17 — Quando a ausência de mim é presença em você

Caríssima M.,

Manhã de domingo indecisa entre nuvens e sol e ventos e o canto dos pássaros nas árvores da Alameda. Há previsão de tempestade no decorrer das horas. Mas, as nuvens no céu dizem contrários.

Fui à feira pouco depois da terceira hora cheia… para fugir do sol quente. E ao avançar pelas ruas com nome de pássaros, esbarrei no colorido de uma construção e, o cuore acusou o golpe. Outro estacionamento nasceu… e eu não consegui evitar o espanto ao ver o terreno limpo, o chão coberto pelo cinza-asfalto e as tendas azuis armadas para proteção dos veículos.

A memória acenou com as lembranças do pequeno portão de ferro retorcido e do estreito corredor que levava aos fundos, onde havia uma casa com suas paredes e janelas resistindo bravamente ao tempo e ao descaso. Eu sabia que era questão de tempo… Mas não esperava que o dia seguinte fosse acontecer tão depressa.

Restaram as fotografias… que eu fui espiar assim que voltei para casa e acabei por recordar uma construção da minha infância. A casa da rua debaixo havia sido derrubada e no lugar brotava outra — maior, com dois andares. Numa dessas aventuras de criança, fui até lá para espiar os contornos. Dava para saber os cômodos, embora não fosse possível saber o que seria quarto-cozinha-sala e não estava interessada nisso. Os garotos da rua — que me acompanharam — decidiram brincar de labirinto. E o que começou com quatro crianças… de repente, era uma dúzia e meia delas, correndo por dentro e por fora, entrando e saindo dos cômodos por contornos de portas-janelas; subindo e descendo degraus de tijolo.

Não consigo me lembrar qual era a graça nessa brincadeira… que acabou quando uma das crianças, ao tentar pular da janela, desequilibrou-se ao pousar e foi com a cara no chão. E foi aquele horror de sangue, fraturas nos punhos e nos dentes — seguido por uma aborrecida saraivada de broncas dos adultos.

Durante uma semana inteira não se ouviu um único ruído na rua… crianças de castigo, sem poder brincar com os amigos, isoladas em suas casas. Eu estava no portão de casa, sentada nos degraus, ouvindo contos indianos quando a vizinha perguntou a C., a respeito do meu castigo. Eu não havia sido punida. Tinha dito aonde iria e não me machuquei, tampouco fui responsável pela queda do garoto, que era conhecido por suas fragilidades. Conversamos a respeito dos perigos de correr em um local em obras e só…

Furiosa, a mulher atravessou a rua e foi contar a novidade a outra vizinha, que estava no portão à espera de diálogos. Vez ou outra o olhar das duas atravessava a rua. Consideravam C., uma péssima mãe… curioso que os filhos delas pensavam justamente o oposto.

Au revoir

Publicado por Lunna Guedes

Sou sagitariana... degustadora de café. Figura canina e uma típica observadora de pássaros, paisagens, pessoas e lugares. Paciência é algo que me falta desde a infância. Mas sobra sarcasmos para todas as coisas da vida que fazem mais barulhos que cigarras nos troncos das árvores. Aprecio o silêncio e falas cheias, escreve-se em prosa por apreciar a escrita em linha reta. Tenho fases como a lua... sendo a minguante a minha preferida!

4 comentários em “17 — Quando a ausência de mim é presença em você

  1. Sei bem como é isso. Com a minha mãe também era assim. As outras mães detestavam-na, mas as minhas amigas amavam e diziam-na a melhor de todas. Ciúmes corria solto.

  2. Outra casa que vira estacionamento em SP mas ainda bem que você fotografou antes. Parece uma casa do interior. Imagino que a cidade tinha muitas casas nesse estilo. Uma pena.

  3. Aqui também não foge à regra… A rua de cima já está perdendo seus espaços para novos condomínios e seus prédios… Quando vou para a fisioterapia, me incomoda ver cada dia monturos do que antes foi casa.
    Eu também pensaria o contrário se fosse uma das crianças.
    Bacio

  4. Acho tão triste quando derrubam uma casa e botam um estacionamento no lugar delas.
    Já tem tantos e certas casas tem tanta história. Que perda para o seu bairro, querida Lunna.
    E achei interessante essa brincadeira dentro de uma casa em construção, nunca soube de algo nesse sentido.

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