O que ando a ler | Colcha de Retalhos

Preparei uma xícara de chá e fui observar a manhã que despencou na minha janela… mãos aquecidas pela xícara e o corpo enrolado em uma manta. Fechei os olhos para levar para dentro os aromas da cidade. Engana-se quem pensa que na Paulicéia — nada — desvairada não se respira bem. Há dias mais difíceis em que o ar fica pesado de poluição. Mas depois de uma semana de chuva, o ar fica leve e a brisa da manhã mistura um sem-fim de aromas… Das flores na copa das árvores ao pão da padaria vizinha ao prédio e dos perfumes das pessoas que se preparam para as suas rotinas. 

E foi motivado por sons e aromas que eu fui buscar o livro Colcha de Retalhos… título sugestivo que me levou de encontro ao filme que há tempos não assisto.

A história escrita por Mariana Gouveia faz jus ao título, é uma colcha imaginária, feita de memórias… Tudo ali é realidade… da pessoa que surge atrás das cortinas ao carinho de mãos que entregam uma à outra. As imagens vão se formando por dentro, se espalhando pela pele… e provamos o sabor agridoce de uma amizade que não se dissipou no ar.   

As personagens do livro vivem uma espécie de reencontro e tudo é mágico nessa história, que foi escrita há algum tempo e ficou aguardando pelo momento certo de se aninhar em nossas mãos — porque o Universo sabe mais de tempo e lugar que todos nós, como gosta de dizer a autora…  

Ao virar as páginas de Colcha de Retalhos, encontrei a menina que fui e que ía para a escola de mãos dadas com um menino de sorriso fácil, que morava na rua debaixo. Ele não questionava o meu silêncio e a gente nem sempre se falava… era coisa de olho no olho e sorriso de orelhas nos lábios. Várias vezes fomos questionados sobre o que tanto a gente sorria… Ele se mudou para outra cidade e tudo que restou foi a lembrança de nós dois.

E a garota do Campus que veio se sentar ao meu lado e disse que iria ser minha amiga. Era uma figura esquisita-maluca e insuportavelmente tagarela que gostava de ler poemas em voz alta, rodopiar até cair e fazer dobraduras de papel. Não passava um único dia sem confeccionar um tsuru. Alguém tinha lhe dito que se fizesse mil, um desejo seu seria atendido. Mas ela não fazia idéia de quantos havia feito. E Catarina, também se foi… mas, a menina que escrevia desire incontáveis vezes, ao em um caderno, ao contrário da personagem de Colcha de Retalhos, não morreu. Acabou trancafiada no próprio corpo pela sua família, que optou por interná-la e medicá-la. No tempo em que convivemos não havia reparado nenhum tipo de loucura que oferecesse risco a alguém. A família, no entanto, enxergava apenas o perigo. Na última vez em que a vi, estava indócil, presa a cama. Não vou descrever o tratamento porque, às vezes, penso que foi um sonho, após a leitura de um artigo a respeito da forma equivocada como se tratavam pacientes com esquizofrenia no passado.

Ler Colcha de Retalhos é misturar-se à narrativa de Mariana, dar as mãos às personagens e durante esse passeio de páginas, confeccionar a própria colcha de memórias. E, no fim, recordei a poeta primeira…   

E para traduzir a emoção provocada por essa leitura, recorro a Emily Dickinson e o poema que me acompanha desde a infância.

My friend must be a Bird –
Because it flies!
Mortal, my friend must be,
Because it dies
Barbs has it, like a Bee!
Ah, curious friend!
Thou puzzlest me!

Para conhecer o livro e adquirí-lo: clique aqui e para acompanhar a autora em suas partilhas literárias, acesso o blogue nesse link e divirta-se…

Publicado por Lunna Guedes

Sou sagitariana... degustadora de café. Figura canina e uma típica observadora de pássaros, paisagens, pessoas e lugares. Paciência é algo que me falta desde a infância. Mas sobra sarcasmos para todas as coisas da vida que fazem mais barulhos que cigarras nos troncos das árvores. Aprecio o silêncio e falas cheias, escreve-se em prosa por apreciar a escrita em linha reta. Tenho fases como a lua... sendo a minguante a minha preferida!

3 comentários em “O que ando a ler | Colcha de Retalhos

  1. Lunna, acabei de postar meu parecer sobre esse belo livro da Mariana e não tinha lido ainda sua resenha pois como sabe, ando afastada das redes sociais. Que maravilha ver os mais diferentes olhares sobre uma mesma obra. Amei!

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