eu ainda não virei a página

“Depois de escrever, leio… Por que escrevi isto? Onde fui buscar isto?
De onde veio isto? Isto é melhor do que eu”…


Fernando Pessoa

Travei nas últimas horas uma batalha com algumas palavras — que reunidas formaram um título e acabou sendo uma espécie de jogo da Forca… onde se oferece vogais e consoantes, na tentativa de impedir que o bonequinho — feito de riscos — se forme e acabe enforcado.

Gosto imenso de ouvir o som das palavras e o que elas projetam para fora do meu corpo, numa espécie de eco. Às vezes, no entanto, quero discursar a respeito ou coloca-la na parede, na condição de quadro que exibe paisagens surrealistas ou modernistas, como o meu preferido: O homem amarelo, de Anita Malfatti que retratou um homem qualquer da década de 1920 e seu olhar de operário em meio a uma luta por direitos, que se naquela época já eram amassados e descartados, imagina no cenário atual…

Eu realmente não sei se aqueles que escrevem sabem dos barulhos que produzem ao mergulhar os dedos no teclado ou ao apertar uma caneta até marcar a pele. Eu era dessas, com um calo no dedo médio, que vez ou outra pedia trégua e sempre que alguém me aconselhava a ser  mais suave, pensava no prazer de sangrar palavras.

Mas eu confesso que me incomoda pensar que um autor não se preocupa com as palavras que usa ou as frases que inventa. E pensar nisso me põe inquieta e corro para a cozinha, colocar a chaleira no fogo para ouví-la apitar…

E enquanto espero… Descubro que já é fevereiro por aqui… através da página da agenda que Mariana fotografou para esse dia primeiro. Fato que, aqui dentro de mim, ainda é janeiro. E talvez o seja por não ter feito a famosa receita de brownie da nonna.

Minha infância foi povoada por doces e suas lendas… o que tornava tudo muito mais apetitoso. Mesmo eu não sendo uma contumaz devoradora de guloseimas. Eu era a que preferia observar a nonna separar os ingredientes. Tinha especial fascínio pelo momento em que peneirava o trigo dentro da tigela de louça azul. A cozinha daquela casa era um lugar aquecido, onde os melhores diálogos aconteciam e as histórias mais incríveis eram contadas enquanto ela quebrava os ovos, separando a gema da clara.

As crianças a rodeavam… com os olhares imensos, a boca a salivar vontades, os pés a saltitar no chão frio… e as mãos em concha, sempre prontas para a prenda. Eram mendigos de guloseimas.

Eu apoiava o queixo sob as mãos e ficava a espiar aquela alegria… meia dúzia de biscoitos, bolachas, bolinhos. Ela era sempre generosa com os bambinos, que crescidos lhe beijavam a bochecha em agradecimento  à infância adocicada.

Para a nonna… janeiro era tempo de Brownies — o famoso bolo coberto com uma grossa calda de chocolate, casquinha crocante e massa bem macia que mistura:  trigo, ovos, açúcar, chocolate e manteiga. Ela contava que o Brownie não levava fermento porque um atrapalhado cozinheiro francês ao preparar um bolo para seu convidado de honra — de tão nervoso que estava, com a presença da tal figura — aparentemente real — que acabou por se esquecer de adicionar o ingrediente indispensável em qualquer receita de bolo. E para não passar vergonha… fez o que fazem todos os cozinheiros quando descobrem que falta um ou outro ingrediente em sua cozinha: improvisou. Preparou uma grossa calda de chocolate e ali mergulhou os pedaços do bolo embatumado. E o que era erro virou acerto…

Na casa da Nonna, os Brownies iam para a janela no último dia do mês de janeiro por causa de uma antiga lenda que saltava de geração para geração, sem que se consiga saber a sua origem. Dizia que era sinal de fartura se os Brownies sumissem da janela, restando apenas os farelos. Pois era exatamente o que acontecia porque havia crianças na casa e elas inventavam mil maneiras de escalar a janela e — ano após ano — fazer cumprir a lenda…

Publicado por Lunna Guedes

Sou sagitariana... degustadora de café. Figura canina e uma típica observadora de pássaros, paisagens, pessoas e lugares. Paciência é algo que me falta desde a infância. Mas sobra sarcasmos para todas as coisas da vida que fazem mais barulhos que cigarras nos troncos das árvores. Aprecio o silêncio e falas cheias, escreve-se em prosa por apreciar a escrita em linha reta. Tenho fases como a lua... sendo a minguante a minha preferida!

12 comentários em “eu ainda não virei a página

  1. Depois de escrever , eu leio e fica o questionamento: Como eu consegui escrever isto e desta forma?! Cada texto é um filho, uma cria. Um sentimento tão particular. Por isso, quando alguém nos confia, temos que fazer o nosso melhor com o destino dele.

  2. Dou um valor imenso aos sons encontrados no silêncios.
    O tempo, vem me ensinando a sentir melhor as coisas não ditas, os gritos abafados e toda sorte de segredos afogados nos silêncios. Ahhh, penso que a “maioria” adora o barulho por puro medo de se ouvir, sei lá, apenas mais uma dentre tantas das minhas teorias.

    Foi bom ler seu texto, me ajudou a ficar mais em paz entre os sons das minha teclas.

    Um beijo.

  3. Bom, entendo que você sabe quando digo que viver é plural. Ainda mais pra quem já deixou em N york a expectativa alheia a respeito de si mesmo. Entendo que todos os autores que te cercam tem expectativas diferentes e desejam o experimentar desse plural que você é.

    Mas ninguém disse que seria fácil, tampouco silencioso.
    Eu acabei de ler o colcha de retalhos e ainda estou a flutuar ali, naquele desenho de amizade.

  4. Se eu pudesse eu deitaria toda a emoção que sinto quando você lê o que escrevo e diz algo a respeito. O coração acelera e a pele respira. Confiança também faz barulho e o som deve ser de sinos, tocando ritmado, anunciando a melhor hora. Você prefere o som do carrilhão, não é mesmo?

    Grata.
    bacio

  5. Lunna,
    O acto de escrever nem sempre é fácil e livre. Por vezes as letras parecem prender-nos e querer segurar a nossa mão… e eu não conhecia essa lenda, mas não vou esperar o próximo janeiro para fazer uma fornada de brownies.

    Adorei este texto!
    Beijinhos!

  6. Sabe aquela sensação quando você descobre algo novo e o caminho de encontrar mais? Um novo mistério, que só de pensar causa um sorriso no rosto de quem sabe… pois bem, ler seus relatos é assim! Difícil não querer mais.

    1. Eu fiquei curiosa para saber para onde meus escritos te levaram porque se tem algo que eu acho fascinante é como cada um acolhe uma narrativa. bacio cara mia

  7. Lunna, é estranho ler sobre escritores que não se importam com o que escrevem. Mesmo porque, sendo minha editora, eu me importo em saber a sua opinião sobre o que eu escrevo. O pior é que quando sei que escrevo algo bom, ajo como Fernando Pessoa: De onde veio isto? Isto é melhor do que eu”…

  8. Costumo dizer que só consigo pensar se conseguir ver. A imaginação faz parte de mim. Outro dia até me perdi na rua porque esqueci o visual de um trecho do caminho. Precisei parar, encontrar a imagem na memória para localizar o destino correspondente. Assim, já tenho uma imagem para a sua chaleira, da mesa de madeira firme que apreciava a magia da sua nonna na cozinha e da janela com os precisos farelos, porque foi só imaginar o brownie para eles sumirem. Enfim… O lugar que me leva, exatamente, é de uma infância distante da minha, que a mim parece ter sido tirada de livro escondido num baú de boas memórias.
    Em outras palavras, o que quero dizer é que gosto da forma como escreve porque torna livre, e ao mesmo tempo bem conduzida, a minha imaginação.

    1. Uau, que delícia… cara mia. Eu não me perco quando caminho por aí, mas o movimento dos passos me ajuda a escrever melhor. As idéias se organizam e fluem com mais facilidade. rs

      Esse seu comentário é daqueles que eu costumo dizer que deveria virar texto. Adorei… grazie

  9. Ao ler-te aqui levei um susto… já é março, bambina! e as delicias de comer, foi ali, em fevereiro e mais uma vez nossas histórias caminham de mãos dadas… nem era brownie, mas vi os ovos na tigela como os da sua foto.
    Grazie por tanto!

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