6 on 6  |  Arte de rua…

6 on 6

Gosto imenso de sair para as ruas, com o passo solto e o olhar atento para ver o que me atinge — feito um raio. Uma das primeiras andanças das quais tenho lembranças vem lá da infância… andávamos pelos arredores do bairro em que moravámos e ao atravessarmos uma das muitas ruas estreitas da cidade, com sobrados dos dois lados, olhei para o alto e vi roupas — de todos os tipos, tamanhos e cores — estendidas em fios que iam de uma casa a outra. Era impossível para mim, saber a qual casa-família-pessoa pertenciam aquelas peças.

Passei por lá inúmeras vezes… sempre a caminho de algum lugar e, algumas vezes, o fiz apenas pelo prazer de tentar decifrar a quem pertenciam aquelas blusas-calças-ceroulas-toalhas. Voltei a ver aquela cena em um filme feito por um cineasta francês e compreendi que aquilo era uma Arte.

Nunca tive vocação para impor rótulos… isso é, aquilo não é. Na qualidade de leitora, compreendo que nem tudo é para nós e pode ser ou estar ali para o outro que não eu.

Ao sair pelas ruas, só preciso estar atenta e disponível para o que a cidade me ofecere em seus labirintos particulares…

1 – Sai da Starbucks há alguns anos e decidi ir para casa a pé… passada das oito horas noturnas e as ruas ainda estavam cheias. Fui dobrando esquinas e, de repente, estava diante desse cenário que é parte de uma das construções mais incríveis dessa cidade. Durante anos ficou abandonada e hoje está sendo resgatada por um banco.

2 – Toda vez que descia na Estação Sumaré, da linha verde do metrô… alguns dos meus minutos de vidas eu deixava ali, nos painéis da plataforma. É uma obra de Alex Flemming e Luiz Carlos Martinho da Silva, mais conhecido como Caíto.

O artista utilizou duas série de 22 imagens, colocadas enfileiradas nas plataformas e ordenadas, uma no sentido inverso da outra, com 22 poemas, um para cada imagem. São retratos anônimos de tipos raciais diferentes, brancos, pretos e asiáticos, fotografados frontalmente como nos passaportes, nas carteiras de identidade, ampliados e gravados sobre vidros”.

3 – Toda vez que desço na Estação Anhagabaú (linha vermelha do metrô) e caminho rumo ao Teatro Municipal me deparo com um sem-fim de pessoas a fazer escambo nas calçadas. Na frente do Teatro, acontece todo tipo de atividade… estátuas humanas, pastores em busca de fiéis carentes para o seu rebanho, músicos com suas caixas de sons e esse rapaz com suas lâminas e latas de spray. Aheio ao movimento ao redor, ele cria mundos-universos-realidades.

4 – Subindo a Consolação… rumo a Paulista, esbarro em vários prédios que viraram telas a céu aberto, graças aos grafiteiros. Esse é um dos meus favoritos… é uma espécie de retrato meu.

5 – Conheci o Mirante durante uma visita ao Masp… e fiquei satisfeita quando soube da “ocupação” do lugar — em estado de abandono por anos — para um projeto sócio-cultural. Recuperado, o lugar passou a ser um dos points favoritos da cidade, com shows e exposições. Uma delas foi de um fotógrafo pernambucano Thiago Santos, que convida pessoas — conhecidas e anônimas — a pousar para a sua câmera, a partir da premissa: olha pra mim.

“Eu crio essa galeria de arte com retratos preto e branco, colocando todo mundo nesse mesmo parâmetro de igualdade, sem fazer distinção de cor, credo, religião, sexo, orientação sexual. Coloco todo mundo nesse mosaico fazendo com que todo mundo se sinta igual, nessa linha cronológica do olhar”, Thiago Santos.

6 – Caminhando pelas ruas do Centro velho paulistano, fui surpreendida certa vez por uma pichação no prédio do Páteo do Collégio que é um marco histórico de São Paulo porque foi bem ali que tudo começou. A frase riscada era um protesto, mas foi chamado de vandalismo pela imprensa e pelos gestores da cidade. A fachada foi limpa rapidamente e as reformas continuaram… os autores foram detidos, mas as letras em vermelhas, mesmo cobertas, ainda estão por lá, como uma espécie de pedido, intervenção — que não vem.

Darlene Regina – Isabele Brum – Mariana Gouveia – Obdulio Nunes Ortega – Roseli Pedroso

Publicado por Lunna

É sagitariana... degustadora de café. Figura canina e uma típica observadora de pássaros. Paciência lhe falta desde a infância. Mas sobra-lhe sarcasmos para todas as coisas da vida que fazem mais barulhos que cigarras nos troncos das árvores. Aprecia o silêncio e falas cheias. As que se repetem com facilidade de boca em boca despreza... Lacaniana por opção.... E completamente apaixonada por mulheres que usam a escrita como uma navalha afiada que corta enquanto é carne. Escreve à noite e reescreve pelas manhãs. Gosta de calçadas e corujas. Anda sozinha ou acompanhada, tudo depende da fase... minguante é a sua preferida!

6 comentários em “6 on 6  |  Arte de rua…

  1. Eu gostei de todas as fotos, Lu, mas a última foi chocante.
    Eu sei que não se deve “sujar” um prédio público mas, às vezes, é a única lousa a céu aberto possível, principalmente em uma cidade tão barulhenta quanto São Paulo, onde se grita e ninguém ouve.

    bisous

  2. Não conheço a cidade de São Paulo, mas está na minha lista de lugares a visitar por sua causa. rs
    Adorei as fotos 2 e 5. Eu estive em um metrô em Istambul que eu achei delirante o lugar. Fiquei um tempão lá, observando o que fizeram. Incrível e esse artista da estação que você fotografou, eu já tinha ouvido falar.

    bj

  3. viajei contigo por esse cenários… está anotado no diário uma antecipação de futuro…vamos repetir.

Pronto para o diálogo? Eu estou (sempre)

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