15 — Caminho… e atrás de mim caminham lugares

Caríssima A.a,

Comecei a sentir o verão em meu corpo nessa última semana. Vi o sol com seu dourado gasto tingir a fachada dos prédios da alameda. Soube que seria um longo dia azul, com horas abafadas e promessas não cumpridas de chuvas. Eu não sei como as pessoas conseguem ser felizes no verão. Eu acuso cansaço… evito as ruas-calçadas-pessoas. Evito o mundo e sua realidade demasiadamente iluminada. Evito pensar… e aborreço-me facilmente.

Fecho as cortinas e recorro ao amigo-mestre — Álvaro de Campos —, lido tantas vezes ao longo dos últimos anos… ‘leitura perfeita’ para os dias de verão…

Não sei quando aconteceu, mas faz algum tempo que as minhas leituras tornaram-se sazonais. Jane Austen é para o outono, assim como são os poemas de Emily Dickinson e Wislawa! — Mia Couto e seus contos… eu leio no verão, por me remeterem as férias de minha infância, quando sentava-me à mesa com os meus para ouvir o nonno tagarelar impassível suas histórias. Ele era um contador de causos… um ilustre marinheiro de si mesmo.

Campos e sua ‘passagem das horas’ aconteceu em minha realidade através de um menino-homem, que dizia ter sua dor tatuada nos poemas desse poeta-homem-personagem de Pessoa. Ele rabiscava na própria pele alguns de seus versos com tinta azul: ‘é preciso querer chorar, mas não sei ir buscar as lágrimas’…

Antes, eu tinha preferência por outra Pessoa: Alberto Caeiro, que parecia falar, em seus versos, do homem que eu aprendia… enquanto crescia. Mas ao ouvir a voz rouca do meu menino-homem rasgar no ar,  os versos sagrados de Campos ‘trago dentro do meu coração, como num cofre que se não pode fechar de cheio… todos os lugares onde estive, todos os portos a que cheguei, todas as paisagens que vi através de janelas ou vigias, ou de tombadilhos, sonhando… e, tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero’ — foi como compreender o abismo que trazia dentro. A escuridão se iluminou por um relâmpago, que surgiu pouco depois de um estrondo. E nada mais foi como era antes…

Foi no verão de dois mil e três que encontrei o meu livro-bíblia de Campos… durante um caminhar seguro pelas ruas do centro velho paulistano. Naqueles dias eu tinha meia dúzia de livros: um romance de capa dura (orgulho e preconceito) uma coletânea de Mário de Andrade e livretos colecionáveis (Emily Dickinson, Ana C., ) que eu levava comigo para onde quer que eu fosse.

E ao andar pela Barão de Itapetininga… esbarrei numa dessas livrarias que já não existem mais. Entrei e percorri um cenário estranho-equivocado. Parecia uma queima de estoque para entrega das chaves. Cenário frio, desconfortável e bagunçado. Prateleiras vazias e em total desordem. E no meio desse cenário… me deparei com o livro de capa verde-suja e empoeirada. Parecia que estava ali há alguns séculos.  Aparência velha… e as páginas gastas.

Poesia não vende… disse um rapazote-atendente. Eu sorri e entreguei o exemplar em suas mãos. Ele parecia não acreditar que finalmente aquele livro-encalhado com suas muitas páginas iria embora. Ele ainda ousou perguntar: vai mesmo levar? E eu recordei imediatamente Emily e sua poesia tão minha…

O livro, minha cara… rejuvenesceu em minhas mãos! As poesias de Campos se misturaram as minhas anotações… e eu já troquei o plástico, os postits que marcam os meus poemas favoritos.

E ao espiar a alameda ‘alagada’ de sol… recorro a Campos uma vez mais para mais uma hora (talvez duas) de diálogo. Tranco-me dentro… e escrevo essas linhas a ti, como se escrevesse ao outro, que já não pode receber os meus envelopes. Como se dizia na infância: ‘virou estrela nesse céu de amanhã’…

Ele teria gostado de ti… e ligaria numa hora própria para falar-te. Ele tinha essas manias com as quais nunca ralhei. Na última vez em que nos falamos, ele estava feliz. Ligou para dizer que havia encontrado uma pequena folha pelo caminho. Coisa-sua, disse ele ao que respondi…  Adesso è davvero una cosa nostra, bambino!

Ao que tudo indica, creio que as missivas estão se tornando sazonais… considero que escrevo-te no verão, ainda que o calendário não concorde!.

Au revoir

Anna Clara de VittoMariana Gouveia

Publicado por Lunna

É sagitariana... degustadora de café. Figura canina e uma típica observadora de pássaros. Paciência lhe falta desde a infância. Mas sobra-lhe sarcasmos para todas as coisas da vida que fazem mais barulhos que cigarras nos troncos das árvores. Aprecia o silêncio e falas cheias. As que se repetem com facilidade de boca em boca despreza... Lacaniana por opção.... E completamente apaixonada por mulheres que usam a escrita como uma navalha afiada que corta enquanto é carne. Escreve à noite e reescreve pelas manhãs. Gosta de calçadas e corujas. Anda sozinha ou acompanhada, tudo depende da fase... minguante é a sua preferida!

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Pronto para o diálogo? Eu estou (sempre)

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