14 — Caindo de si em si mesmo…

Amore mio,

…aconteceu novembro em mim, há pouco, enquanto observava a paisagem ensolarada, a rua com seus movimentos de carros-cães-pessoas… Às vezes, parece que o tempo para e a vida não se atreve a sair do lugar… permanece imóvel, como se aguardasse algo a acontecer… um estalo, um estouro — talvez.

Eu e o calendário não temos qualquer entendimento… não sei como se organiza essa sequência de números rotulados com nomes equivocados. Eu tenho meus próprios ritmos de vida e não-vida… minhas somas e meus rituais de ir e vir.

No final do mês será meu ano novo. No final do ano, será apenas troca de calendário. Não vou estourar champanhe, soltar fogos, fazer festa, promessas, pular sete ondas. Vou assistir de novo o mesmo filme, ler o mesmo livro e agarrar-me a sua pele, que depois de tantos novembros vividos em pares, já se acostumou aos meus desfeitos…

Mas eu confesso que tenho uma relação agradável com alguns meses do ano. Maio — que eu apelidei de mês das trovoadas. Junho por ser final de ciclo num tempo anterior a esse e ser o teu ponto de partida… e o nosso também. E agosto por ser partida anunciada, dias lentos e aborrecidos porque eu começava a me despedir em meados desse mês. Mas isso ficou para trás, virou a página… e Agosto passou a ser premissa-chegada, ponto de partida para tudo e tanto… a começar pelo teu abraço-primeiro-estrangeiro.

E há novembro — esse mês novelo — com seus trinta dias imprecisos, sempre inéditos… tão meu!

E já se passaram quatorze dias… e, no entanto, só agora novembro aconteceu em mim… Eu fechei os olhos e de minha porção de mundo, revisitei cada um dos meses desse ano-maluco. Fui revendo meus lugares-paisagens… passando a limpo os fatos que a memória escolheu guardar.

São trezentos e tantos dias… e não há como guardar tudo! — algo sempre se perde, mas eu não faço idéia de como se orienta essa escolha. Penso que deveria ser como os livros de poesias que trago comigo. Hoje eu escolhi passar o dia na companhia de Borges — o outro, o mesmo — amanhã será outro… E você estará aqui, por perto, com sua voz grave, sua risada em ondas e seu jeito de menino-homem — o meu contato com a realidade, onde tudo começa.

Não fosse você, meu caro… não pisaria em solo firme…
Permaneceria à deriva das minhas próprias emoções!

Au revoir

Publicado por Lunna Guedes

Sou sagitariana... degustadora de café. Figura canina e uma típica observadora de pássaros, paisagens, pessoas e lugares. Paciência é algo que me falta desde a infância. Mas sobra sarcasmos para todas as coisas da vida que fazem mais barulhos que cigarras nos troncos das árvores. Aprecio o silêncio e falas cheias, escreve-se em prosa por apreciar a escrita em linha reta. Tenho fases como a lua... sendo a minguante a minha preferida!

8 comentários em “14 — Caindo de si em si mesmo…

  1. Eu vou fazer tudo isso nesse ano: estourar champanhes, pular sete ondas e sorrir da delícia que é deixar toda essa loucura para trás.

  2. Eu não gosto de agosto, meu mês favorito é o das festas. Amo carnaval, páscoa, natal, dia das crianças.
    Sou muito festeira. E junho tem é maravilhoso, tem festa e quentão o mês inteiro. Não vejo a hora que tudo isso passe porque estou com muita saudades…

    bj

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