os ossos do ofício
    Beijinhos no coração!

  2. Me perdoe se meu comentário fugir da ideia geral do texto, Lunna. Mas é que alguns trechos aleatórios vieram de encontro as coisas que ando pensando ultimamente. Essa frase, sobre o vírus ser o menor dos nossos problemas…me pergunto como resolver todas as outras coisas, para as quais a ciência não tem resposta, já que ela própria tem sido constantemente negada e desconsiderada.
    Outra coisa, foi a menção a Chronos. Sempre me encanto com a duplinha Chronos e Kairos. Kairos me encanta, mas é Chronos que me mantem nos eixos. Ao contrário de você, não consigo ficar alheia a ele.
    Por fim, “mentir para os outros é viável. Para si… uma tragédia.” É isso.

Pronto para o diálogo? Eu estou (sempre)

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