Retrospectiva literária 2021

Não sou fã de listas… e talvez por isso, nunca tenha elaborado uma daquelas que se multiplicam por aí nessa época do ano — os dez melhores livros do ano e tal. Mas eu sempre acabo lendo a lista dos outros porque a maioria dos blogues literários faz isso e eu me divirto descobrindo o que foi leitura por aí. Às vezes, esbarro nas que as livrarias-jornais-revistas fazem… e me distraio vendo os títulos encaixados ali enquanto imagino qual foi o argumento usado.

Mas, como esse foi mais um ano esquisito — uma espécie de 20 – 21 literalmente –, achei que seria legal espiar minhas leituras. Eu adquiri poucos livros porque sou uma pessoa que precisa ir à livraria, passear entre prateleiras, espiar gôndolas e conversar com livreiros. Algo que eu não fiz… Infelizmente. E eu soube da volta das livrarias de ruas — ótima notícia depois do boom das bookstores que sufocaram os livreiros, obrigando-os a fechar as portas. Mas eu ainda não conheci a maioria e algumas — como a Gato sem rabo –, atraiu minha atenção por ser uma livraria só para escritoras-mulheres.

Quem acompanha a minha escrita, sabe que a pandemia alterou completamente a minha rotina. Deixei de frequentar cafés e passei a fazer — quase –, tudo através do computador-celular, sentada nessa varanda ou no canto do sofá. E eu que era uma crítica do universo virtual, praticamente me tornei uma espécie de avatar. rá

Mas eu fui muitas vezes às prateleiras — feitas com caixa de feira –, que mantenho para o meu uso próprio porque eu preciso ter livros ao alcance das minhas mãos… E fiz inúmeras releituras: de Patti Smith — e seu delicioso Linha M –, a Olhos de Menina, de Susan Fletcher. Poesias de Gilka Machado e Mário de Andrade… Aleph de Borges e Flores do Mal de Charles Baudelaire. As Traças de Cassandra Rios e Cartas de um diabo a seu aprendiz de C.S.Lewis. 1984 de George Orwel — esse foi o último livro comprado, literalmente, às vésperas da pandemia. Soube da nova edição lançada pela Companhia das letras e lá fui eu atrás do livro.

A Scenarium manteve os meus olhos bem ocupados… li centenas de manuscritos para dar vida a 20 livros publicados nesse 21… e acusei espanto na hora do resultado da contagem. Não planejei nada para esse ano…. confundi os dias, as horas e acho que não fui a única a não saber onde começa 2020 e termina 2021… sensação de estar presa em uma espécie de looping infinito… com dias-semanas-meses sempre iguais. Cadê a maldita marmota que fez isso com a gente?

Eu enfrentei algumas fases… teve aquela das pessoas insistindo em repetir como se fosse um péssimo slogan publicitário: seremos melhores depois que tudo isso passar. E lá fui a prateleira em busca de ar, digo, de um livro: escolhi nesse dia A elegância do ouriço, de Muriel Barbery, o único livro da autora que me conquistou e foi uma dessas descobertas deliciosas, estava lá a minha espera, na ilha da velha e adorável Livraria Cultura… que saudades do tempo em que era uma Livraria e não um mercado de peixe, digo, de livros. Passava horas por lá, a ler livros, tomar incontáveis xícaras de café, conversar com Z., rascunhando capítulos inteiros de meu primeiro romance.

E a última fase, que ainda saltita por aí — o maldito mantra sagrado: vai passar! — e lá fui em busca de um livro: Silêncio de Erling Kagge — que eu descobri ao ler o post de uma blogueira portuguesa, que a pandemia calou no último ano. Sinto falta de ler seus escritos, saber suas receitas de vida. A sua experiência ao ler Kagge me seduziu e lá fui eu atrás do livro… o encontrei na Livraria da Vila, através de um telefonema. Havia um único exemplar disponível e o atendente muito simpático — como se vendesse chocolates –, o reservou e queria providenciar a entrega. Mas, às vezes, sofro de urgências e caminhar até uma livraria era uma das minhas atividades favoritas, principalmente quando bem acompanhada.

Eu fiz a minha estante circular bastante nesses últimos dois anos e li de tudo… alguns livros foram excluídos das minhas prateleiras, fazendo crescer a pilha de livros que irão para bem longe de mim. O casal mora ao lado de Shari Lapena foi motivo de tédio: a autora tinha em mãos uma excelente história e morreu com ela porque o best seller que chegou às minhas mãos é monótono. Outro que não entregou o que prometia foi Loney de Andrew Michael Burley. Mas há outros mais com carimbo de boa viagem e em breve, seguirão para bem longe de mim… porque ao espiar meus livros, percebi que há alguns ali que não voltarei a ler e, definitivamente, não sou uma acumuladora de livros… Prateleiras cheias é coisa para as Bibliotecas públicas, com suas mesas bem merecidas, luz ideal e o movimento de páginas no meio de uma tarde de outono.

E se eu tivesse que responder à pergunta pela Chami do Blogue Read Like Wild Fire: qual foi o melhor livro do ano? Eu teria que colocar água no fogo e esperar o apito da chaleira, escolher um saquinho de chá, a xícara e aguardar, enquanto isso, caminharia pelo cômodos da casa, espiaria a paisagem da alameda com nome de pássaros, revisando leituras-muitas. Não seria nada fácil a resposta. Mas, ficaria como Diário de Inverno, de Paul Auster e fecha aspas. Pode começar 22…

DarleneMariana GouveiaRoseli Pedroso

Publicado por Lunna

É sagitariana... degustadora de café. Figura canina e uma típica observadora de pássaros. Paciência lhe falta desde a infância. Mas sobra-lhe sarcasmos para todas as coisas da vida que fazem mais barulhos que cigarras nos troncos das árvores. Aprecia o silêncio e falas cheias. As que se repetem com facilidade de boca em boca despreza... Lacaniana por opção.... E completamente apaixonada por mulheres que usam a escrita como uma navalha afiada que corta enquanto é carne. Escreve à noite e reescreve pelas manhãs. Gosta de calçadas e corujas. Anda sozinha ou acompanhada, tudo depende da fase... minguante é a sua preferida!

3 comentários em “Retrospectiva literária 2021

  1. Ah Lunna, você deve imaginar que eu adoro listas, não é? Mas curiosamente não tenho o hábito de fazer essas listas de melhores “qualquer coisa” do ano. Tenho sim o hábito de anotar minhas leituras, mas é um controle pessoal, apenas para me trazer satisfação, eu acho. Temos em comum esse ano a leitura de 1984. E que leitura intensa! Levei meses para finalizar, porque fui digerindo aos poucos, ruminando, refletindo. O pobre do livro tem marcações e anotações por todos os lados. Até que li bastante esse ano e percebo que fiz muitas releituras. Concordo muito quando você diz que 2020/2021 se misturam… e é uma sensação estranha e talvez por isso recorri aos meus velhos conhecidos, é uma sensação de conforto pra mim me envolver com a escrita de certo autores e reencontrar personagens já bem conhecidos.

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