19 — A poesia é algo que acontece na alma quando uma palavra faz o corpo tremer

Caríssima Mariana,

Na tarde de ontem… ao ler Rubem Alves e sua escrita amena e certeira, recordei seus envelopes vermelhos e fui revirar meus baús para reencontrá-la e passar alguns minutos desse janeiro recém chegado na tua companhia.

Rubem que escrevia como se estivesse sentado à mesa da cozinha, a esperar pela xícara de café fresco, preparado à moda antiga, com água aquecida em bule de ferro pesado e o pó acomodado no coador de pano escuro de tanto uso. Ele foi um desses meninos do campo… com árvores de frutas, chão de terra, estendal ao vento, fogão de lenha, e o silêncio de um lugar a céu aberto. Cidade pequena. Rotina rural… conexão com os ciclos e a vida atrelada à morte.

Impossível não me lembrar de você e sua escrita mansa… que me pega pela mão e me leva em uma viagem por essa realidade tão sua-lúdica-única, onde me sinto em casa. Limpo os pés no capacho e vou entrando, convidada que sou para uma fatia de bolo acompanhada por uma xícara de chá de frutas colhidas no quintal. Ops, isso não é coisa sua, é minha… Mas é sempre assim… as nossas lembranças se misturam. Sei que já reparou…

Rubem dizia,  em seu texto ‘a hora da poesia’… ‘há de se saber o tempo do poema. A poesia é algo que acontece na alma quando uma palavra faz o corpo tremer. Esse tremor pode ser tristeza, riso, beleza, silêncio‘.

Em dias de contemporâneo existir, em que os excessos e as faltas se embrulham em papel de pão… recordei o meu encontro com a poesia — de novo. Há pessoas que nascem na poesia — diz Rubem — como Fernando Pessoa, Baudelaire, Borges, Eliot, Mario, você…  Mas eu não… tive que encontrá-la nas páginas de um pequeno livro de capa verde, com versos maravilhosos de Emily Dickinson… lá na primeira infância. E desse encontro nasceu a sensação de ‘estômago vazio’…

A poesia, quase sempre, me cala-rasga-engasga-incendeia-acalma. É aquele pequeno intervalo entre soluços. Eu leio cada um dos versos em voz alta, enquanto transito pelos cômodos da casa e os repito pelas calçadas da cidade… uma, duas, três vezes. São as minhas músicas e ao ouvi-las, o cuore imita o som mais antigo que trago em mim… fecho os olhos e volto no tempo, percorrendo as distâncias conhecidas. O tempo é outro, sabe?

Revejo a rua, com suas casas antigas, suas pessoas há muito perdidas, a calçada com seu quadriculado português. Ultrapasso o velho portão de ferro com o seu conhecido barulho e lá está o jardim de rosas bem cuidado. Avanço pelo piso de cimento até a porta-verde-desbotada… e lá dentro, deparo-me com a velha figura do ‘móvel articulado’ presa bem no meio da parede… esse mio cuore. Sinto o cheiro do lugar, percorro os espaços com algum cuidado, ouço ranger o chão e alcanço a todos na cozinha —  ainda vivos — ainda meus… e o carrilhão badala suas horas bem cheias. Fecho os olhos e badalo junto uma-duas-três-quatro-cinco-seis vezes!

E retorno… com a pele povoada por arrepios. Olho lá para fora e vejo pássaros em seus vôos matinais. A árvore amanheceu com flores em vermelho e as maritacas acordaram dispostas. Avisto um menino com o seu cão — passada larga no automático de suas emoções. Mas o tempo do cão é outro; encontra o que farejar, marcar e, de repente, dispara à frente, puxando o garoto que foi acordado com lambidas.

E eu vou guardar a bagunça que fiz por aqui e voltar às páginas de Rubem…

Au revoir

Publicado por Lunna Guedes

Sou sagitariana... degustadora de café. Figura canina e uma típica observadora de pássaros, paisagens, pessoas e lugares. Paciência é algo que me falta desde a infância. Mas sobra sarcasmos para todas as coisas da vida que fazem mais barulhos que cigarras nos troncos das árvores. Aprecio o silêncio e falas cheias, escreve-se em prosa por apreciar a escrita em linha reta. Tenho fases como a lua... sendo a minguante a minha preferida!

3 comentários em “19 — A poesia é algo que acontece na alma quando uma palavra faz o corpo tremer

  1. Como você sabe ainda não cheguei direito em 2022… parece que meu calendário emperrou no ano de 2021 e alguns dias se repetem mais ou menos, e nos últimos dias 70 e alguma coisa por cento.
    Está tudo acumulado por aqui… desde as roupas por lavar até as graminhas que resolveram invadir as cebolinhas e alecrim nos últimos dias.
    Até a emoção acumulou-se aqui… respiro lendo sua missiva e vou ali no quintal sonhar.
    Abraço carinhoso, bambina mia!
    Grazie tanto!

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