…o mais cruel dos meses

Pensei em vasculhar abril-passados… preparei uma xícara de chá e comecei a navegar lugares-meus e o verso do poeta de Eliot acenou: abril é o mais cruel dos meses. Desviei o olhar para a prateleira, alcançando o livro — o último comprado num sair descompromissado pelas ruas, indo em direção a livraria. Páginas intactas — nuas de riscos-marcas-rasuras.

Penso em desfazer as pilhas acumuladas na mesa, ao lado da cama… desde a infância que recorro aos livros, esparramando-os pelos cantos da casa, deixando-os ao alcance das mãos. Não sei escrever sem folhear páginas nos intervalos dos meus experimentos. Mas em algum momento preciso devolvê-los aos seus lugares…

Hoje quero ancorar o meu corpo em algum porto; um abril seguro. Respiro fundo.. vasculho a memória e nada. Busco por meus escritos… se não escrevo, inexisto. Preciso da palavra marcando a folha para ser real. A minha realidade depende desse rastro.

Ancoro em um texto escrito em 11 de abril de 2020 — que foi entregue ao diário das 4 estações — e recordo a casa da minha infância; o lugar que acompanhou o meu crescimento. Percorro os cômodos todos e paro diante do velho carrilhão com o seu som potente, que me ensinou a pulsar.

Levo um gole de chá à boca e as emoções se equilibram… tento imaginar como está a velha casa. Mas, o meu imaginário não oferece resposta. Talvez o lugar inexista. Tenha sido demolido e tudo que resta é essa espécie de retrato preservado nas paredes do meu corpo. Revejo-me… sentada nos degraus de tijolo de construção, a tagarelar futuros. Passo pela cozinha e provo do queimado no canto da mesa — alguém esqueceu uma panela quente, marcando a madeira. Atravesso o corredor de piso vermelho com suas ranhuras, que eu gostava de comparar com as rugas do rosto do mio nonno.

Outro gole de chá… e eu busco por outro abril. Outro texto acena e fala do silêncio das ruas, das janelas e da nossa impotência diante de um vírus que nos fez refém das paredes da casa-corpo. Ao ler o texto… percebo que me perdi da linha do tempo. O ontem se afastou de mim. Está tudo em desordem…

Xícara vazia… e o melhor a fazer é arrumar a prateleira, tirar a poeira dos livros e pousar em alguma página sincera…


E vamos de beda…
Alê HelgaDarlene ReginaMariana GouveiaMãe LiteraturaObdulio Nuñes Ortega


Publicado por Lunna Guedes

Sou sagitariana... degustadora de café. Figura canina e uma típica observadora de pássaros, paisagens, pessoas e lugares. Paciência é algo que me falta desde a infância. Mas sobra sarcasmos para todas as coisas da vida que fazem mais barulhos que cigarras nos troncos das árvores. Aprecio o silêncio e falas cheias, escreve-se em prosa por apreciar a escrita em linha reta. Tenho fases como a lua... sendo a minguante a minha preferida!

18 comentários em “…o mais cruel dos meses

  1. Assim como Catarina, eu também gosto das mesas de canto, ao fundo, por poder observar a tudo em torno. Algum resquício de uma encarnação felina, quiçá. Já o meu abril vai passar sem lilases, mas já mostrou a rica paleta dos tons das folhas que vão caindo. Serão elas capazes de me soterrar? Será mesmo Abril, assim cruel?

  2. Que venha abril e vamos lá folhear os dias, as memórias, tudo que a gente tem direito.
    Belo post Catarina.

  3. Eu comecei a ler o senhor Eliot por sua causa e juro que, às vezes, me pergunto aqui comigo porque certos poetas tem essa mania de denominar os dias, os meses. O seu Mário de Andrade citou abril em algma de suas poesais. Emily Dickinson falava de novembro que para ela era os dias de ouro. Alguns poetas falam de dezembro. Acho curioso.
    Que abril seja cruel porque de coisas amenas eu anda cansada. Vamos aterrorizar abril.

    beijokas

    1. Os poetas assim como nós tem suas referências particulares. Inspiram-se com os dias, as estações e as fases da lua. Emily gostava do que ela chamava de midsummer, por isso os grãos de ouro.

      bacio

  4. Toda vez que você fala em Eliot eu lembro do seu Old Possum’s Book of Practical Cats. Já virou mania, eu associar o seu blog com o livro e com o musical. Vá lá saber por que. Mas é automático e sempre me vêm as músicas também, principalmente “Bustopher Jones” e “Old Deuteronomy”. Releve, fico cada vez mais velho e cheio de manias. Em tempo: gosto das cores de abril. Me parecem um divisor de águas, como se ali o ano começasse. Mais manias. Abraço.

  5. Eu fiquei com uma sensação bastante estranha ao ler-te, Catarina. Parecia que eu já sabia este seu texto. Como se eu o tivesse visto sendo escrito. Uma maravilha esse sentimento de pertencimento. Quando as palavras parecem nossas, brotam de nós.

  6. Eu comprei um livro de Eliot por causa de seus escritos que sempre o citam e não é que me encantei com o estilo do homem. Mas, fiquei curiosa para ver a nova edição (nua) e a antiga (toda rabiscada) deveria postar uma foto lá no seu ig.

    Beijos!

      1. Qual o teu poema favorito dele? Não deve ser The wast land. É lindo. Mas você citou em lua de papel o Burnt Norton, que é lindo. Mas eu fico tentada a acreditar que não é nenhum desses.

        bisous

      2. Pergunta difícil cara mia…

        Eu gosto de vários poemas dele, e nem sei se tenho um favorito.
        Para essa manhã cinza, com pássaros a cantarolar pela paisagem, gosto imenso desse

        Manhã à janela
        Tradução de Ivan Junqueira

        Há um tinir de louças de café
        Nas cozinhas que os porões abrigam,
        E ao longo das bordas pisoteadas da rua
        Penso nas almas úmidas das domésticas
        Brotando melancólicas nos portões das áreas de serviço.
        As ondas castanhas da neblina me arremessam
        Retorcidas faces do fundo da rua,
        E arrancam de uma passante com saias enlameadas
        Um sorriso sem destino que no ar vacila
        E se dissipa rente ao nível dos telhados.

  7. Oi Lunna!!! Abril com B.E.D.A é sinônimo de rever velhos amigos, de refazer o estoques de chás, do bolo no forno, da mesa posta a espera de uma conversa gostosa…
    Seu texto me trouxe uma certa nostalgia, e enquanto lia, também me perguntei o que foi feita da minha casa de infância, dos vizinhos…
    Também lembrei que saio daqui sempre com vontade de conhecer Eliot mas, até hoje, nunca li nadinha…
    Beijos e até amanhã

  8. Só você para me levar pela mão e aceitar o desafio de beda…. lendo-te eu me perco entre os suspiros e as xícaras de chá. Vou me atrever ao capuccino… aceita?

  9. Que venha abril, e mais um BEDA que pretendo conseguir concluir entre as loucuras da minha própria procrastinação e indecisão.

    Estava com sinceras saudades de ler teus textos, ando desligada das leituras do blog, tantas horas estudando pra concursos que me entediam…

    Abraços ❤

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