25 | a epidemia de solidão…

É preciso compreender a solidão  
Charles Baudelaire

Gosto imenso de ler notícias velhas e depois do advento da pandemia, tornou-se um vício, como beber pesados goles de café… pela manhã. E ao praticar o meu hábito nesse dia de abril, li uma nota que passou despercebida à época. A premiê britânica, Theresa May havia nomeado a ministra do Esporte e da Sociedade Civil — Tracey Crouch — para o que foi chamado de ministério da solidão… problema que afetava muitos ingleses e boa parte da humanidade contemporânea. Apenas no Reino Unido, eram 9 milhões de solitários… e estimo que esse número deve ter aumentado…

Mas quando foi que a Solidão se tornou um problema epidêmico?

Enquanto lia, lembrei-me rapidamente de 1984, de George Orwell, com seus ministérios disso e daquilo — o mais impressionante era o ministério do Amor, que era o mais apavorante: o edifício não tinha nenhuma janela (…) era impossível entrar sem uma justificativa oficial, e mesmo nesses casos, só transpondo um labirinto de arame farpado, portas de aço e ninhos ocultos de metralhadora. O livro antecipa-se ao futuro das máquinas, com suas mensagens criptografadas e uma sociedade cada vez mais refém do viu metal. Talvez a resposta esteja ai…

Mas foi uma crônica de Rubem Alves que iluminou o tema e me divertiu com a afirmação óbvia de que a Solidão não é o problema… somos nós! — nos sentimos sozinhos quando nos deparamos com a não-solidão. Duas pessoas juntas a caminhar de mãos dadas nos faz perceber as nossas mãos vazias…

Eu me acostumei a ser expulsa dos lugares! Nunca fui de muito falar e conseguia, com alguma facilidade, permanecer em silêncio durante horas inteiras, dias-noites — e com o passar dos dias, passei a sonhar-desejar ser esquecida nos cantos da casa, dos lugares.

Inventei muitos esconderijos improváveis… acalentando o desejo de não ser encontrada e suspirava — decepcionada —, quando ouvia o famoso: achei você. Abraçava o fracasso, respirava fundo com o um monge, enquanto desejava a mim mesma: melhor sorte da próxima vez. Deixava meu canto de mundo para ir me juntar — desgostosa —, aos humanos da casa. 

Sentia uma inveja gigantesca do cão largado no tapete, com os olhos fechados e as orelhas atentas aos menores ruídos. Quando uma criança se aproximava dele, eu reparava em suas reações — juro que eram parecidas com as minhas.

Eu sempre soube ouvir… mas não demorou muito para perceber que não sabia ouvir calada certas coisas. Era a única a levantar a mão em sala de aula quando tinha dúvidas… percebia o olhar pesaroso e o sorriso amarelo da professora em minha direção. Certos temas me levavam naturalmente ao questionamento… não usava o ‘porquê’ comum nas outras crianças. Tinha necessidade de mais informações e não de respostas prontas. Eu queria compreender o tema, esgotá-lo, atravessá-lo para alcançar novos horizontes. Mas os adultos — em sua maioria — só sabiam oferecer o lugar conhecido e se aborreciam com a minha insistência.

Fui expulsa da Capela do colégio, da sala de aula e vários outros lugares mas, curiosamente, nunca fui expulsa de uma Biblioteca. Os padres do colégio me olhavam ensimesmados… as freiras me evitavam e se benziam ao se deparar comigo pelo caminho. A Conselheira tinha horror a minha presença e as outras crianças tinham medo de mim — era a melhor das sensações. Me sentia o próprio Ebenezer Scrooge.

A maioria dizia — com alguma satisfação —, que eu não tinha lugar entre os seus. A Bibliotecária — uma senhora sexagenária,  no entanto, apreciava a minha presença e me oferecia livros vários… a maioria — segundo o Coordenador Pedagógico —, impróprios para a minha idade. 

Ela nada dizia, apenas concordava… silenciosa-respeitosamente e aguardava pela saída do prospecto humano para me devolver o livro. Éramos cúmplices em um crime não previsto pela lei dos homens.

