33 — São dias de olhar pelo buraco da agulha

Há palavras que têm sombra de árvore
outras que têm fluido de astros
Há vocábulos que têm fogo de raios
E que incendeiam o espaço onde caem
Outros que se congelam na língua
e se estilhaçam ao sair   (…)

Vicente Huidobro

Caro Mio,

Pensei em escrever-te, desde as primeiras horas desse dia. Mas o calor dessa manhã do último domingo de março atrapalhou os meus planos. Um avião cruzou os ares e eu fui com ele… certa de que não cruzaria o Atlântico, mas é para o Continente velho que fui, como uma ave, migrando fora de época. Com o corpo em movimento pelos lugares de nunca e com os olhos detidos ao que é paisagem particular, imaginei os teus passos encaixados aos meus…

Eu gosto de pensar que certos cenários, ainda que tocados por outros, pertencem apenas a nós dois…

Nosso primeiro destino, foi a Casa de chá ‘Jardim da Sereia‘… um dos meus lugares favoritos em Coimbra, para onde eu escapava após as aulas de teorias tantas. Descobri um lugar durante uma caminhada descompromissada. Estava eu a procura de pouso e uma casa de chá em formato de capela atraiu meu olhar.

E a caminho de lá… os meus olhos enroscavam-se em uma dessas vitrines bem-feitas. Uma pequena loja com sua janela de vidro a exibir seu interior: um punhado de prateleiras de madeiras, com roupas exclusivas, bem dobradas e empilhadas numa sequência de tons. Uma máquina de costura Singer antiga, com móvel de madeira bem preservado chamou a minha atenção, tanto quanto os vários cones de fios coloridos. Um curioso cenário, que me remeteu a um livro-lido em um desses ontens.

Estava fechada, por ser domingo. Mas a placa de ferro, presa por correntes no alto, dizendo o nome do lugar — atelier das marias — me desorientou e me fez voltar no tempo…  indo de encontro ao vai-e-vem de um balanço… que plantaram no quintal de minha infância!

Eu nunca gostei de brincar nele, meu caro… Gostava imenso de ouvir o som — dentro da noite — do movimento de suas correntes, impulsionando o brinquedo em movimentos levemente circulares… me remetia a um conto escrito por Edgar Allan Poe. Eu fechava os olhos e imaginava meu corpo indo e vindo — na condição de fantasma da história. Sentia a carícia peculiar do vento na pele esbranquiçada. Nas mãos, a textura das correntes e nos olhos a imensidão de um céu e suas muitas estrelas, impossíveis de contar… e imaginava os olhares-outros a espiar a cena, benzendo-se em busca de proteção.

O brinquedo em si, nunca me causou grande emoção… Mas era um desejo meu; tê-lo no jardim. Lembro-me do dia em que dois homens vieram para medir o espaço necessário, fazer os cálculos, os furos no chão, a montagem e pronto: eu tinha um balanço… No primeiro dia foi uma alegria… meu corpo foi aos ares, impulsionado pela força do ‘meu gigante’, que não se cansava de ouvir a minha risada. Eu conseguia enxergar por cima do muro, dos telhados das casas. E, quando ia bem alto, enxergava um pedaço do mar. Pensava comigo: “quem zomba de quem agora, dona gaivotas?”

Mas, na manhã seguinte, já não tinha mais qualquer interesse por aquele brinquedo-bobo, ao contrário das crianças da minha rua… que se espremiam na fresta do portão, imaginando um meio transpor o obstáculo, que era o portão de ferro e um muro alto com arbustos repletos de espinhos. O medo, no entanto, era um obstáculo muito maior…

Sou trazida de volta, atraída que sou pelo chacoalhar das orelhas de nossa Jane dog… mas uma parte de mim, fica pelo caminho e me faz pensar no brinquedo da minha infância: como estará o velho brinquedo plantado em nosso antigo quintal? Na última vez, estava todo enroscado… e eu o libertei. Reparei que o acento de madeira estava frágil e fui alertada para não me sentar ali. E eu apenas sorri…

Ao olhar para a mesa, o computador, o livro de Ana Luísa Amaral e os que publicamos nesse mês de março que ruma para o seu fim… penso nas muitas viagens que fiz nesses quarenta anos. Fui a tantos lugares. Marquei vários pontos em meu mapa particular de vivências. Gostei de ir… mas, as que faço daqui, são as melhores.

Au revoir,  mon ami…

Mariana GouveiaObdulio Nuñes Ortega

Publicado por Lunna

É sagitariana... degustadora de café. Figura canina e uma típica observadora de pássaros. Paciência lhe falta desde a infância. Mas sobra-lhe sarcasmos para todas as coisas da vida que fazem mais barulhos que cigarras nos troncos das árvores. Aprecia o silêncio e falas cheias. As que se repetem com facilidade de boca em boca despreza... Lacaniana por opção.... E completamente apaixonada por mulheres que usam a escrita como uma navalha afiada que corta enquanto é carne. Escreve à noite e reescreve pelas manhãs. Gosta de calçadas e corujas. Anda sozinha ou acompanhada, tudo depende da fase... minguante é a sua preferida!

13 comentários em “33 — São dias de olhar pelo buraco da agulha

  1. Também tive meu balanço, preso a uma trave no galpão de casa. Mas ao contrário do teu, o meu era mudo. Quando da instalação, acredito que correntes nem foram cogitadas. As cordas surtiam o mesmo efeito, e eram mais de acordo com o que podia ser gasto. Mas isso é apenas uma lembrança, há léguas de tempo. O que me prendeu mesmo foi o titulo. Quantas magias não imaginei olhando por um buraco de agulha? Tento novamente, ou continuo pensando que elas se foram com a infância?

  2. Viajei no tempo através de seu texto/lembrança.
    Eu também tive um balanço no quintal de casa. Belo texto cara mia! Belo texto!

  3. Acabei por me lembrar que no Parque Infantil, mesmo quando algum balanço quebrava o assento, a correntes serviam de cipó e eu me tornava o Tarzan, pelo qual tinha total fascinação. O balanço brinca com a gravidade e acho que é atraente por diversos outros motivos. Um deles é a confiança em quem nos impulsiona, quando pequenos.

Pronto para o diálogo? Eu estou (sempre)

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