31 — As mentiras que nos esquecemos de contar

Caríssimo P,

Sai cedo para uma caminhada pelo bairro… antes de o sol despertar e aquecer a paisagem, caramelizando-a. Enquanto espiava a anatomia dos prédios e algumas casas sobreviventes, lembrei-me de nós dois e da nossa correspondência constante. Há tempos não lhe escrevo e não é por falta de tempo. Algumas frases se organizam em meu íntimo e, às vezes, procuro por uma folha de papel para iniciar um diálogo. O movimento não acontece. Sou tragada para o nosso último encontro… ouço sua voz em eterna transformação, sua risada opaca e seus gestos descoordenados. Você não herdou o talento da família para o esporte. Era todo atrapalhado com as mãos, os pés… o corpo todo. E a gente se divertia com seus desacertos.

Eu reparei que tinha herdado outro dom… o de nos manter próximos, debaixo de tuas asas. Eu jamais seria amiga daquelas garotas, não fosse por você, que se interessou pela menina de óculos de aros quadrados, cabelos cacheados… uma leitora de Baudelaire. Eu me lembro de vê-lo virando a cabeça de um lado para o outro — imitando os cães — apenas para ver o título do livro e o nome do autor. Eu tentei não rir… mas imaginei orelhas caninas, iguais a de beagle e cai na gargalhada. Você puxou o livro para si e a graça acabou. Fiquei furiosa e pedi que devolvesse. E você empurrou o livro por cima da mesa. Estava satisfeito. Trovejou forte e eu reparei que você nem piscou. Sorrimos os dois. Éramos forjados em trovões…  

Enquanto caminhava… recordei nós dois, caminhando em direção ao Cais, equilibrando emoções e o passo, desviando das poças. Você deixou escapar a sua vontade de pular numa daquelas poças e emendou suas falas — como costumava fazer — falando da sua cena favorita de Mary Poppins e começou a cantarolar a música do-ré-mi do filme The sound of music e fomos saltitando por nossa estrada de paralelepípedos, que não era amarela, como fez questão de frisar, mas nos levou de encontro ao mar.

Regressei num susto… atraída por um transeunte macambuzio que emergiu diante de mim… crispando bobagens, no ar. Pedia ajuda para comprar uma refeição. O pobre diabo não conseguia se equilibrar nas próprias pernas. E ao perceber que eu tentava desviar-me, esbravejou. O vigilante da rua foi outro a surgir do nada e intervir, como se eu fosse uma pobre moça em perigo. O andarilho bêbado foi embora, chutando coisas mortas e caindo poucos metros à frente.

O mundo real das coisas demasiadamente humanas, às vezes, é barulhento demais. Por isso, recorro ao meu imaginário para silenciar tudo isso.

Esse andarilho, meu caro, poderia — facilmente — habitar em um poema do nosso velho Eliot.

Que vontade de inventar uma máquina do tempo apenas para voltar a uma daquelas nossas tardes frias… o canto do sofá, mantas para os pés, xícaras para as mãos e a tua voz recitando poemas de Eliot.

Eu adoraria pegar o telefone agora, procurar por seu nome-número e ligar para pedir: cancele todos os teus compromissos — até os mais importantes… porque estou indo ao teu encontro. Escolha as melhores xícaras, acenda a lareira e separe os livros que serão lidos nas próximas noites. Vamos caminhar pela velha rua até o porto, com os braços engatados, cantarolando do-re-mi (de novo) e quando chegarmos lá, vamos ocupar uma daquelas mesas do café Madalena e tomar uma generosa xícara do melhor cappuccino do mundo inteiro.

Se é que aquele lugar ainda existe. Tanta coisa mudou por aqui, desde que você se foi, meu caro.  Eu mudei… Mas, você, certamente, seria o mesmo porque nunca foi simpático a mudanças. Lutava arduamente contra tudo que era diferente… Gostava das coisas nos seus devidos lugares. Foi isso que me fez chamá-lo de meu conservador favorito. Ao que você reagia com a voz aborrecida: vocês rebeldes só existem graças a pessoas como eu.

Mas, para ser feliz, como tanto queria, precisou entender que certas coisas nascem fora do lugar. São um ponto fora da curva…

Mi manchi

Publicado por Lunna Guedes

Sou sagitariana... degustadora de café. Figura canina e uma típica observadora de pássaros, paisagens, pessoas e lugares. Paciência é algo que me falta desde a infância. Mas sobra sarcasmos para todas as coisas da vida que fazem mais barulhos que cigarras nos troncos das árvores. Aprecio o silêncio e falas cheias, escreve-se em prosa por apreciar a escrita em linha reta. Tenho fases como a lua... sendo a minguante a minha preferida!

14 comentários em “31 — As mentiras que nos esquecemos de contar

  1. Oi Lunna!
    …”e no meio do que sobra de mim, encontro pallavras perdidas”…

    Que carta mais linda, obrigada por verbalizar.
    Ler você me suaviza o coração. Eu gosto.

    beijos querida e boa semana.

  2. Como é bom sentar-me aqui para ler seus escritos. Uma carta, nos dias atuais estão cada vez mais raras, por isso muito mesmo não se surpreenda com o fato de não escrever há tempos, o importante é ter escrito. beijinhos

  3. Como sempre imbuindo sua magistralidade com as letras. Nesse incauto lugar, serenos e sublime como a sua alma. Outro post deliciosos, que pacifica um pouco o coração de quem lê. Faz tempo que eu não escrevo cartas também. Fiz isso no meu tempo de garoto. Engraçado lembrar disso agora. beijos

  4. Lunna, obrigada por compartilhar conosco esta tua tarde em forma de carta/missiva. Vale a pena dar este mergulho na alma, quanta coisa bonita você escreveu… Certamente porque você as tem dentro de você. É sempre uma delícia passar por aqui. Um grande beijo e uma ótima semana.

  5. Olá, Lunna… Hoje, num dia de muita chuva azul sobre esta ilha, venho te visitar e matar as saudades… Leio teu lindo texto, suave, sentido… e saboreio um pouco da delicada e lenta composição de tua alma… Sinto o perfume… Vislumbro matizes… Tudo tão bonito, neste teu lugar azulado!… Sim, saudade é sinal de intenso bem-querer, significa que existe algo de raro e belo em alguma lembrança do vivido, que se eterniza em nós…na mágica da memória!… (Meu pai costuma dizer que é bom sinal sentir saudades: sinal de que amamos!
    Ando meio sumida, pois estou num ritmo intenso de trabalho, sobra pouco tempo para fazer as visitas que gostaria, com tempo, sem pressa… Hoje, aproveito uma fresta azul para passar por aqui, antes da aula da tarde. E quero te avisar que linkei teu blog, para facilitar meus passeios, está bem?
    Um beijo anil, invernal,

    Luisa.

  6. Eu adoro ler cartas. Estava lendo um livro com cartas de Anita Malfatti, será que você já leu?
    beijos

    Cecilia

  7. sinto saudades de tuas luzes por lá, no meu canto esquecido à meia-sombra.
    No mais, o que resta é nostalgia mesmo, cheiro de mar. E lágrimas teimosas e incontidas, levadas pelo vento frio da noite.

    Postei nova poesia, passe por lá qdo puder.
    beijos

  8. Lunna…
    Que post delicioso…
    Cada linha revelando-se através de uma saudade nua. E esse poema?
    Bem, naum encontrei palavras, apenas aplausos. Demais. E olha que quando vi que era uma carta pensei em não ler porque pra mim cartas são escritos direcionados, mas depois pensei, ela publicou, então vamos lá e eu fui.
    Saudades…

    Beijos Poéticos.

  9. ‘Florir – é um Fim – casualmente
    Vendo uma Flor no campo
    Talvez sequer alguém perceba
    A sutil Circunstância (…)’

    lindo!

    e sorrir, lunna?
    dói o silêncio, as vezes maltrata…
    dói.

    a chuva sempre vem…
    a chuca sempre vai…
    e sempre fica algo:
    a secura dela
    e cheiro dela
    de algum modo sentimos
    até mesmo a ausência da chuva.

    estes arbustos que ficam,
    deixam algo que os olhos não podem ver…
    somente a essencia…

    ps.: é sempre bom ter-te por lá,
    ah, vezes vc aparece como brisa forte!

  10. Assim que a Mari disse que tinhas escritos pra mim vim até aqui, não é justo minha bambina. Eu sei que estamos ausente um do outro. Um no outro, mas os tempos estão curtos. Não justifica eu sei. Sinto falta também de chegar em casa e encontrar um envelope seu por lá. Sinto falta de saber o seu dia, mas veio aqui no meio da noite quando os olhos cansam da realidade e pratico essa fuga em ti e sei-te assim. Tão bom saber-te assim. Tão bom saber que as vezes pensa em mim e lê Campos como se fosse eu a ler pra ti.

    Você vai ser sempre a minha bambina, a minha menina curiosa a apontar com o dedo no meio de nós, mais velhos, tolos, insensatos e perguntar sem vergonha alguma “o que é aquilo?” e não se contentar com uma resposta simples e comum. Não se contente nunca, viu? Contentar-se é para os preguiçosos.

    Sabe? Eu me sinto feliz por ter feito parte da tua infância, mesmo que isso signifique ser visto como um velho porque é assim que me sinto as vezes, quando estou cansado. Mas tem alguém aqui a me renovar, reinventar e como você costuma dizer me fazendo ser essa outra coisa fantástica e gostosa. Te amo.

    bacio

  11. Olá Lunna,
    Vc escreve tão lindamente… Algo suave e despretensioso vai nos tomando conta à medida que prolongamos a leitura. Por outro lado, uma leve e breve tristeza também nos domina… Aquela tristeza imbuída de uma dolorosa saudade. Saudade de momentos que jamais voltarão e tb daqueles que, certamente, só vão existir no nosso coração saudosista.

    Parabéns, Lunna! Lindo texto!
    Grande abraço,

    br/>Érica.

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