35 — Não há outra verdade que se possa contar

Não perdi o hábito de escrever diários

Para M.,

Escrevo-te na primeira hora deste domingo-primeiro de abril… Tive um sonho agradável na noite que passou e acordei com vontade de sentir o chão debaixo dos meus pés. Nunca fui de andar descalça, como você. Incomoda-me sujar os pés. Mas, essa vontade floresceu em mim…

Tem acontecido com certa frequência… vontade de água fria no rosto, latas com quadradinho de bolo ou biscoitos de nata. E reparei que tenho sentido falta de algumas coisas; dos nossos diálogos insanos, que durante algum tempo ecoaram em mim. 

Você chegava com sua forma peculiar de estabelecer contato e me chamava de “senhora”. O tom que usava era melindroso, típico de alguém que gosta de pautar a realidade a partir de suas ironias particulares. Ainda ouço o som da sua gargalhada explodindo no ar.

O que provou esse diálogo solitário… foi uma missiva que os Correios devolveram, acusando erro de remetente. E como eu não acredito no acaso… a guardei para um dia seguinte qualquer e pronto… 

Eu revirava o meu baú  na tarde de ontem. Procurava por uma coisa e acabei por encontrar outra: você… Fazia tempo que não pensava em sua figura, que vez ou outra, insurge em minha realidade; feito um vento indócil… batendo portas, fazendo voar cortinas, papéis… 

Mas eu sei das muitas coisas que você não disse. Foi através dos seus silêncios que fiz de você uma figura minha… uma personagem que emerge do meu passado. Eu demorei para compreender o seu lugar, as suas falas… ações e reações. 

Algumas coisas suas, me intrigaram…
Fiquei algum tempo sem saber onde ancorar os meus navios.
Durante muito tempo, você foi apenas uma página em branco… onde deixava palavras pela metade. Frases soltas — inacabadas e sem sentido possível. Vogais e consoantes em desarranjo pela manhã, no meio da tarde, começo de noite-madrugada adentro… 

Eu não conseguia desmistificá-la. 

Eu bebia um pesado gole de chá quando o meu olhar — feito um diafragma — captou a sua figura. Percebi a fragilidade que tentava esconder. Cerrava o punho quando a dor era insuportável e inventava fugas. O cigarro era um aliado. E as palavras que soltava no ar, eram como as pesadas baforadas que deixava a sua boca… 

Reparei que quando saía da toca, era outra, uma persona inventada para quem se aproximava. Uma espécie de camaleão… um ser em metamorfose completa, com o personagem de Kafka. 

É um talento e tanto, admito! Reconhecer o que o outro vê e se oferecer a esse molde-temporário. Penso que somos parecidas! Eu me misturo aos meus personagens, de tal maneira que, ao regressar deles, levo algum tempo para me reorganizar. 

Mas, na condição de cigana que finge ser, precisava de respostas e como não traço mapas, não sabia onde fincar o seu alfinete. Me diverti com as suas buscas. Sua tentativa de adivinhar-me. Parecia estar à espera de minhas mãos abertas para ler cada uma de minhas linhas. Eu tentei alertá-la… não me importo com o que os outros veem em mim. Você forjou um riso falso nos lábios e recorreu ao cigarro mais uma vez. 

Ao voltar, exibiu-se inteira-plena — uma Lua cheia. Por um minuto ou dois… foi a Senhora de si, num jogo em que pensava conhecer as regras. 

Tudo isso acariciou o meu imaginário… e eu experimentei uma curiosa sensação. Como se a conhecesse de outros lugares-corpos-tempo. Alguém que vai e volta de minha vida-realidade. Por enquanto ainda não voltou, mas em algum momento isso irá acontecer. É impossível para pessoas como nós, escapar das artimanhas da realidade.

Au revoir. 


b.e.d.a — blog every day august — um desafio que surgiu para agitar os dias
de abril e agosto nos blogues e comemorar o Blog Day.


Alê HelgaDarlene Regina Mariana Gouveia
Mãe LiteraturaObdulio Nuñes Ortega

Publicado por Lunna

É sagitariana... degustadora de café. Figura canina e uma típica observadora de pássaros. Paciência lhe falta desde a infância. Mas sobra-lhe sarcasmos para todas as coisas da vida que fazem mais barulhos que cigarras nos troncos das árvores. Aprecia o silêncio e falas cheias. As que se repetem com facilidade de boca em boca despreza... Lacaniana por opção.... E completamente apaixonada por mulheres que usam a escrita como uma navalha afiada que corta enquanto é carne. Escreve à noite e reescreve pelas manhãs. Gosta de calçadas e corujas. Anda sozinha ou acompanhada, tudo depende da fase... minguante é a sua preferida!

4 comentários em “35 — Não há outra verdade que se possa contar

  1. Uau, que missiva foi essa, menina Catarina?
    Fiquei tão pequenina ao ler-te

    Já estou imaginando esse reecontro
    bacio

  2. Ah pronto, queria ser uma mosca para apreciar criador e criatura quando acontecer.
    Lembro-me de outra que foi revoltosa e atravessou a rua. Agora não me lembro onde foi que eu li. Se aqui ou em um de seus diários. Mas eu ameeeeeeeeeeeeei

    bisous

Pronto para o diálogo? Eu estou (sempre)

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