Eu adorava aquele cenário de mesas-cadeiras-prateleiras-livros-janelas — sempre vazias — e o velho relógio bem em cima da porta a pulsar seu tic… tac… dengoso. Dava para ouvir  o som do carimbo, que a Bibliotecária usava para marcar as páginas dos livros. Às vezes, eu a observava atentamente — via quando molhava o carimbo na almofada de tinta e o suspendia no ar, para o golpe fatal. Antes, me olhava e sorria — consciente dos meus olhos atentos. 

A solidão sempre foi a melhor das companhias! —  silenciosa e generosa a me oferecer o melhor dos goles. Um quarto às escuras num dia de chuva é o melhor dos cenários. A mesa com duas cadeiras a oferecer o sabor da ausência, me aguça os sentidos. A rua erma, com calçadas para andar nos dois lados, com casas com as luzes acesas a anunciar as presenças apenas do lado de dentro, me comove.

Agora, enquanto escrevo, estou cá, em meu canto de mundo, com uma gentil xícara de café,  uma música ligada no repeat e nenhum outro movimento me alcança, nenhuma presença rouba a minha paz, com falas desnecessárias. Viro páginas, construo frases, bebo pesados goles de chá… enquanto penso em Rubem Alves e afirmo, para mim a solidão nunca foi um problema. Mas tenho plena consciência de que Baudelaire estava certo ao lançar sua frase-perfeita ao mundo porque muitos de nós, não sabe ser-existir-estar sozinho.

Não faz muito tempo, um rapaz saltou da janela do último andar do prédio vizinho… dias depois, ao caminhar pelas calçadas, ouço uma conversa entre duas senhoras: eu não fiquei surpresa quando soube. Ele era um solitário, não tinha família, amigos. Vivia trancado… como se justificassem o vôo bem longe de sua solidão

b.e.d.a — blog every day august — um desafio que surgiu para agitar os dias
de abril e agosto nos blogues e comemorar o Blog Day

Mariana Gouveia – Mãe Literatura 
Obdulio Nuñes Ortega – Vanessa

Publicado por Lunna Guedes

Sou sagitariana... degustadora de café. Figura canina e uma típica observadora de pássaros, paisagens, pessoas e lugares. Paciência é algo que me falta desde a infância. Mas sobra sarcasmos para todas as coisas da vida que fazem mais barulhos que cigarras nos troncos das árvores. Aprecio o silêncio e falas cheias, escreve-se em prosa por apreciar a escrita em linha reta. Tenho fases como a lua... sendo a minguante a minha preferida!

19 comentários em “25 | a epidemia de solidão…

  1. A solidão é algo muito relativo para dizer bem a verdade, confesso que prefiro mil vezes ficar sozinha comigo mesmo do que estar com alguém insegura e que não tem confiança ou fé, é difícil achar pessoas que apreciem sua própria companhia hoje em dia.

  2. Para mim, há uma grande diferença entre estar sozinha e estar em solidão. Uma e outra não têm de andar de mãos dadas, como descreves no teu artigo. Como costumo dizer: “estou sozinha mas nunca em solidão” (tenho-me a mim própria, as memórias, os meus em mim,…). Bom devaneio de artigo!

  3. Eu vivi muitos anos só. Ficava em casa e me sentia satisfeito por poder estar sozinho por dias seguidos, sem precisar estar com alguém, apenas os gatos. Acharam que eu aquilo que não estava me fazendo bem e comecei a receber medicação.

  4. Eu me identifiquei com muitas partes deste texto, mas principalmente com essa:
    “Eu sempre soube ouvir… mas não demorou muito para perceber que não sabia ouvir calada certas coisas.” Inclusive, já perdi as contas de quantas vezes fui expulsa da sala entre a sétima série e o terceiro ano do ensino médio por falar demais kkk Talvez porque quando eu era criança era muito tímida e retraída, e me sentia sozinha, que na adolescência passei a me cercar de pessoas e falar tudo o que me viesse à mente. Mas descobri que às vezes podemos estar rodeados de pessoas, e ainda assim nos sentir sozinhos. Ainda estou tentando controlar a minha impulsividade para falar e fazer as coisas, mas aprendi, com o passar do tempo, a gostar da minha própria companhia, gostar de estar sozinha, mas sem me sentir sozinha. E há dias que é tão bom estar cercada de livros, palavras, café e dias chuvosos.

  5. Olá Lunna,
    Sabe! A solidão para mim também nunca foi problema pelo contrário assim como você em muitos momentos eu me deliciava quando estava sozinha em casa, sem aquele tumulto, brigas e barulho. Ficávamos só eu e minha música melhor hora do dia, e mesmo depois de casada eu e meu esposo adoramos ficar juntos somos daqueles casais parceiros. Porém ambos temos coisas que curtimos fazer ao nosso modo e nosso jeito. Acredito que pessoas que sentem-se bem consigo são os melhores parceiros pois valorizam a si e aos outros. E não dependem de colocar suas felicidades no outro elas já são felizes só e quando se casam unem o gosto pela vida. E assim é também no coletivo as pessoas se buscam nas outras enquanto deveriam se encontra consigo mesmo.

  6. Wow! Tive que começar com uma onomatopeia, porque, eu precisei concordar. O problema são sempre as reações que temos perante o que o mundo nos mostra. É bem aquela ideia já quase clichê-padrão que se dissemina nesse mundo de valorizar o amor próprio, que afirma que estar sozinho e solidão são coisas distintas.
    Aprecio uma boa companhia, e, nesse caso, eu incluo a minha própria. Estar só, fisicamente falando, dificilmente é um problema para mim hoje em dia. Anseio por momentos de solidão sem ser solitário, em estar só comigo mesma e desfrutar da beleza disso.
    Quando criança eu já tive muitos desses problemas que relatava, quase como nos filmes adolescentes, eu era quase como sombra, e não era notada. O que difere do seu relato em alguns pontos e aproxima em outros, já que tinha grandes dificuldades em me aproximar das pessoas.
    Adorei (re)visitar seu canto e agora, não largo mais!
    Copiando-te, deixo aqui meu ‘bacio’

  7. Espetacular essa sua interpretação de solidão, Lunna. Você e o Ruben Alves estão cobertos de razão. O bom disso tudo é que criamos uma grade de proteção para ficarmos só conosco e nos divertirmos com as nossas “caraminholas” .
    Estou voltando por aqui, Luna querida. Eu adoro esse nosso espaço porque depois de muito tempo eu retorno sem dar explicações, sem ser cobrado de nada e com a impressão que saí ontem e hoje estou de volta.
    Beijo no coração. Manoel – Blog do Óbvio .

  8. Entendo muito bem o que você quer dizer no seu texto. Também sou uma pessoa solitária, é isso desde sempre gerou um mim uma curiosidade por coisas que a maiorias das pessoas não se interessam. Acredito que todos deveriam aprender a ficar sozinhos de vez em quando, a conviver consigo mesmo!

    Eu me sinto bem melhor quando estou sozinha, com meus pensamentos. Preciso desses momentos onde posso ouvir as loucuras que existem dentro de mim 🙂

    Adorei o texto!

  9. As vezes, a solidão pode ser uma grande aliada.. em alguns momentos resolve a maioria dos nossos problemas (melhor amiga dos anti-sociais) e eu particularmente, gosto dela.

    Adorando seu post como sempre!

  10. Eu adorei seu post,com o avanço da tecnologia passamos a cada dia ser mais solitários mesmo em grandes multidões.Me identifiquei em alguns aspectos com sua resenha,as vezes é legal sair sozinha e curtir nossa própria presença,se autoconhecer.Eu me acostumei com isso e passou a ser confortável.O texto é muito libertador,adorei!!

  11. Lunna, este belo texto me fez lembrar de meus tempos de solidão em que passava temporadas inteiras sem estar com ninguém. Merece outro texto, em resposta. Breve!

  12. eu gosto muito desse encontro comigo mesma… hoje, as linhas fazem-me mais companhia. Mas, já vivi essa solidao desvairada. Ainda bem que passou.

Pronto para o diálogo? Eu estou (sempre)

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