39 — Os sutis movimentos do cuore que nos salvam

na vitrolinha…

[…] O mundo, para ele, se encolheu até ficar do tamanho de sua sala e, durante o tempo que for necessário para que ele venha a compreender isso, precisa ficar onde está. Só uma coisa é certa: não pode estar em nenhum outro lugar, seria absurdo para ele pensar em procurar um outro.

Paul Auster em “A invenção da Solidão”

Carissima Mariana,

Escrevo-te do meu lugar, cara mia, esse cenário de frente para prédios e ruas que você ainda não pisou… Observo o céu a exibir seus muitos tons. Soube há pouco que o sol irá se pôr em instantes. Irá acontecer antes de eu finalizar essa missiva…

É Maio, minha cara… e o outono começa a se impôr por aqui, obrigando a noite a chegar mais cedo. E você aí com aí, com sua hora a menos… Quando penso nisso, tudo se desorganiza em minha amálgama porque não sei onde me posiciono. É como se eu estivesse à frente de seu tempo — e de fato estou aprisionada numa espécie de futuro — e você… em uma espécie de passado. E como se equaliza isso? Eu fico com a sensação de que habita o templo sagrado da minha infância e em segredo, espia o meu crescimento. 

Eu fui a última a chegar em minha famiglia, já lhe contei isso? E talvez, por isso, todos me davam as mãos e me levavam por aí, com os pés libertos do chão. Foi assim que eu aprendi a voar e passei a me considerar uma gaivota. 

Quando eu saia com o meu gigante de estimação… ele me içava em seus ombros e eu podia espiar tudo por outro ângulo. Como eu adorava aquilo. Voltávamos para casa cantando o refrão da mesma música, que era a favorita dele. Ninguém entendia aquela combinação de alegria e felicidade. Alguns se preocupavam e achavam impróprio-errado. Eu era tão pequena e ele, quase adulto. Esperavam tanto dele e tão pouco de mim.

O que ninguém sabia é que eu o fazia ir mais devagar… porque eu precisava colher galhos-folhas-pedras pelo caminho. E ele aprendeu comigo a dar valor para essas pequenas coisas. Perguntava: essa serve? — nem sempre ele acertava e ficava lá, cismado, tentando entender os meus processos.

Maio era o mês dele, minha cara e eu não sei quantos ele anos faria — não é o tipo de soma que me interessa, você sabe. Tampouco sei quanto tempo se passou desde que ele se foi. Mas eu sei que senti cada dia de ausência. Ele era a única pessoa que conseguia me fazer sentir uma criança. Ele me rodopiava nos ares e eu confiava na força de suas mãos, nos giros de seu corpo. Fechava os olhos e voava…

Éramos dois incansáveis… pulávamos no rio, escalávamos árvores e lá de cima cantávamos o famoso refrão da música preferida dele: Oh, the rhythm of my heart / Is beatin’ like a drum / With the words “I love you” / Rolling off my tongue / Oh, never will I roam / Now I know my place is home… Ele dizia que era a trilha sonora da vida dele e ao cantarolar nesse futuro solitário, ouço a voz dele do outro lado do telefone avisando-me de seu mês, exigindo festa-presença-abraço, tudo o que tinha direito e lá íamos nós…

Mas não foi em Maio que ele me ligou para contar o que havia lhe acontecido e conforme ele narrava a sua história feliz… eu comecei a rir porque ele tinha tanto medo de ser sozinho. Ele foi uma pessoa triste na maior parte do tempo. Certa vez, quando morava comigo, após um passeio pelo bairro em que pisamos folhas da estação, ele disse com o olhar murcho: eu não sabia que ao pisar nas folhas fazia barulho.

Eu pensava que ele sabia muito mais coisas que eu, seria o correto… mas era o contrário porque ele era sozinho e, às vezes, eu o surpreendia a nos espionar. Seu olhar cheio e a vontade de pertencer tão grande, muito maior que ele.

Eu cresci livre para ser quem eu quisesse, ele não. Era um prisioneiro… e suas tentativas de fuga foram muitas. A mais desesperada de todas, o fez sangrar no chão frio do banheiro. Me deixou furiosa. Gritei com ele… não podia fazer aquilo comigo. Me desculpei ao perceber o tamanho do meu egoísmo e ele jurou entender. Não sei, minha cara. Sei que muitas coisas minhas são dele: o jeito de sorrir nas horas mais impróprias, a música que se repete e os olhos cheios, perdidos em horizontes impossíveis.

