22 — Gosto de existir no mistérios das coisas…

Uma missiva escrita num desses ontens colecionáveis…

Para M,

As horas estão equivocadas no dia de hoje. O sol faz tudo arder lá fora e aqui dentro. Sinto cansaço… A pele está em suspenso. Minha alma é o próprio desassossego de Pessoa. Andei pela Avenida Paulista mais cedo… tinha como destino essa mesa da Starbucks. Caminhei — como de costume — sem pressa, pelo meio da calçada, como tanto gosto e me lembrei de você ao admirar a multidão humana que se deslocava indiferente à minha presença. Será que você ainda se lembra do quanto eu gosto desse “levitar” por entre eles?

Buzinas gritando a impaciência alheia. O humano ralhando com a própria sombra… Discursando em voz alta as euforias, filosofias impróprias e indevidas. Atropelando-se em movimentos desnecessários… Um avião cruzou o céu, riscando o azul, quase tocando o topo dos prédios e ninguém repara. Eu olho para o alto e alguém esbarra em mim, gesticulando o atraso provocado por minha lentidão. Sirenes gritam o sofrer do outro. Idosos com seus passos lentos, incomodavam os apressados e impacientes — outro obstáculo a ser superado. Um mendigo dorme entre papelões com o seu cão atento… guardião. Um skatista em busca de espaço equilibra-se sob as rodas. Gente que olha para o relógio a cada novo minuto e se apressam por estar um passo atrás quando era para estar um a frente.  São tantos sons… ocos-estridentes.

Sorri ao pensar que não ouvi nenhuma cigarra. Lembra-se daquela que encontramos na goiabeira? O nonno a pegou em suas mãos. Você achou que ela era muito feia e se afastou, horrorizada. Mas ficou com pena quando soube que elas cantavam até morrer. Nonno não concordou com isso, mas era o que dizia o livro. Mas achei interessante a sua reação. Impossível esquecer de sua voz murcha a dizer: ela nem é assim tão feia.

O som das cigarras é enlouquecedor porque vai num crescente. Eu encontrei uma delas na jabuticabeira. Devo ter lhe falado a respeito. Preciso te contar, porque acho que ainda não sabe. É uma lenda a história que leu. E o som que ouvimos nem é um canto… é emitido pelas asas dos machos para se aproximar da fêmea, que são silenciosas… O que me fez desejar ser uma cigarra. Antes de alcançar a superfície, elas vivem durante anos no subterrâneo e trocam de cascas. Tudo tão mágico e belo… como vês, a beleza não é um elemento único.

Au revoir

Publicado por Lunna Guedes

Sou sagitariana... degustadora de café. Figura canina e uma típica observadora de pássaros, paisagens, pessoas e lugares. Paciência é algo que me falta desde a infância. Mas sobra sarcasmos para todas as coisas da vida que fazem mais barulhos que cigarras nos troncos das árvores. Aprecio o silêncio e falas cheias, escreve-se em prosa por apreciar a escrita em linha reta. Tenho fases como a lua... sendo a minguante a minha preferida!

4 comentários em “22 — Gosto de existir no mistérios das coisas…

  1. Eu nunca vi uma cigarra de perto, Catarina. Apenas ouço o canto delas nas árvores e como cantam as danadinhas. Não sabia que viviam no subterrâneo e que nem era canto.

  2. Eu não sabia que era lenda essa história das cigarras, achava mesmo que cantavam até morrer.
    Agora o seu passeio pela Paulista me desnorteou. Não troco a minha calma do interior por esse desassossego de Pessoa não. rs

    bisous

  3. enquanto te leio, uma cigarra canta em uma árvore próxima… confesso que o canto me irrita e me vejo buscando onde ela está para afugentar…

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