As Bibliotecas e eu…

“Cada biblioteca compartilha a orgulhosa ambição de Alexandria, na qual os bibliotecários antigos prentendiam reunir todos os livros produzidos na totalidade do mundo conhecido”

Depois do post de ontem… fiquei a pensar a respeito da minha relação com as Bibliotecas, que vem de longe: diretamente do templo sagrado da minha infância.

A primeira — da qual me lembro — ficava num velho prédio com seus mais de duzentos anos, na parte mais baixa da cidade. Ela não resistiu as fortes chuvas que atingiram a cidade. Foi um lindo espetáculo… eu vi as nuvens avançando por cima do mar, crescendo pesado para cima dos telhados. Eram lindas, enormes. Os estragos foram muitos e, atingiram a Biblioteca…

O novo prédio foi construído na parte alta… Era bonito, elegante e cheirava a novo… da mobília aos livros. Mas o lugar não me seduziu. Eu não conseguia ocupar suas mesas e cadeiras feitas por encomenda. Saí daquele cenário moderno, poucos minutos após a minha entrada para nunca mais voltar.

Na Escola em que estudei havia uma biblioteca… um lugar escondido. Era necessário ultrapassar um longo corredor pouco iluminado, apelidado de rota dos condenados. A Biblioteca era o destino dos que eram reprovados em duas ou mais disciplinas.

Mas era um cenário vazio… a Bibliotecária — uma senhora ranzinza, pouco paciência com os alunos — parecia morar ali. Ela abria as portas as nove da manhã, por dentro, destrancando um trinco no alto, mantinha as prateleiras em ordem e cuidava do famoso livro de capa dura — que também foi apelidado pelos alunos. Dona O anotava o nome do aluno, a turma e o título do livro emprestado. O meu nome ocupava várias linhas e páginas naquele livro… mas ela mentia ao anotar os títulos e autores que eu lia. Era o nosso pacto secreto, ninguém desconfiou de nossos silêncios cúmplices. Eu me divertia com seus bilhetes: algo me diz que irá gostar dessa aventura

Eu planejei me despedir daquele cenário e de O., em meu último dia de aula. Mas a realidade tinha outros planos.

Lembro-me de várias Bibliotecas que visitei. Ao chegar em Barcelona, perguntei — de maneira despretensiosa — ao recepcionista do hotel onde nós hospedamos: essa cidade tem uma Biblioteca? Foi a minha primeira visita… e que deliciosa sensação de espanto. Era um lugar incrível — um cenário perfeito para um crime.

Passou a ser um hábito… conhecer as Bibliotecas das cidades que eu visitava e foram muitas. No dia seguinte a minha chegada a São Paulo, conheci a Mario de Andrade, no centro.

O lugar cheirava a moto, tinha trincas nas paredes e a mobília estava fragilizada. Os bibliotecários ficavam em uma mesa escura, cor de Tabasco, recolhendo fichas preenchidas pelos usuários e colocadas numa espécie de elevador. Os livros ficavam guardados em algum canto daquele prédio. Mas não quer dizer que estavam protegidos.

Conheci duas outras Bibliotecas, na cidade paulistano. A Monteiro Lobato na Vila Buarque, com sua aparência estranha e pouco atraente. Olhando por fora, fica impossível saber se tratar de uma biblioteca. E a Cecília Meireles, no Alto da Lapa. Um prédio erguido na ponta de uma praça, em meio a casas residenciais. Lá dentro, mesas redondas, de madeira escura e cadeiras confortáveis. Duas moças revezavam na função de bibliotecárias, sem nada saber a respeito do ofício. Os livros nas prateleiras eram, em sua maioria, infantis, com figuras e poucas palavras. E o lugar vivia as moscas… vítima de inundações — percebi pelas marcas nas paredes.

Faz algum tempo que não entro em uma Biblioteca e círculo por entre prateleiras. Estive na Mário de Andrade — para encontrar uma amiga-autora — mas ainda estava fechada, devido a pandemia. Senti falta daquele cenário, com seu visual reformulado. No começo fui do espanto ao desconforto ao ver os traços refeitos e o amplo salão reduzido a meia dúzia de mesas restauradas.

Mas não foi difícil me acostumar a nova realidade. Escolhi o meu canto favorito, perto de uma de suas janelas, com vista para a Consolação e gostei de ter as prateleiras tão próximas, ao alcance das mãos-olhos, o corpo todo.

Não sou contra mudanças… mas, há lugares que deveriam permanecer intocáveis. Bibliotecas são lugares mágicos — templos sagrados… mas sei que nem todos pensam assim.

E para finalizar… deixo o vídeo da exposição imersiva de realidade virtual A Biblioteca à noite, inspirada no livro homônimo do escritor argentino Alberto Manguel, no Sesc Paulista que eu visitei antes do mundo colapsar.

b.e.d.a — blog every day august — um desafio que surgiu para agitar os dias
de abril e agosto nos blogues e comemorar o Blog Day

Mariana Gouveia – Mãe Literatura 
Obdulio Nuñes Ortega – Vanessa

Publicado por Lunna Guedes

Sou sagitariana... degustadora de café. Figura canina e uma típica observadora de pássaros, paisagens, pessoas e lugares. Paciência é algo que me falta desde a infância. Mas sobra sarcasmos para todas as coisas da vida que fazem mais barulhos que cigarras nos troncos das árvores. Aprecio o silêncio e falas cheias, escreve-se em prosa por apreciar a escrita em linha reta. Tenho fases como a lua... sendo a minguante a minha preferida!

8 comentários em “As Bibliotecas e eu…

  1. Suas palavras me fizeram pensar que talvez a primavera seja uma criança, que esconde-se e esconde suas cores só para despertar nossa criança interior, que em busca delas volta a brincar de esconde-esconde… e o inverno, esse senhor pálido e sério fica mandando que entremos, pois está frio lá fora. Sigamos na caça às cores.
    Até!

  2. Nossa, eu nunca pensei a respeito. Seus texto sempre mexem comigo de alguma maneira, me colocam no cantinho para pensar, sabe? E hoje fiquei aqui buscando por bibliotecas e a única que me vem a cabeça é a da escola. Tinha uma balcão de madeira onde eu apoiava os braços enquanto esperava a “tia” pegar o livro que eu precisava ler. Não me lembro o nome dela e nem sei se ela era bibliotecária. Acho que não. Era apenas uma funcionária da escola, responsável pelo local. Me lembro bem da carinha dela, era “irmã” como chamavam as pessoas crentes à época. Não existia o termo evangélico que hoje rotula os crentes.

    Beijinhos (:

  3. Eu já tinha adorado o post anterior e agora esse. Que gostoso pensar nas bibliotecas como ponto de partida (marco zero) de uma cidade. Estou ansiosa para que conheça a do meu bairro, Até imagino o que irá escrever a respeito.

    Beijinhos

  4. Eu acho que nunca entrei na biblioteca da minha cidade. Nem sei te dizer se tem uma. Eu acho que não tem porque não me lembro de um lugar. O meu avô tinha alguns livros numa estante de madeira. Mas acho que o único lugar em que li um livro foi na escola mesmo. Lá eu sei que tinha uma sala com livros.

    Maria Luísa Adães

    “os7degraus”

    Maria Luísa Adáes / Fecebook

  5. Olá Lunna, como vai?!

    Lembra de mim? A Ana do “Hiper Urânio”? Pois, é… estou de volta…

    saudades de vc…

    beijos!

  6. Em minha cidade temos apenas uma biblioteca, é pequena e tem poucos livros. Mas é lugarzinho gostoso. Vive vazio e acho que alguns livros servem apenas de alimento as traças. Não foi nada fácil ser leitora aqui na minha cidade. A sorte é que comecei a trocar correspondência e ganhava livros dos amigos que fiz. Nunca me esqueci do natal em que chegou uma caixa aqui, cheia de livros. Uma amiga de Minas que sem saber me presenteou com as coisas mais lindas do mundo.
    Estranho que ela deixou de falar comigo há algum tempo, não sei o que houve. Mas os livros estão todos aqui.

    Ps. Queria ver fotos da Biblioteca que mencionou lá no Alto da Lapa, tem?

  7. Eu me lembro de quando comecei a frequentar a biblioteca da escola Canuto do Val, então com 9 ou 10 anos. Não me lembro de ninguém, nem bibliotecária ou frequentador. Aliás, achava que só eu a usava…

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