34 — Quando a ausência de mim é presença em você

Cara F.,

Devo ter lhe dito que sou péssima com datas — não há viva alma que me conheça que não saiba desse fato. Sou uma criatura pontual para encontros e cafés, almoços e jantares que eu mesma preparo. Tenho rituais para receber amigos e manias que habitam os meus gestos.

Mas sou péssima com as comemorações e suas datas apontadas por um calendário com o qual não me entendo. Quando criança, era controlada pelos ponteiros de dois adultos que diziam-me as horas de acordar-dormir-almoçar-ir-para-a-escola. A donna C., era mais severa com o horário de se recolher, considerava que eu precisava de sono para um crescimento saudável. Meu corpo discordava e o mio babo entendia. Várias noites na companhia um do outro, contando as horas no velho carrilhão, um personagem da minha meninice.

Lembro-me que certa vez, eu olhei para cima e lá estava o calendário com os dias em negrito, e um círculo em vermelho em uma das datas. C., sorriu e me alertou: estava aberta a temporada das aulas. Algo inédito em minha realidade. Cruzei os braços e fiquei por lá… a espiar o círculo feito no dia quatorze. Imaginei o gesto e o sentimento.  Respirei fundo um sem-fim de vezes e deixei cair os meus ombros. Pela primeira vez… previ um futuro nebuloso. Espiei as linhas da palma da minha mão e me lembrei de alguém dizendo seus significados: do coração, da cabeça e da vida. Não vi correspondência futura. Talvez por ser algo inexistente…

Outras datas vieram… algumas foram anotadas na agenda: reuniões, inícios e términos, entregas — coisas pequenas. Certo mesmo era a contagem que eu pretendia alcançar e disso dependia o meu ponto de partida, que eu nunca encarei como uma data a ser circulada em um calendário preso atrás da porta.

Os riscos que faço no único calendário que tenho para uso próprio — o da minha agenda, é coisa passada. Vou lá e faço dois riscos em cima dos dias que se foram… numa espécie de soma, como se precisasse disso para ter certeza de que é coisa passada, mais um ontem colecionável.

No mais, não sei muito. Sei, contudo, que ontem foi o seu dia — o seu ponto de partida. Um número que agora é seu no universo dos livros que costuro. Toda vez que passar por ali, saber-te-ei. Não como uma data, mas com a alegria de um livro que foi feito para você… impresso-dobrado-prensado-furado-e-costurado, dentro de uma dessas horas, que cantam por aí, ressoando carrilhões antigos, presos à parede de minha memória.

Bacio en tuo cuore

Publicado por Lunna

É sagitariana... degustadora de café. Figura canina e uma típica observadora de pássaros. Paciência lhe falta desde a infância. Mas sobra-lhe sarcasmos para todas as coisas da vida que fazem mais barulhos que cigarras nos troncos das árvores. Aprecia o silêncio e falas cheias. As que se repetem com facilidade de boca em boca despreza... Lacaniana por opção.... E completamente apaixonada por mulheres que usam a escrita como uma navalha afiada que corta enquanto é carne. Escreve à noite e reescreve pelas manhãs. Gosta de calçadas e corujas. Anda sozinha ou acompanhada, tudo depende da fase... minguante é a sua preferida!

Um comentário em “34 — Quando a ausência de mim é presença em você

  1. eu vim para comentar e fiquei suspirando… deve ser a lua, deve ser insônia. Nessa hora, era para eu estar dormindo.

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