A poesia de Sophia

Não seria certo dizer que gosto de Sophia. Mas, seria errado dizer que não gosto. Tenho um livro dela na prateleira. Mas, dificilmente recorro a ele. Raramente sai do lugar. Lembro-me de tê-lo oferecido a alguém, que não o aceitou. Depois, o coloquei na pilha de livros para seguir viagem para outras mãos.  No último instante… um poema saltou-suicida para dentro dos meus olhos… se fez ouvir por todos os cantos do meu corpo. E o livro voltou à prateleira e por lá ficou até ontem, quando um texto-outro-alheio… me fez buscá-lo.

Xícara de chá em mãos. Primeiras horas de uma manhã nublada. Silêncio peculiar de existir. A pele em suspenso… e o cuore a falsear dentro do peito. Tudo e nada… dentro de uma mesma badalada nada sonora.

A poesia de Sophia não é estranha aos meus olhos. Seus versos são intensos e, às vezes, tropeço em um ou outro verbo. Me engasgo com certos substantivos…

Reparei que marquei — no tempo de ontem — com post it —, várias páginas. E precisei dedicar alguns minutos… a esse mapa de leituras que se inicia na página cinquenta e nove, onde se lê um verso inteiro.

Porque foram quebrados os teus gestos?
Quem te cercou de muros e de abismos?
Quem desviou na noite os teus caminhos?
Quem derramou no chão os teus segredos?

As paredes da casa desbotaram em seguida e as horas se perderam dos ponteiros. Uma pausa emergiu de minhas estranhas. O mundo do lado de fora acabou. Dentro, aconteceram tantas coisas.

Passo muito depressa no país de Caeiro
Pelas rectas da estrada como se voasse
Mas cada coisa surge nomeada
Clara e nítida
Como se a mão do instante a recortasse

Sophia chegou até mim, na minha segunda década de vida. Foi A., quem recitou os versos dela, em voz alta à frente da turma-desinteressada. Era terça ou quarta… terceira aula, quase onze e meia. Observei os traços dela… figura reta-miúda que, às vezes, se agigantava. A voz ganhava outro tom. O corpo outra postura. A poesia era para ela, uma outra pessoa — que não ela-eu-outro… ninguém!

Eu nem sempre enxergava a mulher-professora-poeta. Às vezes, era como ver um pássaro a saltar para o vôo-primeiro. Asas bem abertas, a gesticular o vôo. De peito aberto, rumo ao azul.

Eu ficava por lá… com os pés bem juntos, a observar os lugares-paisagens-pessoas. Sendo qualquer coisa… uma espécie de chumaço de nuvem.

Não me recordo dos versos-lidos… vejo o movimento da boca e dou pelos alunos, em suas cadeiras. Por mim… perto da janela, a espiar o vidro embaçado de luz da manhã. O bosque do colégio está lá… do lado de fora. Eu gostava de caminhar por entre os troncos. Não havia trilha. Apenas a vegetação-pesada-fechada. Cheirava a vida-selvagem. Eu sempre acreditei que era um pedaço sagrado do velho Bosque perto do mar. Acreditava que a cidade o tinha limitado a um mísero recorte, para ser um espaço urbano, de casas e prédios ranzinzas.

Não restou muito do projeto natural. Os humanos cresceram sem restrições… deixando apenas um pedaço de chão, onde ser árvore, bicho, mato, pedras, gravetos e passos alquebrados de ontem-hoje-amanhã.  

É sobre tudo isso que Sophia me fala. E, ao percorrer seus versos… sinto aquele fundo amargo na boca. Perpasso suas páginas uma a uma e de gole em gole, reencontro a menina-aluna de A., e provo de suas aventuras entre árvores, lendo versos, enquanto o pé pousa no lugar certo, entre gravetos e folhas secas, pedras cobertas por musgos e trilhas de formigas. Descobre um inseto estranho e o observa — sendo observada por ele. Encontra um morcego machucado e conversa com ele, oferecendo ajuda. Ele parece entender e é levado para o laboratório, onde colhem olhares espantados e gritos de pavor. É o meu primeiro contato com a morte — de que me lembro. Não havia o que fazer. A vida seguia seu ritmo. Acabou virando mais um animal daquele lugar moribundo…

E ao esbarrar em minhas próprias notas de leitora. Nos cantos das páginas, não entendo porque a deixo lá, a hibernar entre outros livros tantos — Borges e Eliot e Baudelaire e Emily e Plath. Respiro fundo e devolvo o livro à prateleira, com a promessa de não me demorar para um novo vòo.

Poema de geometria e de silêncio
Ângulos agudos e lisos
Entre duas linhas vive o branco.

Publicado por Lunna

É sagitariana... degustadora de café. Figura canina e uma típica observadora de pássaros. Paciência lhe falta desde a infância. Mas sobra-lhe sarcasmos para todas as coisas da vida que fazem mais barulhos que cigarras nos troncos das árvores. Aprecia o silêncio e falas cheias. As que se repetem com facilidade de boca em boca despreza... Lacaniana por opção.... E completamente apaixonada por mulheres que usam a escrita como uma navalha afiada que corta enquanto é carne. Escreve à noite e reescreve pelas manhãs. Gosta de calçadas e corujas. Anda sozinha ou acompanhada, tudo depende da fase... minguante é a sua preferida!

2 comentários em “A poesia de Sophia

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