O que ando a ler | Solombra…

Que eu gosto — de ao cair da tarde — colocar a chaleira no fogo para preparar uma xícara de chá… não é novidade. Enquanto espero, caminho pelos cômodos da casa, apreciando os meus passos pelo piso-frio e me deixo conduzir até a prateleira, onde escolho um livro de poesias a partir do tato, sem me importar com título, autor… para ser lido enquanto a tarde tomba e a noite se avoluma…

Solombra — que deixou a prateleira — é um dos meus favoritos. Mas nem é um livro, como propôs o Editor… O título flutua na capa. Mas se trata de um combinado de poesias com sonoridades que representam a ideia de noite, do mistério e da aceitação da morte.

O conjunto de poemas que compõe Solombra — foi escrito um ano antes da morte da Poeta — se encerra na página vinte e três do livro e a organizadora, escolheu Sonhos para vir em seguida… Eu acusei o susto. Me senti andando no deserto, sem forças e sedenta… e de repente, me deparei com um lago de águas translúcidas. Ou seja… uma miragem.

Vens sobre noites sempre. E onde vives? Que flama
pousa enigmas de olhar como, entre céus antigos,
um outro Sol descendo horizontes marinhos?

A palavra sombra é uma evolução de “solombra”… É como se tivessem tirado o peso da palavra, deixando-a mais simples, menos poética… Incapaz  de denominar essa região escura que se forma no chão, devido à ausência de luz. Ao ler os versos desse conjunto de poemas, senti que a poeta Cecília Meireles tentou se antecipar a morte da palavra, evitando o seu completo desaparecimento porque enquanto palavra, Solombra nos obriga ao breu, que tanto tormento causa aos ‘navegantes’. É uma palavra inteira-imensa-completa… nítida. Uma tela impressionista. Um céu tão negro que não nos oferece outra coisa além de sua escuridão.

…e esse é o mote dos versos de Cecília que deseja transpor a vida. Mas esbarra na Morte, essa espécie de ponto final, que a silencia e cala, impondo a poeta uma porção de sentimentos conhecidos: a melancolia e a solidão. Tudo a leva para esse lugar quieto-comum, raso… e dá para sentir as ondas indo e vindo, molhando os nosso pés em acenos de chegadas e partidas.

É que morremos – e num lúcido segredo –
sabendo, ouvindo – atravessados de evidências –
que somos de ar, de adeuses de ar… E tão de adeuses

que já nem temos mais despedidas.

A poeta não compreende o ponto final… um poema vai para o outro e o outro até o último, que silencia a escrita, mas não encerra o dilema e abraça a pergunta: o que existe depois?

a vida, a vida, a vida! e sendo apenas cinza.
E sedo apenas longe. E sendo apenas essa
memória indefinida e inconsolável. Pousa

teu nome aqui, na fina pedra do silêncio,
no ar que frequento, de caminhos extasiados,
na água que leva cada encontro para a ausência

com amorosa melancolia.

Publicado por Lunna Guedes

Sou sagitariana... degustadora de café. Figura canina e uma típica observadora de pássaros, paisagens, pessoas e lugares. Paciência é algo que me falta desde a infância. Mas sobra sarcasmos para todas as coisas da vida que fazem mais barulhos que cigarras nos troncos das árvores. Aprecio o silêncio e falas cheias, escreve-se em prosa por apreciar a escrita em linha reta. Tenho fases como a lua... sendo a minguante a minha preferida!

12 comentários em “O que ando a ler | Solombra…

  1. Primeiro respiro um tempo, deixo The Book of Love que estava tocando terminar, começar o meu adorado Ho Hey dos The Lumineers… e daí posso comentar.

    Não li o livro, mas é claro que já fiquei no desejo. Mas é um desejo pra contemplar mais para frente, porque acho que ainda não estou mentalmente pronta pra deixar a sombra e entrar na solombra, se dá pra entender a loucura que me ocorreu aqui… ahahaha

    A indicação foi devidamente anotada, de toda forma!
    Baccio

  2. Olá!!

    Posso dizer que sou uma leitora menina ainda de Cecília Meireles e digo isso porque tenho tanto a explorar. Mas desconhecia Solombra e fiquei encantada. Com a sonoridade e como sendo antecessora a sombra.

    Lindo post!!

    bjs
    Fernanda

  3. Ah, amo Cecília e igualmente a ela, digo que ‘tenho fases como a lua’.
    Mas eu desconheço Solombra. Acredita? A sonoridade é incrível e o poema que você colocou no post me deixou sem ar. E fiquei a pensar nessa questão de sonhos depois da sombras que parece ser uma dança entre vida e morte, mais vida que morte ou algo assim. Gente, preciso desse livro para ontem.

    bisous

  4. Eu um dia comecei a ler por acaso, em casa ninguém tinha esse hábito, então eu lia o que tinha o que encontrava.

    Nunca fui apresentada as grandes escritoras e só depois, na fase adulta que fui conhecer um pouco mais. Mas não me aprofundei nesse mundo e não conheço quase nada de Cecília Meireles.

    A minha literatura é bem rasa , infelizmente.
    Mas sempre é tempo de mudar não é mesmo?

    Confesso que fiquei aqui repetindo Solombra por várias vezes… e gostei de como soou. rs

  5. Solombra já nem me lembra mais Cecília – quase abreviei aqui… rs – já me lembra tu e a Plural…

Pronto para o diálogo? Eu estou (sempre)

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