em pequenos goles

Preparei uma xícara de chá e fui me sentar na varanda… para espiar os prédios e suas janelas, a rua sem movimento e algumas falas avulsas, soltas na imensidão do ar. Será um dia quente — disse em voz alta… e ouvi o celular espocar o som de alerta de mensagens. Era um e-mail de Z., com sua escrita aquecida. Imaginei quanto tempo levou para tecer aquelas linhas todas… Ele é o tipo de pessoa que escreve, lê, reescreve e lê — rituais que eu gosto de apreciar e praticar…

Ele começou nos dando os parabéns… citou o ano de 2012 — que era para ser o último… e foi para muitos. Mas, não para nós dois, que nos encontramos pelos caminhos da cidade e virou o nosso Ano 01…

Eu levei um tremendo susto com a notícia… Não me lembrava da data: dia e mês, apenas do momento da nossa colisão e do lugar e ele falou a respeito… da minha dificuldade com o tempo e a precisão dele — que se lembra das importantes, das insignificantes e das que gostaria de esquecer.

Ele recordou nosso encontro na Livraria da Vila — uma lembrança que sorriu lá do passado ao ser pontuada por impressões-outras… que eu desconhecia e gostei imenso de sabê-las em frases tão bem pontuadas. Aqueceu o cuore na primeira hora desse dia que já se anuncia aquecido.

Não havíamos falado a respeito disso ainda… avançamos pelos anos em diálogos aleatórios. Somos dois correspondentes que vez ou outra se esbarram pelos caminhos da cidade. Frequentamos os mesmos lugares em busca de café ou de um bule de chá. Amamos músicas, livros, viagens, filmes e um bom papo — sem hora marcada… deixado sempre a cargo da casualidade.

Meu olhar observava os movimentos de passos e falas em busca de frases naquele dia… quando Z passou pela porta de vidro, acenando às meninas do café — denunciando ser pessoa conhecida por ali. Eu já o tinha visto antes.

Mas não conseguia localizá-lo em meu mapa de vivências. Vi quando ele pediu um expresso e se aproximou do balcão, inclinando o corpo para dentro — como um menino inconsequente. E ao virar-se, me viu e sorriu — fomos manequins em vitrines um para o outro.

Tudo muito rápido-breve. Eu lhe entreguei um aceno miúdo que fez existir um sorriso branco-enorme, como todos os gestos dele costumam ser. Nada é pequeno ou raso em seu corpanzil. É sempre inteiro-imenso. Ele acenou, certo de que eu o tinha reconhecido — mas estava enganado… E até hoje se diverte com isso — fazia tempo que eu não era um estranho para alguém.

Vi quando ele recebeu uma xícara de café, abocanhou o biscoito de gengibre e tomou um gole do precioso líquido escuro, combinando aromas. E eu voltei aos meus conflitos ficcionais — desenhando-o enquanto personagem de uma crônica que comecei a escrever a partir do título que se precipitou — “são as regras da casa” me referindo ao corpo de homem em seu quase meio século de vida…

A escrita-pensamento acabou interrompida pela presença dele, que emergiu poderoso às minhas costas, com os olhos pregados à tela. Abusado… ele lia o que eu escrevia e se divertia ao se reconhecer — personagem — naquelas linhas, em pares… como se observasse um templo cristão com torre e sino.

Num lance de olhar envenenado-contrariado, percorri toda a estrutura humana dele e, como se fossemos antigos-amigos, simplesmente se convidou à cadeira vazia… Acomodou-se, ignorando o meu desconforto… abandonando o seu molesquine vermelho na mesa. Li rapidamente o nome dele — escrito num pedaço de fita crepe grudado na capa — composto por quatro letras: duas consoantes e duas vogais… 

Tenho uma consoante a mais que você! — ele achou graça e, de repente, estávamos os dois sorrindo juntos… E eu passei a questionar a realidade por trás daquela cena — típica de um filme do Woody. O ouvi comentar a respeito da modernidade e várias outras idéias soltas. De repente, como quem escreve no ar, emendou uma frase na outra e passou a falar de seu fascínio pela Cultura Pop. Ele parecia ter muita coisa para dizer-escrever-tomar-nota… Tinha acabado de ver o novo filme do Allen — alô, realidade? — e se disse pronto para escrever sobre Emma Stone. Mas, ainda não tinha ido à Bienal, para a qual não estava preparado… e fez questão de dizer — em voz alta-rouca — que estava a ouvir uma nova banda no repeat, considerada — por ele — a mais perfeita evolução do Belle & Sebastian.

E quando dei por mim, eram mais de oito horas e tínhamos dado uma volta completa ao redor do sol-mundo-vida. Ele se levantou para ir embora e anunciou que iria escrever a meu respeito, aproveitando o tema que o transformou em personagem. Antes de ir, sugeriu que eu terminasse a minha crônica falando de uma amizade instântanea, feita em pequenos goles.

E cá estamos nós… a bordo do nosso futuro não planejado!
Soma-se um mais um e temos uma década inteira…


b.e.d.a — blog every day august — um desafio que surgiu para agitar os dias
de abril e agosto nos blogues e comemorar o Blog Day

Alê HelgaDarlene ReginaMariana Gouveia
Mãe LiteraturaObdulio Nuñes Ortega

Publicado por Lunna Guedes

Sou sagitariana... degustadora de café. Figura canina e uma típica observadora de pássaros, paisagens, pessoas e lugares. Paciência é algo que me falta desde a infância. Mas sobra sarcasmos para todas as coisas da vida que fazem mais barulhos que cigarras nos troncos das árvores. Aprecio o silêncio e falas cheias, escreve-se em prosa por apreciar a escrita em linha reta. Tenho fases como a lua... sendo a minguante a minha preferida!

10 comentários em “em pequenos goles

  1. Ah, que delícia. Eu já tive amigos assim também.
    Um eu conheci na minha juventude, tinha uns quinze ou dezesseis e estamos juntos até hoje. Uma linda e verdadeira amizade. Mas tenho alguns amigos que já se foram e que fazem muita falta.

    Adorei o seu texto, menina Catarina.
    E fiquei curiosa por ler a crônica a moda da casa.
    bjinhos

  2. Morri de inveja de Z e queria estar com vocês nesse café.
    Faz tempo que eu me pergunto quem ele e aí você vem com essa dica: quatro letras, duas vogais e duas consoantes. Não curti.

    Bjinhos caríssima…. e parabéns aos dois por essa década inteira.
    Que venha outras e mais textos.

  3. Ola, minha querida.
    Sabia que tinha um motivo especial para eu me lembrar de você hoje. Pensei em você o dia todo e ao chegar a casa, corri para ler-te e leio esse belo texto. Descubro que celebras uma amizade e fico feliz, por você, seu amigo e por mim, que sinto-me parte de sua vida.

    baci

  4. E enfim, o mais cruel dos meses tem uma data especial para a Catarina e seu amigo Z. Uma década inteira. Grandioso isso. Gostei.

    beijoknhas

  5. eu ia escrever aqui igual a música da Blitz: desce dois… desce mais…
    mia uma xícara?
    eu leio tudo como se fosse para mim…

Pronto para o diálogo? Eu estou (sempre)

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