A leitora que eu sou

Eu nasci na famigerada década de oitenta — a famosa década perdida, com todos os seus excessos. Por aqui, estranhamente, ficou conhecida como a década de ouro. Mas, ao espiar o que era o Brasil desses dias, fica fácil compreender essa geração de alienados e negacionistas que assolam o país atualmente. Impressionante como ninguém se deu conta do horror desse tempo. E há os saudosos de uma realidade opaca e completamente sem brilho… 

Eu cresci numa rua pacata… parte de uma vila composta por duas ruas e uma avenida que nos conduzia por rotas curiosas… à pequena ponte de pedras e suas lendas urbanas — replicadas de boca em boca — e a velha praça onde caminhar, correr, pedalar, jogar xadrez e esperar pela mudança das estações. Ali tudo acontecia primeiro. 

Não convivi com escritores… mas o nonno tinha uma apetitosa prateleira de livros e uma caixa abarrotada…  com escritos seus. Ele não era um escritor… Era um contador de causos — como ele mesmo dizia ser. Em sua prateleira havia poetas antigos e alguns romances — apenas os seus favoritos.

Em minha casa, o meu pai tinha uma extensa coleção de livros jurídicos e meia dúzia de tramas policiais… Era leitor de Arthur Conan Doyle e de Agatha Christie. A minha mãe espalhava os seus livros favoritos por toda a casa e eu os encontrava em toda parte — inclusive nos lugares mais inusitados. Ela adorava contos indianos e sua realidade se explicava facilmente a partir de trechos inteiros de suas leituras.  

Havia um personagem incrível em minha infância. Um livreiro… o feliz proprietário de uma pequena livraria de rua — situada pouco depois da tal ponte de pedras. Era o meu lugar preferido, na cidade. E ele era a minha a pessoa favorita.

Adorava conversar com ele. O homem sabia todos os livros que tinha em suas prateleiras… organizadas por gênero. Ele não me tratava como criança. Eu era uma leitora, que sabia o que gostava de ler. E ele nunca me ofereceu um daqueles livros bobos, com figuras enormes e poucas palavras. Nunca fui leitora de literatura infantil… 

Foi ele quem me falou mais a respeito da senhorita Emily Dickinson, a Poeta que me fez pensar em escrever. É possível uma página falar diretamente à minha alma? — perguntei e ele abriu um enorme sorriso.

O signore B., não tinha respostas prontas e gostava de pensar um pouco antes de dizer qualquer coisa. Nisso, era parecidíssimo com minha mãe. Passei a acreditar que era uma qualidade dos leitores. E era delicioso o ato de esperar… como se eu estivesse sentada à mesa, aguardando por uma xícara de chá. Chaleira no fogo e a espera pelo apito estridente. A água precisa atingir a temperatura certa para isso acontecer — nem antes, tampouco depois. 

E ele me disse… um livro é como uma pessoa. A gente sente através de todos os nossos sentidos se acaso aconteça o estado de empatia. Você pode não gostar de um livro, de um autor. É simples… nunca complique isso. Não se obrigue a ler o que não gosta. Você encontrou nessa poeta, um pouco de si. E vai acontecer de novo e de novo e de novo. Mas, em algum momento poderá não acontecer. 

Toda vez que pego em um livro, pela primeira vez… eu respiro fundo e sinto a textura do papel em minhas mãos. Espio o título, o nome do autor e vou direto para a primeira página — saltando todas aquelas informações avulsas e descartáveis que lá estão… 

E fico feliz ao constatar que ele estava certo… aconteceu de novo!

Publicado por Lunna Guedes

Sou sagitariana... degustadora de café. Figura canina e uma típica observadora de pássaros, paisagens, pessoas e lugares. Paciência é algo que me falta desde a infância. Mas sobra sarcasmos para todas as coisas da vida que fazem mais barulhos que cigarras nos troncos das árvores. Aprecio o silêncio e falas cheias, escreve-se em prosa por apreciar a escrita em linha reta. Tenho fases como a lua... sendo a minguante a minha preferida!

3 comentários em “A leitora que eu sou

  1. Só você mesmo pra escrever algo tão bonito, ainda mais nesses tempos difíceis. Mas é aquilo, eu chego aqui e começo a viajar muito e adoro isso 🙂
    Ah, teu blog é lindo, Lunna. já falei, mas repito: amo a forma como você se expressa! Faz parecer que eu estou sentada na mesa do café, esperando pela bebida enquanto você me conta essas coisas.

  2. Nossa, eu viajei agora, na minha infância eu lia livros na biblioteca de uma vizinha, que era professora e tinha um monte de livros para crianças.

    Adorei lembrar disso 🙂

  3. Eu adoro a sua escrita 🙂
    Sei que muita gente já deve ter perguntado isso, mas eu adoraria saber como surgem as idéias para esses textos. Você se senta aí na frente do notebook e diz: hoje eu vou escrever a respeito disso. É assim?

    Bacio

Pronto para o diálogo? Eu estou (sempre)

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: