Quase Quarenta

Aproveitar o tempo!
Ah, deixem-me não aproveitar nada!
Nem tempo, nem ser, nem memórias de tempo ou de ser!…
Deixem-me ser uma folha de árvore, titilada por brisa,
A poeira de uma estrada involuntária e sozinha,
O vinco deixado na estrada pelas rodas enquanto não vêm outras,
O pião do garoto, que vai a parar,
E oscila, no mesmo movimento que o da alma,
E cai, como caem os deuses, no chão do Destino.


Álvaro de Campos, in “Poemas”

  clique aqui para ler ao som de starway to haven |

Eu sei dos relógios e das voltas que dão os seus insanos ponteiros. Mas não sei absolutamente nada das horas que medem. Conheço a melodia e a ouço de tempos em tempos do lado de dentro num reverberar curioso. Reconheço os movimentos circulares que me fazem pensar no som do papel a se deformar em minhas mãos.

Há sempre um relógio alucinado… nos lugares por onde eu passo e mesmo sendo apaixonada por esses mecanismos humanos, prefiro a ciência grega à essa medição confusa-humana-equivocada — onde tudo se mede e se perde.

Os gregos foram hábeis em dividir o tempo em dois. Cronos, o tempo dos homens e Kairos, o tempo dos deuses — a quem sempre preferi, por considerá-lo mais poético… um louco! Menos humano… mais etéreo. Elegante… e menos dócil.

Cronos vai sempre em frente… tem pressa, quer despertar; é o verão e seus dias mais longos! É cansaço… excesso, ânsia… ônibus lotado, fila de supermercado, envelope sem selo, igreja cheia, sacola vazia. É o sol quente ardendo no asfalto. Criança indócil, sem limites… incansável. É qualquer coisa monótona-futurista… cálculos impossíveis.

Kairos vai sem pressa… espia a previsão do tempo antes de passar pela porta. É um dia de outono e seus dias mais curtos. Uma manhã preguiçosa de chuva que pede bolinhos, xícara de chá e um livro de poesias. É pausa para espiar um velho álbum de fotografias guardado no fundo de um velho baú. Um velho carrilhão a ressoar rouco as horas cheias… São passos mais lentos pelas calçadas irregulares da cidade, embalados por uma espécie de dança atemporal.

Às vezes, eu me assusto com Cronos e seus movimentos para frente — esse tal de futuro que as pessoas gostam de aclamar! Não sei — nunca soube aonde essa estrada vai dar! Mas, desconfio, no entanto, que não há fim.

Nunca me entendi com essa fração impossível de calcular… dia seguinte, amanhã e depois. Uma janela sempre aberta para o nada — que não agrada ao meu imaginário, por mais que goste de tatear o impossível. 

Prefiro o dia anterior — pretérito imperfeito… uma rua de paralelepípedos bem assentados. Gosto imenso de fechar os olhos e tocar levemente todas as coisas que, se repetem incansavelmente do lado de dentro… um punhado de lembranças a saltar de minha memória que, fazem de mim, o que sou: uma colecionadora de vivências. Figura-humana-alucinada a ir na contramão das multidões… mãos escondidas dentro do bolso da calça. Olhos no alto… a espiar as silhuetas dos prédios, as anatomias das casas e a geografia irregular dos humanos em movimento.

A única coisa futura que me agrada é a direção em que avança o grafite da minha lapiseira. Curiosamente, ela parte do passado e medita no tempo presente. É toda Kairos… um disco a girar a trilha sonora do momento. O canto do canto do sofá, no meio da hora. A poesia metafísica — quase nuclear — de Campos em mãos. Esse terrível Senhor parece que não aprendeu a sorrir — está sempre com a cara amarrada e os olhos baixos, como se buscasse por pontos de vista alternativos. Sabe como poucos, no entanto, ralhar com o tempo que urge atitudes… com seus versos elegantes… que interpreta os contornos das coisas e suas causas.

Do tempo futuro… espero apenas a soma que ele me deve — desde a infância. Nunca gostei de celebrar datas. Mas aprecio imenso completar décadas: dez, vinte, trinta… e, quando estaciono no intervalo dos anos, digo em voz alta — como quem soluça —, quase vinte, quase trinta. Ontem foi a primeira vez que eu disse em voz alta: quase quarenta. A pessoa que ouviu minha voz… não entendeu a emoção de quem se deu conta que está quase lá…

Mas, enquanto espero, repito em voz alta, lua nova que sou: quase quarenta… e finjo ser cheia, em pleno eclipse das minhas emoções, ao som dos metais pesados do Led Zepellin…

Publicado por Lunna

É sagitariana... degustadora de café. Figura canina e uma típica observadora de pássaros. Paciência lhe falta desde a infância. Mas sobra-lhe sarcasmos para todas as coisas da vida que fazem mais barulhos que cigarras nos troncos das árvores. Aprecia o silêncio e falas cheias. As que se repetem com facilidade de boca em boca despreza... Lacaniana por opção.... E completamente apaixonada por mulheres que usam a escrita como uma navalha afiada que corta enquanto é carne. Escreve à noite e reescreve pelas manhãs. Gosta de calçadas e corujas. Anda sozinha ou acompanhada, tudo depende da fase... minguante é a sua preferida!

