30 — Uma porta que se abre em outro lugar

Caríssima A.,

…enquanto folheio sua missiva, observo a realidade que chega a minha varanda e me dou conta de que já se foram um punhado de dias desse ano. Espio a data no rodapé da tela e levou um susto… dezenove de março. Respiro fundo e penso no que fiz e não fiz… e me desprendo com alguma facilidade de todas as coisas.

É algo que tem acontecido com alguma frequência… Levanto voo em outras direções e pouso em lugares-outros-ontens. Sensação de despertar numa manhã qualquer. Sinto cheiros no ar, o corpo se encaixa ao cenário e pronto: reconheço-me…

E num piscar de olhos… ouço o som dos trilhos e dou pela paisagem em movimento prolongado na janela-moldura do vagão. Observo as cidades com seus desenhos de casas, pessoas e as praças, com seus bancos de madeira-cimento, o traçado e as pessoas em seus movimentos de vida.

Em uma dessas viagens… eu me distraí com a algazarra feita por algumas crianças — como se fossem pássaros — em suas maratonas particulares. Animados, davam o melhor de si. Fiquei com a sensação de que o maquinista pensou seriamente em reduzir a velocidade de sua poderosa locomotiva… apenas para deixá-los vencer o gigante de ferro. Eu torci por eles e não sei se foi o meu imaginário, mas tive a sensação de que não fui a única. Outros passageiros incentivando-os como se aqueles garotos estivessem a poucos metros da linha de chegada.

Havia um horário a cumprir… e com um apito potente, o gigante acelerou sobre os trilhos, deixando para trás os humanos em miniatura — vencidos, mas não derrotados…

E o trem seguiu para outro destino. Eu acomodei o meu corpo no assento e fui surpreendida com o chiado e o clique de uma câmera, que registrou o momento. O rapaz fotografava os passageiros e vendia seus instantâneos por alguns centavos de euro. Procure por moedas no bolso e encontrei um punhado de coisas: clipes, canetas, moedas, balas, papéis de propaganda… e o bilhete da viagem, onde li as minhas rotas de partidas-e-chegadas.

Fui trazida de volta por um estranho latido na rua. Parecia furioso. Estiquei o olhar e vi que reagia a um estranho, obrigando seu amigo a encurtar o guia… Não sou apenas eu que reajo as novas caras que se espalham pelo bairro, desde que os prédios em construção começaram a ser entregues.

Respirei fundo e reparei que o sol despontava para mais um dia quente. E ao voltar para nosso diálogo, reparei que ainda não voltei, permaneço em viagem… a espiar janelas-cidades. Estico o olhar e dou pelos meninos à beira da linha… curvados sobre os joelhos, puxando ar. Parecem felizes. Engatam gestos-sorrisos e enquanto percorrem o caminho de volta, em direção a estação, tramam a próxima maratona. Certeza que tentaram de novo e de novo…

Já reparou que a realidade sempre encontra um meio de nos levar de volta à infância? Será que precisamos ser constantemente lembrados de houve um tempo em que tudo era possível? O que me leva à seguinte questão: em que momento passamos a dar tanto crédito ao impossível?

E com essa pergunta indigesta, eu me despeço por aqui.
Mas a viagem continua..
Au revoir

Publicado por Lunna Guedes

Sou sagitariana... degustadora de café. Figura canina e uma típica observadora de pássaros, paisagens, pessoas e lugares. Paciência é algo que me falta desde a infância. Mas sobra sarcasmos para todas as coisas da vida que fazem mais barulhos que cigarras nos troncos das árvores. Aprecio o silêncio e falas cheias, escreve-se em prosa por apreciar a escrita em linha reta. Tenho fases como a lua... sendo a minguante a minha preferida!

Pronto para o diálogo? Eu estou (sempre)

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: