Parece que, na miséria, tomamos consciência da nossa própria existência

Passei as últimas horas tentando escrever a biografia da minha personagem, que não é nova, mas não passava de uma transeunte em outra história. Eu gosto imenso quando as minhas personas migram de uma narrativa para outra, como aconteceu com Alice que, em seu momento de vida-e-morte — muito mais morte que vida — acaba em Teodoro, uma cidade que inventei para Alexandra.

Milena aparece na Praça da República, no segundo livro de Lua de Papel… Ela é um divisor de águas em dois importantes momentos da trama. Gosto imenso da maneira como é descrita…

Havia uma ausência de cor que fez Alexandra pensar numa daquelas estátuas espalhadas pela cidade. Gostava em especial de uma delas. A que ficava no terraço lateraldo Teatro Municipal. 

Lua de Papel

Milena era um mistério para Alexandra e para mim… fui descobrindo-a conforme escrevia a cena, que era importante para a garota do interior. Era a sua transição definitiva da cidade pequena para a cidade grande. E eu percebi, conforme o meu traço avançava… que Milena era uma criatura dual que, percorria as ruas noturnas da cidade em busca de estranhos, escolhendo-os, de acordo com a cor, o tamanho e o modelo — como peças em uma liquidação.

Mas, durante o dia era uma jovem comportada… boa moça-amiga-irmã-filha-estudante-estagiária e com toda uma vida planejada. Nada poderia ficar entre ela e os seus objetivos… nem mesmo o pai — ausente — que a encontra na Augusta, em poucos trajes e a confunde com uma prostituta.

O que mais me atraí na personagem são os conflitos com a mãe… que não consegue se desvencilhar da outra metade que não vingou. Milena era gêmea… e cresceu com um fantasma a espreitá-la. A mãe nunca acreditou no desfecho que a realidade impôs. Considerada louca ao tentar escavar a sepultura da filha para arrancar de lá uma resposta, acabou internada e medicada.

Ao viver uma vida dupla… é como se cedesse espaço em seu corpo a outra metade, que morreu minutos após o nascimento. Às vezes, Milena escuta um choro de criança. Mas tem consciência de que não é uma lembrança sua. É apenas a insistente narrativa da mãe, que revisava milhares de vezes o que se lembrava do parto, em busca da certeza que nunca teve.

Estudando o assunto, Milena descobriu elementos importantes a respeito da ligação entre gêmeos, o que serviu apenas para afirmar a loucura da mãe. Se a irmã estivesse viva — como alegava a mãe –, ela saberia. Mas não havia sentimento algum, apenas a necessidade de se multiplicar…

A paixão pela vida noturna aconteceu numa fuga da escola… na Augusta se misturou as mulheres que ofereciam seus corpos a quem estivesse disposto a pagar o preço que o prazer cobra. Descobriu através delas, os vícios… o cigarro que tragou como se sua matéria dependesse daquele gesto; o pó e os drinks. Mas não era uma criatura viciada. Usava o vício quando precisava o corpo lhe acorrentava e ela precisava voar para longe de tudo e todos.

b.e.d.a — blog every day august — um desafio que surgiu para agitar os dias
de abril e agosto nos blogues e comemorar o Blog Day

Mariana Gouveia – Mãe Literatura 
Obdulio Nuñes Ortega – Vanessa

Publicado por Lunna Guedes

Sou sagitariana... degustadora de café. Figura canina e uma típica observadora de pássaros, paisagens, pessoas e lugares. Paciência é algo que me falta desde a infância. Mas sobra sarcasmos para todas as coisas da vida que fazem mais barulhos que cigarras nos troncos das árvores. Aprecio o silêncio e falas cheias, escreve-se em prosa por apreciar a escrita em linha reta. Tenho fases como a lua... sendo a minguante a minha preferida!

8 comentários em “Parece que, na miséria, tomamos consciência da nossa própria existência

  1. Parece ser uma personagem que a desafiará bastante, Lunna! Obviamente, ficaremos à espera de movimentos causará na vida das pessoas ao seu redor. Já tem a hora do parto programado?

  2. Eu gostei dessa Milena e gostei bastante da parte em que você fala que a personagem era um mistério para a Alexandra (já disse que agoro essa personagem?) e para você.

    Quero ler mais!!!

  3. Trabalhar um personagem gêmeo é bastante comum nas telenovelas. Assisti a várias brasileiras, a que mais gostei foi a que foi interpretada por Glória Pires e a do Solano. Não me lembro os nomes.
    Mas na literatura é menos comum ou a minha memória que não ajuda.
    Eu achei interessante essa dualidade, de viver pela outra metade. Me deixou interessadissima, principalmente pq é um thriller. Como não amar?

    Bacio!

  4. Gente, outro romance. Era tudo que eu queria, mas não sou do tipo que pressiona ou pergunta: quando saí o próximo. Mas já estava ansiosa pq no ano passado não tivemos uma história para nos aquecer. Me deixo bem acostumada. Todo um ano, um livro. Sei que escreveu aquele técnico, mas não é uma história.
    Enfim, já estou curiosa a respeito da personagem. Será que a outra irmã está mesmo morta? Dúvidas que surgiram aqui. Conhecendo um pouco do seu jeito de escrever, aposto que está. E como é um thriller, vem coisa aí.

    bisous

  5. Não sei, nunca escrevi um livro e nem tenho essa ilusão, mas penso que para quem escreve, torna-se uma espécie de refrigério quando concluído. Deve ser uma sensação maravilhosa! Preciso ler um romance escrito por você, Lunna! Preciso compreender sua escrita fora daqui.

    Gr. Bj. e muito sucesso flor!

    p.s.: os seus romances já esgotaram ou sai por encomenda?

  6. Sempre bom te ler Lunna e perceber o seu trabalho nos bastidores do seu próprio livro. Que louco isso. De fora, a gente não imagina. Por isso que eu acho maravilhoso um escritor ter um blog. Todos deveriam.

    bj

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