29 — Dentro do silêncio, mais silêncio

Carissima M

Sento-me neste ‘meu canto do mundo’ — para onde escapo… em busca de paz. Respiro fundo, fecho os olhos e pronto… Uma espécie de halo se forma na realidade e eu mergulho no Abismo que sou! Na pele acontece a simbiose… Sou uma substância que sofre alterações a cada novo segundo: não sou mais o que eu era ontem e ainda não sou o que serei amanhã e gosto desses intervalos entre o tudo e o nada, é justamente quando escrevo.  

Ouço Mercedes Sosa em minha memória— ‘todo cambia’ — enquanto re-visito suas linhas — ainda frescas em minha memória: é como se eu te oferecesse meu quintal, minhas histórias e recebesse de volta suas janelas, o cheiro de pão de sua cozinha e assim, nos conectamos

Fecho os olhos, me afasto de sua escrita e fico dentro da canção… sinto o efeito da música na pele: ‘cambia, todo cambia — cambia, todo cambia — cambia, todo cambia’… que parece suor a varar os meus poros:

Volto a realidade da paisagem com seus prédios empilhados ao longo da alameda e repouso em meus vazios. Passei alguns dias sem escrever uma única linha, sem ocupar-me desse cenário enquanto escritora que finjo ser, em alguns momentos. Às vezes, faz tanto barulho do lado de fora que fica impossível alcançar o silêncio de que necessito.

Hoje, acordei com o som das maritacas, na árvore da frente e o som dos aviões que, ao decolarem, cruzam os ares com os motores cheios. Apoiei o corpo na estrutura de ferro pintada de vermelho sinto falta de uma xícara de chá — ontem tinha cidreira e hortelã na banca de ervas. Espiei de passagem, mas não trouxe para casa. Coloquei a chaleira no fogo… pensando nas cores dos seus quintais e voltei quando o apito gritou pelos ares. Bebi pequenos goles de um chá que vem em saquinhos. Não é a mesma coisa. Fui sentindo os percursos do líquido-ar… Gosto imenso desse instante sagrado de tudo e nada. Uma pausa em todas as coisas demasiadamente humanas.  

Ao ler a sua missiva na manhã de ontem… fiquei a pensar na pessoa que sou quando escrevo. Eu me multiplico, mudo de nome-identidade. Sou tantas… E pensar que as pessoas analisam Pessoa em busca de resposta para a sua multiplicidade. Não tenho necessidade alguma de entendê-lo enquanto pessoas. Sinto em seus versos — tenho preferência por Álvaro de Campos — a figura primordial que escorre por sentidos-sentimentos e tantas outras coisas. Um preparo natural para o próximo. É como escrever um livro primeiro e ir melhorando a narrativa aos poucos para o próximo até que seja o último.

Meu Lado B., escreve sem anseios, eventuais preocupações, freios, repreensões. Apenas escrito natural… sem compromisso algum com a realidade e suas academias. Gosto e preciso desse escrever livre — sem amarras, solto no ar-espaço-tempo. Uma frase escapa e eu refaço os meus mapas particulares. Narro minhas vivências-conflitos-dúvidas… ralho com meus desaforos! Afronto vontades-desejos. Dou risada de meus questionamentos e das perguntas que não preciso fazer por não estar interessada em obter respostas. Gosto do impossível… do não saber.

Gosto imenso de escrever-me, sabendo que se trata de um diálogo com alguém, feito uma garrafa atirada no mar, com um bilhete dentro. Alguém há de encontrar e percorrer o caminho de volta.  Se chegar até você, hei de saber!

Au revoir

Publicado por Lunna Guedes

Sou sagitariana... degustadora de café. Figura canina e uma típica observadora de pássaros, paisagens, pessoas e lugares. Paciência é algo que me falta desde a infância. Mas sobra sarcasmos para todas as coisas da vida que fazem mais barulhos que cigarras nos troncos das árvores. Aprecio o silêncio e falas cheias, escreve-se em prosa por apreciar a escrita em linha reta. Tenho fases como a lua... sendo a minguante a minha preferida!

9 comentários em “29 — Dentro do silêncio, mais silêncio

  1. Todo cambia é a primeira música da minha listinha de passeio. E estou terminando um carta, ora veja, que fala sobre “o cantinho do lado de cá da gente”. Minha nossa

    1. Eu li uma carta em seu blogue, mas não consegui comentar porque o wordpress anda mau humorado comigo. Diz que eu já comentei e me atormenta com uma página em branco e leva embora todas as linhas escritas. hunft

      1. Fiquei a pensar nas coisas minhas, nos lugares que passo e nas pessoas que esbarro… aqui em São Paulo temos todas as estações do ano dentro de um mesmo dia. Hoje amanheceu sol… esquentou até arder o asfalto e veio a chuva, com suas pesadas nuvens. Tudo cinza… veio e foi embora, deixou o ar mais ameno e de repente esquentou e esquentou e não sabemos como será a noite, que graças ao horário de verão chegou mais tarde.
        Eu senti vontade de café e de rascunhar linhas, como se fosse uma resposta, dessas que ficam dentro do envelope que ganha um carimbo do correio: recusado pelo destinatário. rs

        bacio

  2. Ah, como eu gosto dessas trocas. Fui ler a carta que originou a resposta e nem sei mais quem sou.
    Vocês duas trocam confidências em público e eu bebo tudo e me embriago.

    Lindo. Lindo. Lindo toda essa inteireza de alma!
    E tenho cidreira no meu quintal, viu?
    Faço chá e você trás Mariana para uma conversa dessas aqui na minha mesinha redonda, fica debaixo de uma árvore.

    bisous

  3. Eu só não fiquei em silêncio aqui, porque as gotas da chuva caem em alguma folha no beiral. A mesma da foto de ontem.
    A brisa – ou seria vento? – traz a chuva para varanda e eu me perdi nos comentários tão lindos.
    Colho o alecrim – ainda molhado – e vou fazer um chá. Você me leva por esses sabores que caberiam em um caderno de receitas. Você me leva pelas poesias dos livros e me leva a escrever mais uma carta.
    Acho que vou dar vida aos carteiros depois disso.
    Oi ti amo!
    Bacio

Pronto para o diálogo? Eu estou (sempre)

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