25 — As palavras escritas em um futuro impossível

Cara F.,

A tarde de hoje não trouxe os trovões que eu esperava, apenas um silêncio imenso dentro das horas em pares — vividas, minuto a minuto, na companhia de um sem-fim de linhas. Li e re-li versos soltos, de autores vários… enquanto os meus olhos tratavam cada palavra como tesselas dispostas num tabuleiro e as minhas mãos coçavam, ansiosas por dar forma a mais um projeto artesanal. O primeiro Coletivo da Scenarium 8.

Respirei fundo… e lá fui eu para a parte favorita da casa, com uma xícara de chá, em mãos e um sem-fim de escritos. Vasculhei as gavetas da memória enquanto espalhava as folhas na mesa, na cadeira e no chão da varanda… torcendo para que um vento aparecesse e fizesse tudo ir pelos ares.

Comecei a rir ao me lembrar de uma cena antiga, que guardei em algum canto do meu corpo. Há alguns anos… imprimi as páginas do que viria a ser o meu primeiro romance e as levei comigo para uma praça — perto de casa.

Era um hábito meu… Caminhar até aquele contorno errático com árvores por cair, mato por podar e bancos de cimento alquebrados. Eu gostava daquele lugar e de levar meus escritos até lá. Escolhia um canto — sempre o mesmo. Espalhava tudo por cima da grama… Nesse dia, uma manhã com nublada de maio… um vento arteiro surgiu de maneira repentina e carregou tudo pelos ares.

Na mesma hora, uma senhora apareceu do nada — furiosa com a vida, o vento, as folhas — e passou a recolher folha por folha.

Foi uma cena estranha que eu acompanhei sem saber como reagir. Foi difícil não rir, mas eu consegui manter o riso apenas nos olhos, e os lábios cerrados. A mulher devolveu-me todas as folhas que conseguiu apanhar e foi embora, pisando firme, como se tivesse vencido uma batalha pessoal. E eu lá, com as mãos cheias e desejando atirar as folhas aos ares para seguirem com a rotina de voo. Não o fiz, apenas fechei os olhos para ouvir o som das folhas se deformando em minhas mãos, enquanto eu as amassava.

O processo atual é outro, cara mia… mas o desejo é o mesmo desse ontem colecionável: ver o vento agir em mim e por mim.

Au revoir

Publicado por Lunna Guedes

Sou sagitariana... degustadora de café. Figura canina e uma típica observadora de pássaros, paisagens, pessoas e lugares. Paciência é algo que me falta desde a infância. Mas sobra sarcasmos para todas as coisas da vida que fazem mais barulhos que cigarras nos troncos das árvores. Aprecio o silêncio e falas cheias, escreve-se em prosa por apreciar a escrita em linha reta. Tenho fases como a lua... sendo a minguante a minha preferida!

2 comentários em “25 — As palavras escritas em um futuro impossível

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