Ao menos, ele estava feliz quando se foi e eu tive a honra de tê-lo comigo pelo tempo de uma vida inteira. Ah, e o sol se foi…

Au revoir

(…) uma sensação de portas que se fecham, de fechaduras que se trancam. É uma estação hermética, um longo momento de introspecção.

Paul Auster em “A invenção da Solidão”

Publicado por Lunna Guedes

Sou sagitariana... degustadora de café. Figura canina e uma típica observadora de pássaros, paisagens, pessoas e lugares. Paciência é algo que me falta desde a infância. Mas sobra sarcasmos para todas as coisas da vida que fazem mais barulhos que cigarras nos troncos das árvores. Aprecio o silêncio e falas cheias, escreve-se em prosa por apreciar a escrita em linha reta. Tenho fases como a lua... sendo a minguante a minha preferida!

8 comentários em “39 — Os sutis movimentos do cuore que nos salvam

  1. Eu suspirei em minha quase noite. Enquanto lia imaginando te ouvir visualizo a cena de você voando através das mãos dos teus.
    É certo, de alguma maneira eu te espiei e tempos depois o universo me liga até você…
    Meu cuore te abraça…
    enquanto imagino você sem as consoantes acompanho a canção:
    I’ve got my eyes all over you baby, oh baby

    1. Que bom que você existe para que eu possa ler cartinhas assim, tão maravilhosas.
      Acho lindo esse corresponder-se que acontece entre vocês. Sorte a sua que não sou ciumenta. Mas sinto uma pitadinha de inveja, sabe? Tipo pimentinha que a Lu não gosta, mas que eu sempre coloco no meu ragu.
      Eu cantei junto com você enquanto lia e via essa menina linda rodopiando. Coisa linda, isso

      Bisous

      1. Fiquei emocionada com seu comentário. Sorte sua que eu não sou ciumenta. As missivas de Lunna aquecem meu coração e minha alma.
        Merci por cantar comigo.
        Bisous

  2. Um post que recebo, e com sua licença ofereço a todos que amo e que o tempo os levou pra longe e aos que nunca tive e nem terei.
    Palavras, trechos e a música agitaram meu espírito,sopraram vida e aquela espécie de campainha dizendo vai “se entregue mais” porque o tempo é breve! rs
    Sempre expressando sentimentos com uma ponta de nostalgia, fico mexida quando te leio querida menininha saída do sotão e convertida em Catarina…

    um beijo e obrigada.

  3. essa carta encheu de ternura meu peito, e de saudades de tantos outonos passados tão lá atrás… lembranças boas.

    por aqui, maio já é um mês frio, lembro-me do fogão a lenha da casa dos meus pais, dos pinhões assados na chapa do fogão e nós todos em volta esperando meu pai abri-los. Eu sempre ganhava o primeiro porque era criança da casa. Eu sempre ganhei tanta coisa por ser a mais nova, criança quando os outros já eram meio adultos. Lembranças boas a tua carta despertou em mim…

  4. Lu, esse texto me emocionou profundamente. Te vi a rodopiar pelos ares, a fechar os olhos e ser pássaro. Que delícia. E que maravilhoso ter alguém para te fazer sentir a criança que era diferente das outras, mas que era criança e que às vezes, se esquecia disso. Que bom que ele te fez lembrar.
    Acho que ele foi uma alma incrível e sei que é graças a ele que te leio porque foi ele quem te mostrou essa janela que nos aproximou.
    Que bom que ele estava feliz e que bom que você se sente em paz por isso e por tê-lo em sua vida. Que delícia foi ler isso.

    Beijos, com todo o meu carinho…
    Te abracei forte, viu?

  5. Este post me animou um pouco, pois realmente tenho usado a desculpa em não ter tempo (por causa do trabalho do escritório), sendo que o meu mundo encolheu de tal forma que o espaço de uma sala é demasiadamente grande, ficando apenas do tamanho de um coração…

    Mas é facil esquecer que haverá dias felizes, ou melhor ainda, que vivemos dias felizes (é mais facil lamentar as tristezas que relembrar as alegrias).

    Fique com Deus, menina Lunna.
    Um abraço.

  6. É Maio e o tempo passa…
    É Maio e as nossas memórias longínquas ainda permanecem…
    É Maio e vamo-nos vendo menos, mas ainda assim nos vemos…
    É Maio e já quase meio ano está passado!

Pronto para o diálogo? Eu estou (sempre)

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: