38 — Um tempo para anoitecer à luz de lâmpadas

Cara M.,

Vim me sentar  na varanda com alguns rascunhos antigos, em mãos. Xícara de chá ao lado e as janelas dos prédios da avenida com nome de pássaro como cenário. Há poucas luzes acesas nessa noite de domingo. A maioria exibe um brilho típico de televisão acesa…

Eu gosto imenso de perceber o passado que deixei escrito em algum lugar. Revejo cenários, pessoas e revisito cada movimento que precipitou qualquer coisa em mim.

Às vezes, o meu corpo é um rascunho que precisa ser passado a limpo porque eu escrevo por dentro — uma espécie de tatuagem invertida. Eu sei que isso não é novidade para você.

Mas foi um desses rascunhos, escritos no fim de uma manhã de outubro de 2018 que eu encontrei… Eu estava sentada na mesa coletiva da Starbucks da Alameda Santos, com envelopes e folhas avulsas espalhadas. De tempos em tempos eu recorria a um gole de latte, uma espécie de placebo a impulsionar a minha escrita.

Eu queria lhe contar dos labirintos urbanos percorridos a bordo de um Coletivo que mudou o seu caminho habitual, naquela manhã, transformando a minha viagem habitual em outra.

Mas a minha narrativa acabou interrompida repentinamente — o parágrafo ficou pelo caminho, não foi pontuado, apenas deixado no meio da linha. Eu precisei revirar a memória e outros tantos escritos para descobrir o que houve.

Uma senhora ocupou a cadeira ao meu lado… E fomos gentis uma com a outra… trocamos acenos rápidos e silenciosos como faço quando alguém se aproxima da mesa coletiva que ocupo. Mas, dessa vez, algo inédito aconteceu. Eu a reconheci… era uma personagem que sequestrou o meu olhar e sentidos e eu desconfio que lhe falei a respeito dela… que passei a investigá-la, atraída que fui por um medalhão vermelho que carregava no centro do peito…

Ela passava por mim todos os dias, no mesmo horário, com suas roupas escuras, uma bolsa a tiracolo e aquele enorme medalhão dourado, que parecia pesar mais que o seu próprio corpo miúdo.

O meu imaginário teceu várias narrativas impossíveis para aquele objeto dourado que sustentava uma pedra. E a figura dela contribuiu para isso porque parecia que havia saído de um dos contos dos irmãos Grimm.

Mas, sentada ao meu lado, ao alcance do meus olhos, não percebi misticismo algum nela. Pelo contrário… Era apenas uma mulher velha, quieta e moribunda. Respirei fundo e lamentei tê-la tão perto… É bastante comum acontecer, por isso, prefiro que os personagens se mantenham dentro de uma pequena distância, a salvo da realidade. O meu imaginário é tão mais gentil…

Você se lembra da reação de Raissa quando se depara com Anne Letrech e se encanta por aquela figura misteriosa que emerge bem diante de seus olhos. Mas, assim que percebe que ela caminha em sua direção, entra em pânico e foge.

Admito que eu deveria ter feito o mesmo: recolhido as minhas coisas e ido embora. Mas eu fiquei e ainda hoje lamento por isso.

Eu que nada sabia a respeito daquela mulher… descobri minutos depois que se chamava Cecília porque todos que frequentam aquele Café, tem seus respectivos nomes “cantados” pelo Barista que prepara e nos entrega a bebida.  É como estar de volta à sala de aula, quando nossos nomes eram citados – completos – durante a chamada feita pelo professor.

Cecília não se manteve em silêncio por muito tempo, cara mia. Achou fascinante se deparar com alguém da minha idade em meio a envelopes e folhas de papéis, a escrever missivas. Disse não imaginar que ainda existia pessoas dispostas a trocar correspondência.

Eu não disse palavra… Cecília, no entanto, desandou a falar de si e de seus correspondentes num tom monocórdio… todos mortos — afirmou com algum pesar. Eu engoli um pesado gole de latte tentando não pensar-reagir aquela fala. Mas foi impossível não perceber que a morte da qual falava, era outra. Não a que leva os seres para outro mundo.

Ela falava de abandono, desistência… de envelopes esquecidos dentro de uma caixa, escondida no fundo de um armário, de gavetas fechadas. Cartas não respondidas e algumas escritas e não enviadas.

E eu cá, nesse futuro dois mil e vinte e dois, noite de domingo, céu nublado, sentada na varanda… a lidar com uma correspondência não-enviada. Eu tenho muitas missivas nessa condição…

Mas, naquele dia, ao olhar para ela, uma segunda vez, reparei que estava sem o medalhão. E, por um instante, oscilei em incertezas. Quase questionei a ausência do objeto. Mas não sou dada a pergunta, você sabe.

Ela se levantou, desejou-me um bom dia, deitou o copo branco no lixo e foi embora. Eu tive a sensação de que não mais a veria e foi o que aconteceu.

Fosse uma história de minha autoria… ao me levantar para ir embora, encontraria o medalhão, abandonado na cadeira. E ao passar pela porta do Café receberia a notícia do Fim, ocorrido poucos minutos após a minha chegada. Mas, a realidade insiste em não me surpreender… com suas narrativas monótonas.

Ao menos essa correspondência, deixará a condição de não-enviada e seguirá até você.

Au revoir

b.e.d.a — blog every day august — um desafio que surgiu para agitar os dias
de abril e agosto nos blogues e comemorar o Blog Day

Alê Helga – Mariana Gouveia – Mãe Literatura 
Obdulio Nuñes Ortega – Vanessa

Projeto 52 missivas

Publicado por Lunna

É sagitariana... degustadora de café. Figura canina e uma típica observadora de pássaros. Paciência lhe falta desde a infância. Mas sobra-lhe sarcasmos para todas as coisas da vida que fazem mais barulhos que cigarras nos troncos das árvores. Aprecia o silêncio e falas cheias. As que se repetem com facilidade de boca em boca despreza... Lacaniana por opção.... E completamente apaixonada por mulheres que usam a escrita como uma navalha afiada que corta enquanto é carne. Escreve à noite e reescreve pelas manhãs. Gosta de calçadas e corujas. Anda sozinha ou acompanhada, tudo depende da fase... minguante é a sua preferida!

5 comentários em “38 — Um tempo para anoitecer à luz de lâmpadas

  1. Intrigante e intenso esse escrito, gostei muito!!
    Também nunca fui muito amiga da realidade, adorava sonhar e inventar meu próprio mundo. Talvez já tenha enlouquecido algumas vezes. Hoje vivo mais a realidade, e lhe digo: É bem desgastante! Por isso sempre que posso escapo para cá.

    http://glifeblog.com/

  2. Eu quero ter acesso a essa caixinha de correspondência não-enviada. Aposto que tem alguma escrita para mim aí porque eu recebi poucas por aqui.
    Mas que personagem esse que você encontrou na Starbucks, eu fiquei curiosíssima para saber mais. Trate de escrever um conto daqueles do clube do livro para outros autores continuarem. Já estou imaginando o que escreverão.

    Ps. Um abraço bem forte em você minha linda.

  3. Eu fico aqui, entre s missivas e as lembranças… Eu recebi a missiva e fiquei em silêncio, apenas olhando a lua. Bacio

Pronto para o diálogo? Eu estou (sempre)

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