36 — E lá se foi a minha hipótese de paz…

Cara mia,

Adormeci com o livro de Borges — o outro, o mesmo — em mãos… e, não sei se sonhei com as ruas de paralelepípedos do velho bairro portenho e suas avenidas Santa Fé, Córdoba, Scalabrini Ortiz, que misturam aromas, cores e sabores… ou se migrei — como fazem os pássaros — para lá, tendo a poesia de Borges como fio condutor: “as ruas de Buenos Aires já são minhas entranhas. Não as ávidas ruas, incômodas de gente e de bulício, mas as ruas indolentes do bairro, quase invisíveis de tão usuais, enternecidas de penumbra e de ocaso e aquelas mais ao longe carentes de árvores piedosas”

Gosto imenso de me aventurar pelas cidades que os senhores das letras narram em suas linhas. A Paris de Baudelaire. A Paulicéia de Mário. A Lisboa de Pessoa e a Barcelona de Zafon…

Estive na cidade de Gaudí algum tempo depois de ler o jogo do anjo e a sombra do vento. E ao caminhar ruas, encontrei apenas a Barcelona comum dos viajantes, que não guarda um único traço da narrativa do escritor catalão. Zafon não foi fiel aos contornos urbanos. Usou um cenário ideal… oriundo de seu olhar atento e de suas emoções mais sinceras.

Eu posso imaginá-lo — menino — a transitar pelas ruas escuras e sombrias de sua cidade, com a mãe a controlar os seus passos, enquanto os olhos vasculhavam cada escultura, prédio, praça e esquina… guardando apenas o que interessa.

Foi um aprendizado perceber todas essas invencionices… Percebi que não tinha que sair por aí, a procurar por uma cidade: poderia apenas inventar uma. Só precisava senti-la em mim… como fez Gabriel Garcia Márquez — em cem anos de solidão — que inventou Macondo. Borges fez o mesmo em o Aleph. Mário desenhou sua Paulicéia desvairada e Baudelaire os splenn de Paris.

Todas essas cidades são inexistentes, porque compreendem o metro quadrado de um olhar… como a minha Teodoro que inventei, ao perceber — depois de visitar cidades do interior paulista. Voltei para casa com a bagagem cheia, mas nada servia para a menina que sonha viver em São Paulo. Demorei a compreender a impossibilidade dos lugares. Eu estive em restaurantes típicos, pontos turisticos vários. Conheci cenários lindos e paisagens incríveis. Mas não era por isso que eu buscava.

Mas eu levei um susto ao dizer em voz alta: vou inventar uma cidade… Misturei um pouco de tudo; inclusive os cenários antigos que trago em mim.

Mas eu considero um disparate todas essas invenções… porque expõe, de maneira severa, a nossa incapacidade de perceber o que chega aos olhos. Eu sei que ver não é a mesma coisa que enxergar. São dois verbos de difícil conjugação… E a nossa limitação visual torna impossível transitar as ruas de Borges, ou sorver os estranhamentos de Baudelaire…

E eu percebi, cara mia… ao ver suas fotografias de Cartagena que um lugar só se transforma em cidade, quando faço dela um cenário para a minha escrita, em narrativas agudas e lineares. Por isso, depois de alguns dias a transitar por Avenidas e Ruas, escolho um canto para escrever uma missiva, Preciso narrar o que vejo, desenhar minhas emoções… quando estive em Cartagena, escrevi à Mariana, debaixo de uma sombra e de uma luz alaranjada que me fez atravessar o oceano…

Mas, uma coisa me causou espanto naquele fim de tarde, sentada em uma mesa de frente para uma praça… ver as pessoas, diante de prédios e placas, a fotografar a si mesmas. Gastavam mais tempo a capturar o lugar com seus modernos tele-móveis, que a sorver a realidade, metamorfoseando-se ao cenário e sua história. Tudo tão frio, vazio e insignificante: uma vitrine… a exibir os modelos da estação.

Bebi um último gole de café e voltei para as páginas de Borges, no entanto, não sei de fato em que lugar estou agora.

Hasta luego!

b.e.d.a — blog every day august — um desafio que surgiu para agitar os dias
de abril e agosto nos blogues e comemorar o Blog Day

Alê HelgaDarlene Regina Mariana Gouveia
Mãe LiteraturaObdulio Nuñes Ortega

Publicado por Lunna

É sagitariana... degustadora de café. Figura canina e uma típica observadora de pássaros. Paciência lhe falta desde a infância. Mas sobra-lhe sarcasmos para todas as coisas da vida que fazem mais barulhos que cigarras nos troncos das árvores. Aprecia o silêncio e falas cheias. As que se repetem com facilidade de boca em boca despreza... Lacaniana por opção.... E completamente apaixonada por mulheres que usam a escrita como uma navalha afiada que corta enquanto é carne. Escreve à noite e reescreve pelas manhãs. Gosta de calçadas e corujas. Anda sozinha ou acompanhada, tudo depende da fase... minguante é a sua preferida!

5 comentários em “36 — E lá se foi a minha hipótese de paz…

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