18 comentários em “Quase Quarenta

  1. Oh, Lunna, estou também assim ” quase (mesmo quase!) quarenta!
    Pacifiquei-me um pouco com o seu texto.

    E com este parágrafo em particular:

    Às vezes, eu me assusto com Cronos e seus movimentos para frente — esse tal de futuro que as pessoas gostam de aclamar! Não sei — nunca soube aonde essa estrada vai dar! Mas, desconfio, no entanto, que não há fim.

    bacio

  2. A contar seus ‘quase quarenta’… aqui estou a contar meus ‘quase trinta’… e confesso que queria um pouco desse norte e expectativa por esse momento ‘inteiro’ da vida.

    Agora preciso ressaltar que foi inevitável não pensar em Deborah na véspera de seu quadragésimo, a deixar a casa (de dentro) em ordem… talvez um pouco da ideia de colocar pingos nos ‘i’s’, mas, acho que um pouco mais resolutivo de, fiz tanto até aqui, e ainda posso fazer daqui em diante.

    Não vou negar também que você tem seu lado madame bodeh, ao invés do giz vermelho, utiliza as palavras, sempre pintadas da cor rubra… coisa que adoro!

    xoxo

  3. Eu me “apaixonei” por Kairos, embora tenha consciência de que amo a Cronos. Mesmo assim um dia vou deixá-los. Talvez você sinta que aos 40 o tempo deixe de existir, e, sem querer, volte aos 20. Beijos e sorrisos.

  4. Esses dias tenho pensando muito no tempo…
    Revi pessoas que tinha 2 anos na última vez que nos encontramos e agora tem 30…
    E eu pensei.. Uau!! Tô beirando os 50 e nem vi isso acontecer…
    Na verdade não me sinto nem nos 40 e tantos ainda.

    O tempo voou.

  5. Tem uma frase de Paulo Coelho que eu gosto muito que diz: ”Não existe nada de completamente errado no mundo, mesmo um relógio parado, consegue estar certo duas vezes por dia.”

    O tempo cura, o tempo trai, atrai e não volta atrás. Enquanto aos quarenta, fase boa dos “enta” eu vivo um dia após o outro sendo que consigo degustar algumas coisas com mais prazer sabe?

    Na verdade , nem sei te explicar como me sinto. Mas te garanto que tudo é um orgasmo.
    Misturei tudo aqui e cometi o disparate de embaralhar as letras no sentir.
    Culpa da autora que chama os seus leitores para sentar e tomar uma boa xícara de café para ver o tempo passar!

    Bacio, caríssima!

    1. Acho que essa frase não é do Paulo Coelho, cara mia… eu já a ouvi algumas vezes. O Marco a repete com frequencia, coisa de engenheiro.

      Mas eu posso imaginar esse “orgasmo” aos quarenta. Mas eu te conto daqui alguns dias… falta pouco para eu abandonar o quase. rs

      Se puder esperar, é claro…

      1. Eita… pode ser mesmo, viu? hahahahaha
        Já li tanta coisa que diziam ser Clarice e não era e o Caio F então.
        Sei lá porque as pessoas fazem isso.
        Mas o importante é o nosso diálogo e tudo que li por aqui e absorvi nos silêncios das horas.

        Grata por isso!

        Sou suspeita, você sabe!
        beijos

  6. Catarina-Lunna me traduzindo inteiramente.

    Poucas coisas tão angustiantes como o tempo existem ao meu redor…
    Um desafio, eu diria. Driblá-lo e aproveitá-lo ao mesmo tempo.

    Perto dos quarenta, creio que a sabedoria talvez se refine… alguma serventia devem ter nossas rugas e noites insones.

    Bisous

  7. Quarenta é apenas mais uma vírgula entre as letras, os deuses só vivem se o adorarmos e , dizem, até Chronos foi deposto, ou aprendeu a ser poeta, usando um heterônimo.

    Bacio e linda vida!

  8. Oi Lunna!
    Eu gostaria de ter essa intimidade com as palavras…
    As vezes acho que sou escrava do tempo… Outras vezes o ignoro, outras ouso escraviza-lo e assim vamos caminhando…

    Abraços

  9. Tempo… tempo… tempo. É uma coisa preciosa que não posso perder, mas o que fazer. Quarentenar me faz usar o tempo de uma maneira onde o Chronos foi deposto. Sua poesia me faz viajar no tempo e no espaço Lunna deliciosamente. Obrigada. Bjs

  10. Completar décadas parece ter um sabor a mais, uma maior importância, não sei, mas me passa a impressão do término de um ciclo e começo de outro. E a entrada nos quarenta é um orgulho pra qualquer mulher: é o tempo a nosso favor, o momento do amadurecimento.

  11. Lindo o texto! Adorei muito, imensamente. Como é gostoso ler algo escrito direto da alma. Chronos é realmente maldoso. Tenho só vinte e poucos anos, mas já sinto o seu peso e o compasso de seus ponteiros a me engolir.

    ………………………
    Limonada Caramelizada – a vida com mais ilustração
    http://limonadacaramelizada.wordpress.com

Pronto para o diálogo? Eu estou (sempre)

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: