32 — A casa-alma foi ocupada pelo silêncio

Carissimo O,

O dia vai longe… já é quase hora do almoço do lado de fora dessa janela aberta que sou. E lhe confesso que, eu  mesma, aqui dentro de minha pele: amanheço. Respiro fundo, atravesso a Rua, desejando deter meu passo e deixar essa gente apressada — uma manada humana — me ultrapassar porque não tenho pressa… sou neste momento, como uma xícara de chá.

Não sei se você sabe, mas para se fazer um chá… é preciso introduzir em seu dia uma pequena pausa. É como abrir uma brecha na vida, no tempo e no espaço. Escolhemos as ervas e em seguida é preciso macerá-las entre as mãos com algum cuidado para sentir o aroma com força, impulsionando-o para dentro de si.

Coloca-se no fogo a chaleira e é necessário aguardar… Essa é a minha parte favorita. A que uso… apita quando a água começa a borbulhar.

Enquanto aguardo, escolho a xícara — gosto de uma preta com desenho de elefante, mas às vezes, quero a vermelha. Deixo-a em cima da mesa e vou andar a casa. Meu destino é o mesmo: as prateleiras. Escolho livros — devo ter lhe contado que quem escolhe o que ler são as minhas digitais.

Gosto imenso do som da água quente caindo na xícara… É um som oco-gostoso-melódico. Nova espera… E eu aproveito para escrever no ar; algumas notas mentais. Leio um poema qualquer ou o capítulo de um romance, que combina com o canto do sofá e pequenos goles. 

Quanta espera realizamos durante um dia inteiro? Já pensou nisso? — são tantas pausas necessárias, porque temos essa mania — estranha — de acelerar tudo apenas para dizer em voz alta que nos falta tempo para tudo.

Será que é o contemporâneo que nos demanda coisas demais ou somos nós mesmos que nos descontrolamos diante de todas as coisas? Algumas pessoas parecem equilibristas de pratos, como aquelas cenas tolas de filmes em preto e branco do gordo e o magro que todo mundo ria, menos eu. Cruzava os braços e bufava

Quando criança tudo era tão lento. As horas em sala de aula eram intermináveis e eu vivia  pedindo por agilidade. Mas as voltas dos ponteiros não se deixavam seduzir por minhas vontades e empacavam. Ocupavam-se — lentamente — de todos os segundos… hoje, no entanto, tudo se dissolve. Faz pouco que acordei e os ponteiros já cospem suas onze horas… ou quase! Tudo é para ontem… o hoje é essa sinuca sem tacos ou bolas nas caçapas!

Para onde será que vamos com tanta pressa? A resposta está nas entrelinhas: não vamos porque é impossível traçar um destino nessa velocidade…

Acho que é por isso que toda essa década me parece monótona. Um amigo me disse que falta paixão e eu me lembrei num estalar de dedos de milhares de coisas das quais sinto falta. Não fiz uma lista porque não sou o tipo de pessoa que recorre a esse argumento.  Respirei fundo e fui parar dentro de uma tela de Hopper. Ele sempre me socorre, talvez por falar de algo que me impulsiona: a solidão, que considero necessária e que, no entanto, é tão maltratada hoje em dia.

Ontem, uma autora me chamou para dizer que resolveu fazer terapia. E o motivo? Não sabe ser sozinha. Em espanto, questionei-me silenciosamente: como um autor não sabe ser sozinho? Tenho pra mim que foi a primeira coisa que aprendi em minha vida… adorava os cantos escuros como se fosse um espelho de minha própria alma. A janela fechada. As frestas por onde chegavam pequenas coisas, fragmentos de vidas alheias. O baloiço parado no meio do quintal e o olhar incrédulo das crianças que não entendiam porque eu tinha um brinquedo e não o usava. A rua escura, com luzes a iluminar o caminho, onde apenas o guarda e seu enfadonho apito transitava quanto a noite gritavam suas onze horas. A vidraça em dia de chuva… o outono!

Eu não entendo meu caro, para onde é que foi todo mundo? Você sabe? Olhando ao meu redor, enquanto caminho, só vejo aglomerações e atropelamentos. Os olhares estão tão cheios de nada e os movimentos tão nus de gestos.

Cansaço meu caro, cansaço!

Bebi o último gole de chá, meu caro… vou preparar outra xícara apenas pelo prazer da espera. Acompanha-me?

Publicado por Lunna Guedes

Sou sagitariana... degustadora de café. Figura canina e uma típica observadora de pássaros, paisagens, pessoas e lugares. Paciência é algo que me falta desde a infância. Mas sobra sarcasmos para todas as coisas da vida que fazem mais barulhos que cigarras nos troncos das árvores. Aprecio o silêncio e falas cheias, escreve-se em prosa por apreciar a escrita em linha reta. Tenho fases como a lua... sendo a minguante a minha preferida!

8 comentários em “32 — A casa-alma foi ocupada pelo silêncio

  1. Não compreendo onde foram parar todas aquelas pessoas que – por um segundo ilusório – pareciam estar a um palmo de distância… Mas, uma coisa é certa: eu me sinto um pouco mais próxima de mim cada vez que leio suas palavras.

    Bacio.

  2. Inspirador! Hoje o dia amanheceu chuvoso, acinzentado, propício para tomar uma xícara de chá e pensar nessa velocidade insana que nos tem sido imposta (ou nós mesmos inconscientemente escolhemos?) porém os ponteiros do relógio correm e já é hora do almoço e de ir para o trabalho. Ainda bem que dentro do ônibus lotado consigo olhar a chuva escorrendo pela vidraça e roubar alguns minutos para mim.

    Beijos!

  3. Eu nunca fiz esse ritual para tomar um chá. O que mais me impressionou e gostei foi do momento de macerar as ervas entre as mãos e fazer o seu aroma nos adentrar. Este preparativo é emocionante e confesso que o olfato é o meu sentido preferido.

    Um beijo, Lunna.

  4. Lindo isso!! Amei o “me parece impossível traçar um destino nessa velocidade”. É exatamente essa impressão, muito bem expressa no seu texto, que tenho de nós (as gentes…rs). E falo nós, pois me incluo nessa pressa de não saber pra onde ir.
    Faço um chá quase todas as tardes, mas não pauso o dia, não transformo a pausa em ritual… mas acho que deveria 😉

    Até!

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