6 — das minhas insanidades

Fazer terapia — ainda que seja uma decisão consciente — não é fácil. Eu me sento diante de uma estranha toda terça-feira e durante cinquenta minutos, ofereço tudo de mim, numa bandeja de prata. Há pessoas que fingem-subvertem-escondem. Mas eu não considero esse processo… produtivo. É perda de tempo mentir-fingir.

Eu optei — desde a primeira sessão — por desnudar-me… por saber quais são os meus conflitos. Considero que assuntos não resolvidos e questões sem respostas são entulhos que, em algum momento, geram desconforto existencial e prefiro fazer uma faxina mental de tempos em tempos.

As primeiras sessões com W., no entanto, foi um jogo de cartas marcadas. Eu não perco a mania de traçar o outro, de analisar o que é verso-avesso. Dentro e fora. Não sei existir sem imaginar o que há por trás da armadura-humana que alcança a minha matéria. E eu tentei não fazer um estudo a respeito dela, mas não durou…

W. é uma observadora de pássaros.

Na segunda sessão… permaneci muda por mais de quinze minutos. Silêncio absoluto-agudo… delicioso. Fechei os olhos e ouvi o ressoar do velho carrilhão em minha amálgama. O que me fez sorrir. Quase cochilei… tamanha a paz que senti com o corpo relaxado naquela poltrona. Era tudo o que eu precisava naquele fim de tarde. Acordei com a pergunta feita por ela…

— Quanto tempo costuma permanecer aí dentro?

Abri os olhos e apreciei a anatomia esbranquiçada de W. — tal qual o gato da fotografia em sua mesa —, e respondi… de maneira breve-curta-rápida. Quatro palavras bastaram. Ela não demonstrou surpresa. Anotou alguma coisa em seu bloco de papel… e o silêncio voltou a existir entre nós.

Reparei que não há relógio na parede da sala e o olhar dela não busca pelos ponteiros em seu pulso. Mas sabe quando a sessão chega ao fim, como se houvesse um cronômetro secreto em algum lugar a bipar de forma inaudível.

Ainda não sei se ela é regida por Kairós ou Chronos. Mas eu percebi que a cada quinze minutos, ela interrompe o meu silêncio com uma pergunta.

— As pessoas costumam se incomodar com o seu silêncio?

Eu sorri ao me lembrar das inúmeras vezes que alguém reclamou da minha quietude ou tentou adivinhar o que era pensamento em meu invólucro. Se pudesse, respondi, guardaria todas as palavras para as folhas de papel. Falar me causa cansaço. E novamente ela tomou nota em seu bloco de papel.

Ela não demonstra reação, não move músculos-nervos, se parece com um boneco de cera. Gosto da maneira como cruza as pernas, acomoda o corpo no móvel escuro, o bloco de papel no braço da poltrona e segura a caneta na mão direita… Ela é uma figura discreta, mas a aliança destaca-se no dedo…

— Quando se enclausura aí dentro, o que ouve?

Vozes do meu passado-presente-e-futuro. Ela sorriu com a minha resposta reta, entregue sem pontuação. Mas parecia saber que era a minha própria voz e não a de outras pessoas, embora, às vezes, ouço a de outras pessoas… Sou uma boa ouvinte. Mas sou eficiente em não-ouvir. Fecho-me em concha e nada me toca-alcança.

E o nosso tempo acabou… “próxima semana? Mesmo dia e horário?” E o que eu ainda não sei dizer… é se ela espera ouvir: “adeus-até-nunca-mais” ou “até a próxima terça”.

b.e.d.a — blog every day august — um desafio que surgiu para agitar os dias
de abril e agosto nos blogues e comemorar o Blog Day

Alê Helga – Mariana Gouveia – Mãe Literatura 
Obdulio Nuñes Ortega – Vanessa

Publicado por Lunna Guedes

Sou sagitariana... degustadora de café. Figura canina e uma típica observadora de pássaros, paisagens, pessoas e lugares. Paciência é algo que me falta desde a infância. Mas sobra sarcasmos para todas as coisas da vida que fazem mais barulhos que cigarras nos troncos das árvores. Aprecio o silêncio e falas cheias, escreve-se em prosa por apreciar a escrita em linha reta. Tenho fases como a lua... sendo a minguante a minha preferida!

9 comentários em “6 — das minhas insanidades

  1. Enquanto minha escrita não retorna, meus olhos se encantam e me sinto transportada para o seu cenário, seus aromas, seu afeto. Como é bom poder ler a respeito de suas sessões. É um estudo e tanto.

    Bacio!

  2. Acho interessante esse não-diálogo entre vocês duas. Observam-se uma a outra e aprendem-se. Só ainda não sei quem ajuda quem.

  3. Eu prefiro uma chavena de chá de menta e o silêncio da minha cama. Adoro conversar com o travesseiro. Eu não sou boa com conversas profissionais. Até tentei, mas não é para mim. Mas gosto de acompanhar as suas sessões. Parece o capítulo de um livro 🙂

  4. Li atentamente. Ultimamente, tenho recebido indicações para fazer terapia. Parece uma moda por aí. Aqui não conheço ninguém que esteja fazendo terapia. Sou desconfiada. Será que os que me indicam para fazer terapia receberäo algum desconto em suas sessões? Estou a revelar o meu íntimo. E agora, qual será o adjetivo que receberei? Rsrs
    Não é uma crítica a quem faz terapia, mas eu gostaria de entender melhor qual a ajuda que é possível obter? O passado estará sempre vivo, o presente tb, o futuro sempre uma incógnita. Como apagar o passado, como desvendar os segredos do passado qdo seus personagens não estão mais aqui?
    Tb dizem que se não gostar de um terapeuta, deve se pricurar outro até acertar. Não tenho paciência para contar minha história tantas vezes, e prefiro gastar o dinheiro em prazeres q me ajudam com certeza nem que seja por alguns minutos.

  5. Eu aqui no meu silêncio apreciando o barulho do teu(silêncio) que se esparrama em cores e pinta telas imaginárias. O enredo me pegou de cheio e causou um estremecer ao ler suas letras.
    Por aqui o café é meu companheiro e desintoxicação somente de pessoas mesmo.
    Anais Nim também tem sido companheira e apesar de ler primeiro “Diários não expurgados” acabei o abandonando pela metade para começar “Delta de Vênus” pois é, ler dois livros ao mesmo tempo tem sido uma espécie de passaporte para sair das mesmices.
    Há dias que as retrospectivas são em tons retrôs mas, há dias que são totalmente pop art, afinal a pintura nada mais é do uma poesia muda e é maravilhoso ter os seus tons vermelhos compartilhado conosco.

    Esperando ansiosamente o desfecho do capitulo seguinte!
    Beijos

  6. Ler (a si) é a minha terapia. Eu só fico curioso se você encontrará a saída do seu labirinto ou se sente tão confortável nele que não quer encontrá-la.

Pronto para o diálogo? Eu estou (sempre)

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